alla Filosofia Dialogica, Letteratura, Relazioni Internazionali, Scienze Interculturali, Diritti Umani, Diritto Civile e Ambientale, Pubblica Istruzione, Pedagogia Libertaria, Torah, Kabballah, Talmude, Kibbutz, Resistenza Critica e Giustizia Democratica dell'Emancipazione.



ברוך ה"ה







mercoledì 2 luglio 2008

Diante do MAR e do DESERTO ou, diálogo entre um Rabino e uma discípula acerca dos lábios salgados e da água fresca


Diante do MAR e do DESERTO ou, diálogo entre um Rabino e uma discípula acerca dos lábios salgados e da água fresca

por Pietro Nardella-Dellova
da Sinagoga Scuola, Beit Midrash

B’H - ב׳ה

A saudade e a lembrança pressupõem a presença de pessoas, ávidas pelo conhecimento, ávidas pela luz e pelo momento em que tenhamos um estado de Shalom pleno e continuado. Mas, precisamos de mais desprendimento, mais solidariedade, mais consciência e mais responsabilidade com o que temos em mãos, isto é, a Torá.

Você se surpreende por ser amada por um Rav? E por que a surpresa, se amar e ensinar estão dentro em contexto da mesma natureza e substância? Amar é um estado em que um relacionamento se concretiza para o crescimento, para o fortalecimento, para o desabrochar, para a alegria e para a descoberta da nossa própria humanidade. Por isso mesmo, ensinar a Torá e amar se converte na mesma relação. Amar não é ter ou possuir, escravizar ou pendurar na parede, seja uma cabeça ou uma fotografia. Amar é lançar o outro adiante, na luz e nos processos de libertação e, assim, na constância, convertê-lo em “tu”! Amar não é um procedimento idolátrico, diante de um deus grego ou romano, mas uma descoberta, uma realização, uma libertação, uma unção...

Por um pouquinho falaremos mais sério, mas depois voltamos, debochadamente, a sorrir, rir, brincar, dar gargalhadas. Não, não é necessário ser sério em todas as horas do dia, não gosto de ser sério em todo o tempo. Embora, as muitas responsabilidades docentes, sinagogais e familiares e os muitos relacionamentos pelo mundo, com pessoas com as quais me ocupo, façam de mim uma pessoa menos sorridente, mais centrada e menos estrambótica. Ma, va bene...

Não me faz bem essa seriedade continuada. A vida vai ficando pela estrada... e as pessoas vão ficando um pouco amedrontadas, um pouco distantes. Ficam com medo até de levantar a mão para o cumprimento de passagem. Mas, naquilo em que devemos ser sérios (são poucas as situações que exigem seriedade), devemos, então, ser sérios! Tenho sido sério no que respeita à Torá e no que toca à Cultura Judaica, no que se refere à Educação em geral e aos momentos em que me encontro diante de um quadro negro e um giz em mãos...

Não brinco com nada que se refere ao Eterno! Porém, no mais, deixo a seriedade, a introspecção e as formalidades, para estar com pessoas, sorridentes e leves, sem pesos nem loucuras. É bom estar, assim, leve, e ir ao cinema, tomar um bom café, falar besteiras, dançar, ir ao teatro, sorrir, dar gargalhadas, brincar, provocar o riso, desafiar aos momentos mais suaves...

O que eu quero dizer com isso, querida? Muita coisa, muita coisa mesmo... Quero dizer, por exemplo, que ao entrar em uma sala de aula (e você já me viu em sala de aula), e quando tomo o giz em minha mão, quebrando-o ao meio, eu sou absolutamente profissional, responsável com o que eu ensino, procurando dar aos meus alunos todo o apoio acadêmico, todas as informações, toda a orientação, ajudando-os a investigar o universo jurídico com amplitude, humanidade e verticalidade...

