alla Filosofia Dialogica, Letteratura, Relazioni Internazionali, Scienze Interculturali, Diritti Umani, Diritto Civile e Ambientale, Pubblica Istruzione, Pedagogia Libertaria, Torah, Kabballah, Talmude, Kibbutz, Resistenza Critica e Giustizia Democratica dell'Emancipazione.



ברוך ה"ה







domenica 19 luglio 2009

Ao MEU BABBO ou, como abençoar até mil gerações


Ao MEU BABBO ou, como abençoar até mil gerações
por Pietro Nardella-Dellova

Tudo que este homem quer é o campo florido e perfumado...
in AMO, 1989


Babbino mio, venho caminhando daqueles primeiros passos, meio trôpegos, que você orientou e ajudou a firmar e, acredite, ainda sinto, fortes e delicadas, as suas mãos nas minhas mãos e nos meus ombros e, ainda, estão presentes o calor e o afago da sua face colada à minha.

Ouço o seu riso sonoro, em meio àquelas cócegas barulhentas que fazia na minha barriga com os seus bigodes vermelhos e com o seu naso napoletano. E isto me encanta até hoje, e me leva para o ontem e para o amanhã. Eu vejo, caro babbo, seus olhos verdes num sguardo de bondade, e expressivos (dizendo sempre alguma coisa), lançados sobre mim como se fossem os olhos de D’us (e não são?).

As mãos grandes, a face meio rosada, o riso sonoro, os olhos verdes, os bigodes ruços, a barba grisalha e a sua voz... Era uma bênção única (e ainda é) ouvir a sua voz traduzindo sonetos de Petrarca, lembra? Você de um lado do quintal e eu do outro (sua voz levava-me aos anos 1300): ...stiamo, amore, a veder la gloria nostra ... vedi bem quanta in lei dolcezza piove! ... una pioggia di fior sovra ‘l suo grembo...Qui regna Amore... amore ed io sì pien’ di meraviglia!...Che debb’io far? Che mi consigli, amore?...Amor, se vuoi ch’i’ torni al giogo antico?...Amor, che nel pensier mio vive e regna...(estamos vendo, amor, a nossa glória ...veja bem como está cheia de doçura!... uma chuva de flores sobre o seu colo... Aqui reina Amor...Amor e eu de plena maravilha!... Que devo fazer? Que me aconselha, amor?...Amor, quer que eu volte à sujeição antiga?...Amor que no meu pensamento vive e reina...)

Ah, mio babbino caro, a verdade é que ninguém entendia coisa alguma porque o seu italiano misturava-se à voz emocionada: era preciso não ouvir tanto e mergulhar nas lágrimas que corriam, para entender bem a alma e o profundo de cada verso, porque você chorava sempre diante da poesia humana e, chorava, também, diante da semente germinando, da formiga transitando, dos passarinhos namorando, das nuvens com chuva, do brilho do sol, e falando do Eterno...

E aquelas coisas singulares que você ensinava, formadas na sua sinagoga interior: da grandeza da Torá e da mão do Eterno, da inspiração dos Nevi’im, da intensidade de Isaias, da poesia dos Ketuvim, da profundidade de David, da sabedoria de Sh’lomò, e de um reino futuro onde habitará (ou habitaria) a justiça e a paz do Mashiach...

Sabe... aquela vez... quando eu tinha uns quinze anos, e você me disse que uma mulher era bênção de D’us. Pois bem, no outro dia eu passei a olhar todas as meninas da escola com olhos poéticos, até mesmo aquelas que em tempo de festa junina tinham gosto de mostarda na boca. Passei a vê-las como expressão máxima de qualquer coisa boa: um anjo, um arcanjo, uma deusa, uma estrela... Você me revelou naquele dia a mulher e meus olhos se abriram... E passei a perceber todas elas: a diretora, a professora, a servente, a mãe, a filha, a tia, a santa, a louca, a largada, a certinha, a vizinha, a de mostarda na boca (todos os anos), a que ama chocolates (todos os chocolates), a alta, a baixa, a gordinha, a magrinha, a nova, a madura (esta em especial), a idosa, a branquinha, a amarelinha, a negrinha, enfim, todas. Entendi, finalmente, o porquê de você falar delas com mel nos lábios, com delicadeza, com um meio sorriso e o porquê de beijar-lhes as mãos: viva! São mesmo diferentes! São mesmo poesia pura! (embora muitas nada saibam de poesia e amor). São mesmo uma bênção de HaShem!

