alla Filosofia Dialogica, Letteratura, Relazioni Internazionali, Scienze Interculturali, Diritti Umani, Diritto Civile e Ambientale, Pubblica Istruzione, Pedagogia Libertaria, Torah, Kabballah, Talmude, Kibbutz, Resistenza Critica e Giustizia Democratica dell'Emancipazione.



ברוך ה"ה







mercoledì 2 luglio 2008

Em função de EURIDICE ou, diálogos na madrugada para que flores se livrem da morte


Em função de EURIDICE ou, diálogos na madrugada para que flores se livrem da morte


por Pietro Nardella-Dellova
da Sinagoga Scuola, Beit Midrash



Vai e estenda a sua mão, a amizade e o afeto. Vai, mas, antes se cubra de sabedoria, prudência e serenidade, e vista luvas, e se banhe em águas purificadas. Vai, cante uma canção, suave e melódica, em face das sombras que cobrem a alma daquela mulher... pois ela vem de longe, trazendo o peso da infância deformada nas crendices de esquinas, nas asperezas da periferia multifacetada, nos gritos de botecos e nos sonhos frágeis de uma colegial...

É a sombra espessa, com peso asfáltico e cores marrom-escuro, capazes de atingir no âmago, no frágil equilíbrio das composições humanas, e arrastar para o mais profundo dos infernos, onde tudo vira carvão de churrasco, garrafas quebradas no quintal e latas enferrujadas sobre as lajes. São aqueles gritos que deveriam ter sido calados, com isopor, faz tempo. E a infância que deveria ter dado lugar à flor da vida, às pérolas, à maturidade e aos vôos mais altos...

Vai, e encontre aquela mulher, que anda presa, ainda, às rezas que enceguecem e transformam jardins de inverno em flores plastificadas, e arquiteturas italianas em caixas de papelão molhadas. Vai, minha cara, vai desatar os nós que se formaram nos jogos de cordas, nas solidão do bem-me-quer, e tente trocar o barulho de um vinil em dias de festa de aniversário ou fumaças de formatura, por uma poesia de Drummond. Tente dizer ao ouvido daquela mulher que a vida clama, e não espera. Que a vida passa...

Ela precisa de sua própria alma, perdida em algum evento místico, desfeita diante de algum bastardo, jogada nas águas sujas do esgoto que se acumula à porta, nos corredores, nos intermináveis corredores, feitos de frustração, de loucuras e de ratos que ficam em pé. Vai, e estenda sua blusa para que ela passe...

Você me daria água? Água para amenizar o sal que se cristaliza na minha boca? Vai, então, e tire o sal da minha boca pois tenho vertigens, e ânsia, e tremores que me acordam pela madrugada, pois o céu, as estrelas e as flores, não podem ser colocadas em um poço fundo e escuro...E aquela que se encontrar em poço fundo e escuro, inimaginável, não pode ver o céu, as estrelas e as flores.

Lançaram o mestre de um penhasco e seus intestinos foram deixados aos corvos da terra. E o despiram dos pergaminhos sagrados e arrancaram dele cada um dos olhos, e o fizeram vomitar cada uma das letras da Torá. Encheram seu cérebro de vermes e o ofereceram aos deuses pagãos. E, cortados, seus dedos e sua língua, foram deixadas às hienas... E o Poeta? Roubaram dele a Lira e a Harpa e, agora, andando de um lado para o outro, geme à porta de Plutão.

Vai, querida, arranque aquela mulher de entre os cães, aquela mulher que foi amarrada em estacas do sangue que corre nas veias, e que ainda cheira a sopa do ventre que a formou, pois a direção e o caminho se perderam, a luz converteu-se em velas que adornam o esquife...

De longe, um sopro pode machucar aquela mulher. Vai, e leve, então, a candura, a bondade, o espírito e uma tocha à mão para iluminar aquele rosto. Mas, coloque-a bem perto do seu rosto, pois se encontra deformado, envolto em escuros panos rotos, e não se importe, minha cara, se ela estiver com pedras à mão e que sua voz lembre o turbilhão de águas que se encontram e que se despejam do alto. Vai, e não se importe que das suas faces saia o enxofre e a tristeza. Vai, e fique sobre um pedra, aponte a luz, a leveza, a árvore e os ramos, aponte o Mikvê, e empreste a ela uma peneira para que se recolham as letras perdidas na escuridão. Ajude-a encontrar entre grãos de areia, choros continuados e pensamentos maus, a letra yud י , e mais adiante, a letra he ה ,e entre musgos a letra vav ו e, finalmente, complete seu vigor com a letra he ה . E, mostre a ela como unir essas letras e formar o Nome de Quem ela não pode se esquecer, o Nome capaz de fazer o “nada” se transformar em Jardins Coloridos, o Kaos em Kosmos e o pó da terra em coisas “muito boas”...O Nome do Eterno... Vai, querida, e mostre do que é feita uma judia e porque você é filha de Sarah, Rivkah, Leah e Rahel...Vai e, acorde-a para receber luz e poesia por mil gerações...