E, quando estou na Sinagoga, sobretudo, debaixo do meu Talit, ou com os Tefilim postos em minha testa e braço, diante do Aron Kodesh e com a Torá diante dos meus olhos, meio abaixados, sou absolutamente zeloso com este universo, com o que diz respeito a HaShem, apenas procurando transferir em cânticos, preces ou Midrashim, o que recebi ao longo de toda minha vida de Estudos da Torá...Vejo aquelas crianças e aqueles meninos e sinto que o que mais posso lhes dar é a certeza de quem não serão enganados nem vitimados diante de lobos religiosos, diante de pagãos e estelionatários. Não quero que estraguem suas vidas com as ilusões religiosas, mentiras e falsidades.

As pessoas, em quaisquer situações, são caras demais, valiosas demais e preciosas demais...E, por isso mesmo, procuro transferir a Torá, com toda minha alma, com toda minha força e com todo meu pensamento. São seus filhos e são meus filhos, é o futuro deles que pretendo garantir com as luzes da Torá. Concorda, querida? Tem certeza que concorda? Você consegue ver isto mesmo e esta nossa relação? Observa isto no Rabino, no Professor? Ou, ao contrário, vê mais um falsário, mais um mentiroso, mais um estelionatário, enganando alunos e participantes de uma Sinagoga?

No entanto, minha cara, às vezes (a maioria das vezes), eu gosto de ficar mais leve, mais solto, sem os gizes, sem meu Talit e Tefilim, sorrindo, apenas sorrindo e vibrando com gargalhadas, provocando, cutucando, fazendo sorrir, fazendo o rosto ficar vermelho e o abdômen dolorido. Nada há de melhor, estando leve, que tomar uma boa taça de vinho, falar de poesia, de uma peça qualquer (sobretudo, se for “diálogos da vagina”). Nada há de melhor que correr pela areia da praia, estar com amigos e amigas, sem ter que falar de coisas mais sérias.

Tenho buscado o melhor modo de libertar o homem, o poeta e o ser humano, do Rabino e do Professor. Porque o homem, o poeta e o ser humano, não devem se privar de viver, apenas viver, com simplicidade... Você me diz, querida, que é um privilégio estar com o Rabino e com o Professor? Não, não é assim! Não é o seu privilégio, mas o meu, a pessoa, o ser humano (dentro do Rabino e do Professor). É o meu privilégio, pois vocês fazem bem em serem humanamente pessoas! Vocês me fazem bem em sorrir e em não perguntar coisa alguma da Cátedra e da Sinagoga!

É isso que me leva às lágrimas, neste instante...E gostaria que soubesse que na condição de Rabino, a vida é solitária, muito solitária...Para entender isso, as pessoas deveriam ter amadurecido, a fim de suportar dividir questões de peso, de fundo e de grandeza...A questão judaica não é tão simples que possa ser lançada no mundo sem um criterioso método...

O Rabino deve correr, correr, correr muito (e sozinho) para fazer com que todos corram também... Por isso, estar mais à vontade, mais leve, sobretudo, em companhia de pessoas como você, que brincam, sorriem e não limitam as oportunidades de estarem bem, fazem-me mais amigo, mais sorridente, e mais forte para continuar...Tenho a impressão que vivi centenas de anos, compreende? Muita coisa, muita história, décadas de trabalho, milhares de livros, embates acadêmicos e universitários, questões midráshicas sem fim, rolos e textos que não acabam...São experiências que transformam qualquer um em gigante, compreende? Por isso mesmo as coisas parecem mais fáceis...mas, não são! A constante intensidade em tudo traz vontade de vômito.

Pois a vida nos impõe isso mesmo, lutar por cada livro, por cada espaço, por cada conceito (contra preconceitos), por cada minuto e, ainda, tentar manter o sorriso. Por isso, às vezes, vem aquela vontade de vomitar ou de abandonar tudo, e ir para o campo, cuidar de flores, animais, ver a chuva, o sol e desenvolver alguma sensação de paz...