Aliás, depois de me dizer que D’us estava em todos os lugares do mundo e que tudo fora creado por ele – e que nele não havia violência alguma, ao mesmo tempo que você tratava as formiguinhas (eu me lembro bem) à boca do formigueiro com leite em pó e gomos de laranja. E, também, quando partia o pão para nós, não tive mais medo de dizer para as pessoas que D’us estava no partir do pão e, tanto no Universo quanto, e principalmente, nas formigas...

Mas, até hoje elas não entendem muito bem essa coisa de Eterno, Torá, Universo, partir do pão e formigas...e menos ainda essa outra coisa de mulher ser bênção... Porque, geralmente, as pessoas comem sem nunca terem feito um pão e não olham muito para as estrelas e, menos ainda, para as formigas – e não percebem as mulheres feitas de poesia, mel, delicadeza, inteligência e bom cheiro, por perto.

Mas, não importa. As impressões, as primeiras impressões, que você plantou em mim como babbo, e a instrução que me deu como rabi, estão tão profundamente arraigadas que se converteram em princípios, dos quais eu não me perco facilmente. Quaisquer que sejam as dificuldades, babbo mio, meu amigo para sempre, não converto D’us em ídolo nem a Torá em magia; não me alimento da gordura das ovelhas nem me visto com sua lã e não piso em formigas. E as mulheres, mesmo quando um pouco confusas, continuam poesia puríssima e bênção divina.

Sigo o caminho da simplicidade, amado babbo, preferindo trilhas em vez de ruas asfaltadas. Continuo não gostando do cimento e do concreto que oprimem a terra e fico feliz, muito feliz, ao ver as raízes das árvores arrebentando as calçadas, vencendo o concreto e desfazendo a idiotice generalizada. Odeio copinhos, saquinhos, garfinhos, pratinhos e outras coisas de plástico que sufocam o mundo e me entristeço, facilmente, com os lugares manchados de sangue inocente.

E, ainda, luto contra a força terrível da coisificação que quer fazer de mim, do meu pensamento, da minha consciência, da minha pesquisa, da poesia, da mulher amada, da fé, dos professores, dos alunos, dos representados nos tribunais, dos filhos e do sentimento, coisas entre outras coisas de mercado!

Às vezes, fico às margens do Tirreno sentado e quieto. Às vezes, com Abraham, il mio figlio primogenito que as suas mãos, babbo, ungidas de todas as Mitzvôt, ergueram, abençoando-o, num Shabat pleno de Torá e, diante do seu D’us, B’H. E ali, às margens daquelas águas de Fondi, reúno você, babbino, e la mamma, i nonni Giuseppe e Luigia, Giuseppe e Antonia Maria, i bisnonni Antonio e Anna, Onorato e Rosa, Donato e Giovanna, e l’altri antenati Dellova, Nardella, Pietrobuono, Iamini, Ciola, Di Denia, Trani, Talano, Miggiarra, Marrocco, Zippo, Orticello, Traglia, Morella, Addessi, Gasparrini, Casale, Di Fazio, Terensio, Monacco, Colonna, Pasciuto, Notaberardino, Mastrobattista, Nardoni, D’Errico, D’Élia e Ovadiah, e nos assentamos, todos, ali.
E conto ao meu figlio histórias dos patriarcas, dos tijolos, do sangue, das pirâmides, do Pessach, do deserto, do Sinai, de Moshè, de Yehoshua, de David, dos Profetas, das cadeias babilônicas, do Chanuká, das espadas e cruzes greco-romanas, do Mashiach (e de como o desfiguraram...), dos talmidim que resistiram, das fogueiras da Inquisição, dos fornos nazistas, do peso fascista, da covardia getulista, da iniqüidade terrorista e lançamos, sem pressa alguma, pedaços de pão caseiro sobre aquelas águas (num particular momento de transferência da bênção e da fidelidade que permanece faz quatro mil anos).