Assim, ela terá a luz, a candura perdida, o bom coração e o bom espírito. E sua alma, perdida em um longa noite escura, úmida e sombria, voltara ao seu ninho e seus dias serão de paz e poesia...Oxalá pudesse eu movimentar um olhar e um bocejo, de terras longínquas onde me encontro, e fazer a unção cobrir-lhe como um manto de realeza. Os meus sons ecoam e amedrontam os moradores das valas comuns, estremecem os seres monstruosos e cadavéricos, fazem calar Plutão e fugir, apavorados, os cães guardiões das profundezas, mas não chegam a ela, não a tocam nem a fazem viver. Meu braço se estende, dentro da morada da serpente, e doem meus músculos e avanço, ainda, a mão aberta e hirta, rasgando-me o peito, mas, por uma película indecifrável, por uma vestimenta de pasmo e pavor, não a toca...porque ela deve fazer um movimento em direção à poesia, à mão e à vida...

Vai, querida, vai por mim. Leve em suas mãos, concentrados, os rumores da minha fala, as vibrações das minhas bênçãos e, leve, também, as lágrimas que derramei, e diga-lhe com serena voz, muito serena, que estou doente, sem Lira nem Harpa, sem Bênção nem Torá, sem Talit nem Tefilim, descoberto diante de um mundo agressivo que me violenta com escarros e excrementos, que me fragiliza com o sal apegado à língua. Minha boca está salgada, compreende? Ah, querida, se pudesse me dar uma fritella... Mas este pão, o pão dos justos, daqueles que plantam, e colhem, e carpem, tornou-se uma goma, uma cola, grudada ao céu da boca e entre os dentes...

Passou uma criança e me disse: - cante! E eu fugi, tomado de pasmo, como quem corre do medo e vomita pela morte...Passou um ancião e me disse: - lance uma Brachá sobre mim, e eu desmaiei do terror que me invade e me sufoca... Passou um casal e me disse: - fale sobre a Torá! E eu não pude tirar a Torá do Aron Kodesh, porque os que me olhavam do alto, dos andares superiores, riam de mim, e lançavam sobre a Bimá milhares de cebolas, milhares de tomates e milhares de berinjelas...

Vai, então, minha querida, vai sozinha, porque estou nesta estaca, levantada no tempo e na passagem. Fizeram de minha cabeça um troféu, da minha dignidade uma vergonha, tiraram a pele do meu rosto para os balões de aniversário e misturaram meu fígado ao vinagrete e serviram a meu povo. Vai, vai por mim, porque ando com náuseas pela manhã e me sento na praça à tarde. E, o dia inteiro, como quem espera ser lambido pelos cães...

E por que ando assim, desfeito no pó? Porque pedi aos transeuntes que amarrassem minhas mãos e tapassem minha boca, pois o meu cântico tornou-se uma praga e a Lira, da qual fazia suonare poesia e vida, foi largada em uma caixa de gordura. Por isso fico assim, andando pelos bares de Roma, buscando caffé e água. Mas, Roma, não é mais a mesma...as pessoas não falam italiano em Roma, falam outras línguas, mas não o italiano...Eu peço água e eles não me entendem. Vai, então, enquanto curo as feridas da minha face e a escuridão dos meus olhos...vai...e desperte Euridice...

Vou a Napoli. Em Napoli encontrarei as vias estreitas. Procurarei minha alma entre pessoas que me compreendem. Ninguém me pedirá uma canção hebraica nem solicitará uma Brachá. Ninguém pedirá que eu leia coisa alguma. Em Napoli terei tempo para ficar quieto...


Freehold, USA, 27 Sivan, 5768 (30 giugno 2008)

© do autor - Pietro Nardella-Dellova. Mestre em Direito pela USP – Universidade de São Paulo e, Mestre em Ciências da Religião pela PUC/SP – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Rav na Sinagoga Scuola. Membro da UBE. Autor dos livros AMO, NO PEITO e ADSUM. Professor universitário.

Mais informações e textos: http://nardelladellova.blogspot.com/
Contato: professordellova@libero.it

http://help.blogger.com/bin/answer.py?hl=br&answer=42215

1 commento:

Julia Carla de Pedroso de Moraes ha detto...

Estimadíssimo Professor Dellova, li estes últimos textos, como disse na mensagem do seu orkut.
E este, em especial, EURIDICE, fez-me tremer na base.
Quantas imagens, que construção e que vigor em suas palavras. Creio que, na verdade, não são palavras articuladas, mas tiradas de sua própria alma.
Estou envaidecida de fazer parte de seu grupo de pessoas relacionadas.
Abraços com estima e carinho
Julia Carla Pedroso de Moraes