Por que a vontade de vomitar? Você tem certeza que está fazendo essa pergunta? Eu lhe digo. Acumular energia, tornar-se gigante, vencer medos, dissabores, superar oscilações psicológicas, idiotices, preconceitos e padrões rasteiros, traz aquela certeza de que, ao mover um dedo, um dedo apenas, é possível esmagar os que se encontram ao lado, em qualquer situação. Daí aquela vontade de falar pouco em livros, em judaísmo, em Torá, em Princípios, para simplesmente redescobrir o sorriso, as brincadeiras, o vinho e estar bem com as pessoas boas.

Mas, por outro lado, se deixar tudo, abandonar tudo, desfazer a minha própria constituição, tenho igual medo de atingir as pessoas próximas, crianças que crescem com o som de Hatikvah e com a entonação do Sh’má...As crianças e as pessoas em geral, são frágeis, pequeninos, indefesos...cabem na palma de uma mão. E, fora, há muitos “castros”, muitos “mirandas”, muitos “macedos”, muitos “bentos”, enfim, muitos lobos que violentam o mundo com conceitos de demônios, de céu, de inferno, de deus-menino, de virgindades...

Porém, eu sou apenas uma pessoa. Não sou HaShem! Sou, por agora, apenas um homem bem intencionado, que não quer a gordura nem o pagamento das pessoas...Não quero o pagamento pelo que ensino diante da Bimá, tendo em vista que ensinar aquilo que ensino traz a impressão de que estou deixando um mundo melhor para os meus próprios filhos. Ensinar a Torá, e apenas a Torá, é legar algo de maravilhoso, de simples e de liberdade às gerações futuras. O que não estiver na Torá, não está no mundo...

Eu sei , eu sei que falo muito de pessoas divertidas (e, agora mesmo, estamos falando). Por quê? Porque olho adiante, e vejo o mar e o deserto, um grande mar e, além, um cauticante deserto, diante de mim, no caminho de todos, e penso comigo: como atravessar o mar e o deserto, e como fazer com que todos passem? E gostaria que passassem leves, divertidos, sorridentes, cantarolando. Seria, dessa forma, mais fácil a experiência do mar e o enfrentamento do deserto... Por que falo em divertimentos? Quer mesmo saber o porquê de eu falar em divertimento? Porque eu fiquei, minha querida, muito tempo diante do mar, olhando e pensando, meditando e raciocinando, buscando a estratégia para ajudar essas pessoas a atravessarem o mar, para facilitar essa experiência e dar-lhes a mão...

E, assim, porque fiquei diante do mar, minha boca ficou salgada, meus olhos ficaram salgados, minha pele ficou salgada, minha poesia e humanidade ficaram salgadas. E fiquei com sede. E voltei os olhos para ver quem poderia me dar um pouco de água (e não havia ninguém tão próximo). Estavam longe, esperando que eu lhes dissesse como atravessar o mar e como enfrentar o deserto. Mas, eu queria apenas um pouco de água, para aliviar a boca seca e salgada... E vi, à distância, que todos estavam bem, divertindo-se, cantando, sem poder saber que eu queria apenas um pouco de água. Apenas um pouco de água, e nada mais, para que eu pudesse dizer, então, como atravessar o mar e como enfrentar o deserto. Fiquei espantado que não encontrasse quem me desse um pouco de água, apenas um pouco de água...

Divertidos...Divertidos? Sim, querida, divertidos...Eu tinha que ficar diante do mar, mas queria estar, também, no acampamento, com todos, divertindo a minha alma, meu coração e enchendo meus olhos das alegrias que a todos estavam sendo dadas. E, de longe, eu querida dizer algo. Um pouco de água, um pouco de música, um pouco de vinho, um pouco de sorriso, um pouco de piadas, um pouco de brincadeiras, um pouco de danças, um pouco de palhaçadas, um pouco de amizade, um pouco de divertimento. Do mesmo divertimento que estava no meio do meu povo...Entende? Entende mesmo, querida?