Por isso mesmo, jamais acordo gritando, assustado ou ofegante na madrugada; jamais sou fraco e jamais temo a morte, porque seu D’us é o meu D’us (embora brigue muito com Ele), e sua Torá é minha Torá, e não me afasto do abraço do talit, nem rompo a comunhão dos tefilim, nem me descubro da reverência do kipá, porque seu nome, babbo, é um hino na minha boca, a sua lembrança é um fogo vivificador e me ensina diuturnamente.

E o pão, babbo mio (il pane!) continua simples e justo! Pois o mais justo que posso viver e o melhor que posso fazer na vida que você me deu, é manter acesa esta pira sagrada!

Ah, babbino mio, nasceram-me, nestes últimos tempos, "due bambine", Luigia e Giovanna, cheias de graça, música, flores e risos, que você não pôde conhecer (ou pode?). Mas elas conhecem você em mim, presente, e foram abençoadas pelas suas mãos nas minhas continuadas, diante da mesma Torá.

Agora, para as formigas do quintal essas duas bambine dizem: tutto bene, formica? (e lhes dão casquinha de biscoito); para as flores daqueles pequenos vasos: buongiorno, fiori! (e lhes fazem um carinho). E, todos os dias, ao entrarem ou saírem, tocam carinhosamente a mezuzá cantando com um sorriso que não lhes cabe nas faces: Sh'má Yisrael, Adonai Elohenu, Adonai Echad.

Fondi/São Paulo, 29 ottobre 2004 * 14 cheshvan 5765

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Texto dedicado ao meu babbo (pai) Biagio Dellova (de abençoada memória), Mestre e Darsham para sempre. E, também, aos meus filhos Abraham, Luigia e Giovanna: que sejam abençoados por todas as bênçãos da Torá, e sejam como nossos patriarcas Abraham, Itzchak e Ya'akov e como nossas matriarcas Sarah, Rivka, Rahel e Liah!
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© Pietro Nardella-Dellova. Mestre pela USP. Mestre pela PUC/SP. Pós-graduado em Direito Civil e em Literatura. Bacharel em Direito e Licenciado em Filosofia. Rav na Sinagoga Scuola. Membro da UBE – União Brasileira dos Escritores. Autor dos livros AMO, NO PEITO e ADSUM. Professor de Direito.

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Mais informações e textos: http://nardelladellova.blogspot.com/
Contato/Autorização: professordellova@libero.it

5 commenti:

olhodopombo ha detto...

Lindo texto,
vou add aos meus favoritos.

Juliana ha detto...

SEM DÚVIDA É O TEXTO MAIS LINDO QUE JÁ LI EM MINHA VIDA .MUITÍSSIMO INSPIRADOR , PROFESSOR ! ISSO É QUE É VIDA E FAMÍLIA DE VERDADE !
BARUCH HASHEM !

Jbernardo ha detto...

Professor!Olá.Que poesia mestre!Que imenso respeito carregado de amor e saudade.
Professor,sonho em ter uma família e construir memórias assim.Se um dia meu filho ou filha me reverenciar dessa maneira,levarei isso comigo para onde quer que eu vá.Mesmo que seja no mundo espiritual.
Escreve professor.

Coisinha do pai ha detto...

Hoje é um dia que me traz muita saudade, lendo este texto então...

Que pai magnífico, você narrando, senti a mansidão, o carinho, o amor e
respeito a vida e a tudo que se move.
Fácil entender a pessoa iluminada que você se tornou.
O meu pai me dizia: “Amigo” é uma palavra forte que qualificamos a quem
confiamos. Colegas terão muitos e estes mantêm do portão pra fora.
Nunca esquecemos o que aprendemos com nosso pai.
Por isso, fico feliz em poder chamá-lo meu AMIGO!!
Que as bênçãos do Eterno caiam sobre você hoje e sempre!
Bjs

Ariadne ha detto...

Professor quanto tempo....fiquei muito feliz qdo achei seu blog, fui sua aluna na turma de 94 da USF sou Ariadne Serrano gostaria de ler seu livro Fio de Ariadne, onde posso encontrar o mesmo? um grande abraço.