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ברוך ה"ה







mercoledì 9 luglio 2008

Entre o Castelo e as Escadas ou, GUARDA LA LUNA, MAMMA!


Entre o Castelo e as Escadas ou, GUARDA LA LUNA MAMMA!


por Pietro Nardella-Dellova
da Sinagoga Scuola, Beit Midrash


Vivemos em um tempo de rótulos, apenas rótulos, lamentáveis rótulos! Há uma incessante e desastrosa busca por marcas, estereótipos e máscaras. Nessa marcha, as pessoas vão perdendo o brilho, a grandeza, a direção e, pouco a pouco, por medo de enfrentarem os seus abismos pessoais, atribuem ao outro o peso da culpa pelos males do mundo, e pelos infernos (todos quantos se possam criar pela imaginação humana).

Por isso mesmo, estamos vivendo em um tempo pesado, com pessoas doentes em todos os sentidos, carregando entranhas fantasmagóricas, com marcas artificiais de violência, de espantos e temores. Com pavor de se abrirem as janelas da casa porque lá fora habita a escuridão, o desfazimento do ser e os ruídos mórbidos.

Em que medida enxergamos o conjunto de tudo que se nos apresenta? Pois, então, não poucas vezes, debilitados e corroídos pelos nossos próprios enganos e ações más, envenenamos um mundo que continua ali...Lá fora não habita a escuridão, o desfazimento do ser e os ruídos mórbidos. Lá fora reinam o sol e seu fulgor, a leveza e a Poesia. Reinam a luz e as Forças da Creação. E uma voz que ecoa: “é muito bom...”

Dentro, bem dentro de cada um, também há sóis, luzes, calor e música. Há motivos para desfazer a nuvem (ou ver por intermédio dela), romper os obstáculos (ou utilizá-los como referência) e prosseguir. Mesmo quando é noite, não é noite, pois é possível ver estrelas, encontrar a lua...

Em Fondi, passei por muitos velhinhos solenemente sentados naqueles bancos que se dispõem na Via entre o Castello Baronale e a Chiesa di San Francesco. E, passando, ouvi deles os reclamos da Grande Guerra, de suas vidas e de suas dores. Um deles, o mais convicto, disse ao outro: “la guerra è la guerra della coca-cola...”. E, em seguida, levou seu caffé macchiatto à boca, com os olhos fitos e marejados...

Havia uma menina de três ou quatro anos, brincando nas escadas da Chiesa di San Francesco, e eu estava ali, olhando o Castello Baronale, à distância... e pensando nas mãos que ergueram aquelas paredes (e na Guerra vã dos velhinhos), quando, de repente, a ragazzina gritou para sua mamma: - Mamma, guarda, la Luna!!! E, olhei para seus olhos sorridentes, sentindo o peso das pedras que sustentam aquele Castello saírem dos meus olhos e voltei-me para a lua. Sim, lá estava a lua, crescendo, aparecendo, iluminando, por entre os adornos das construções antigas... A lua, iluminada-iluminando! Afinal, nem tudo é pedra, história e pensamento. Alguma coisa é o grito de uma criança encantada com a lua!

Aquela criança encheu meus olhos de alegria, de uma tal alegria (indizível) e olhei para ela, como quem olha D-us, com olhar de ternura, de agradecimento, de afeto e de redescoberta! Porque a lua estará sempre ali, renovando os tempos, “as tardes e as manhãs” de todos os dias. Nem o Castello nem a Chiesa; nem a Guerra dos velhinhos, foram capazes de desfazer a lua.

Mas, é preciso ouvir os gritinhos das crianças porque trazem o segredo dos mundos, a substância da vida e a Poesia plena! Foi assim, como a criança nas escadas, que os homens, um dia, olharam para o alto e começaram uma busca que os levou a terras distantes, vencendo medos e mitos, vencendo ursos nas esquinas e a ferocidade dos répteis.

Mamma, guarda la luna, guarda, mamma!

É como dizer para o ventre que nos forma, para os lombos que nos trazem e, talvez, para os fantasmas e marcas que nós mesmos gravamos em nós, impiedosamente, com a mesma voz daquela ragazzina, pulando em nossos degraus e vencendo nossas escadas: “la luna, guarda!”

Entrei, entao, na La Piccola Caffetteria, um bar que fica entre o Castello e esta Chiesa, precisava de um caffé macchiatto, precisava de uma Via movimentada e precisava de uma cadeira. E pedi um “un tramezzino ma non di maiale ed anche un caffè macchiatto”. Mas, o balconista me disse: “prego, può mangiare, è buono!”. Então, seu colega de balcão lhe advertiu, dizendo: “perche lui è ebreo e non mangia maiale come io, musulmano”, olhando-me e sorrindo para mim, com a mesma satisfação do encontro Esav-Ya’akov, que só é possível em terras como a Itália e, com o mesmo ininterrupto sorriso, preparou-me um delicioso suco “di arancia”.

Ali, naquele momento, eu não estava de kipá nem ele de turbante...e, apenas sentimos, com a troca de nossos sorrisos, que nossos mundos não estavam tão distantes assim...

Naquela noite (era noite para mim, mas para as pessoas que amo, na América, era apenas a metade do dia) eu ri de mim e para mim mesmo. Bem, naquela noite, eu comprei um “pacific aromatic” e um “vino rosso” em tetra pak para, simplesmente, descobrir que a noite não é para todos, no mesmo momento e, portanto, aquela voz de criança encantada não é para todos, no mesmo momento...

Pois, depende dos movimentos que fazemos, depende da nossa vontade-ação, buscando, criando, reagindo e avançando os olhos para a lua. Porque a lua não tem história de sangue nem de amor. Não há lágrimas na lua nem sorrisos. A lua é a lua sempre! Mas, os nossos castelos trazem, ainda, o som, surdo, das vozes do tempo, dos monstros, das doenças de que fomos acometidos e dos males, pelos quais, fomos lançados sob pedras...pesadas pedras...

Amanhã vou a Napoli, bem cedo, ver o sol de Napoli e toda sua movimentação. Enquanto estiver vendo o sol de Napoli, as pessoas que amo, na América, estarão, ainda, no meio de suas noites...

...La luna, mamma, guarda la luna!


Fondi, Itália, 5 de Tamuz, 5768 - 8 de luglio, 2008

© do autor, não reproduzir sem expressa autorização

© Pietro Nardella-Dellova. Mestre em Direito pela USP – Universidade de São Paulo e, Mestre em Ciências da Religião pela PUC/SP – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Rav na Sinagoga Scuola. Membro da UBE. Autor dos livros AMO, NO PEITO e ADSUM. Professor universitário.

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Mais informações e textos: http://nardelladellova.blogspot.com/
Contato: professordellova@libero.it

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