Eu sei, querida, que não pode entender plenamente. Não é isso que quero. Sabe por que não pode entender, quer saber? Quer que eu lhe diga por que não pode? Quer querida? Você me vê? Enxerga o Rav? Você percebe o Rav? Eu sou o Rav de sua casa? Sou seu Rav? E é por isso mesmo que você não pode compreender tudo nem discernir tudo! Porque você vê o Rav!

Você vê o Rav, mas não consegue ver o mar (que o Rav vê), por onde você e sua família terão que passar. E não consegue ver além do mar, o deserto, por onde terão que caminhar. Você não compreende tudo porque me vê, como Rav, e eu vejo o mar e o deserto... De onde estou, vejo o mar. De onde você está, você vê o Rav...e, parece que, à distância, o Rav, cuja função é mesmo ver o mar, está bem...enquanto a música no seu acampamento continua...Você vê o Rav, mas não consegue ver o homem, o poeta e a pessoa...

Mas, te ocorre que o Rav, que o vê o mar e o deserto, está com a boca salgada, com os olhos salgados, com a pele salgada e com a alma salgada? E que ele, o Rav, quer apenas um pouco de água fresca? Você sabe disso? Você tem um pouco de água fresca para o seu Rav, que vê o mar e o deserto, por onde todos terão que passar?

Com a boca salgada, com os olhos salgados, diante deste mar, que eu vejo... e, porque vejo o mar, vejo, além do mar, o deserto, por isso mesmo, precisarei erguer as mãos, unindo os dedos (sabe, unir os dedos?), e precisarei proferir a Brachá (lembra, a Brachá?), aquela mesma, proferida com amor, cuidado e zelo, que alcança nossos filhos, e os filhos depois deles, sabe? Aquela Brachá que, sem ela, nossos filhos e filhas estarão perdidos no deserto... Pois bem, querida, não consigo! Pois minha boca está seca e salgada, e minhas mãos machucadas e trêmulas. Preciso apenas de um pouco de água fresca, que venha de alguém que perceba a necessidade de erguer a mão, com um copo de água fresca, e que diga:

Rav, beba! Rav, não chore! Rav, viva!

Você pode, querida? Se puder, faça-o, com serenidade, sabedoria, carinho e prudência, estenda sua mão e dê a água que me falta... e tire o sal que se impregnou nos meus lábios, na minha alma e nos meus olhos...e, em troca, terei forças, terei saúde, terei energia, terei vigor e levantarei minhas mãos, unindo meus dedos, diante de HaShem e diante do Aron Kodesh e poderei, quiçá, abençoar mil gerações, e conduzirei você pelo deserto e a ajudarei a passar pelo mar...

Por ora, este Rav que te ama, e ama, também, sua família, está distante, sozinho e triste, açoitado pelo vento, pela areia e pelo dissabor, com os olhos chorosos, com a alma pesada, com os passos cansados, com as mãos machucadas, com a boca seca e salgada, de um sal triste e de uma pesada brisa, esperando, apenas, que pessoas boas, como você, possam lhe oferecer um pouco de água...

Mas, também, estou um pouco surdo, e um pouco cego, e um pouco insensível, e um pouco acamado e enfermo. Estou difícil de encontrar, tal a distância em que me encontro...Mas, se você vier a meu encontro (você viria ao meu encontro, querida?). Viria mesmo?

Freehold, USA, 26 Sivan, 5768 (29 giugno 2008)

© do autor - Pietro Nardella-Dellova. Mestre em Direito pela USP – Universidade de São Paulo e, Mestre em Ciências da Religião pela PUC/SP – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Rav na Sinagoga Scuola. Membro da UBE. Autor dos livros AMO, NO PEITO e ADSUM. Professor universitário.

Mais informações e textos: http://nardelladellova.blogspot.com/Contato: professordellova@libero.it

Nessun commento: