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ברוך ה"ה







domenica 27 aprile 2008

Ganância e Decadência; Sensibilidade e Sucesso: reflexão sobre a Parashá de Behar בהר



Ganância e Decadência; Sensibilidade e Sucesso: reflexão sobre a Parashá de Behar בהר

por Pietro Nardella-Dellova
da Sinagoga Scuola


É curioso que o Eterno tenha dado a instrução que se encontra nesta Parashá Behar (no Monte) de Vayicrá 25:1 até 26:2, ainda no Monte Sinai, ou seja, como parte integrante do Sêfer HaBrit (Livro da Aliança).

O ímpeto com que nossos pais se dirigiam à Canaã poderia levá-los a um processo de insensibilidade e cegueira. Encontrar uma terra onde se encontrava “leite e mel” poderia despertar neles um dos piores vícios. Refiro-me à ganância!

A ganância ou o processo pelo qual as pessoas trabalham diuturnamente, a fim de juntarem riquezas, torna a vida sem graça e as relações frias. Relações em que as pessoas passam a ser uma coisa, um objeto patrimonial. Nunca, como nos dias atuais, presenciou-se com tal força o processo de coisificação (a coisa se torna sujeito; o sujeito se torna coisa).

Como judeus, aprendemos desde cedo que há um tempo, uma oportunidade, para todas as coisas. Também, como judeus, aprendemos que desde tempos imemoriais, o Eterno inaugurou o Shabat com o propósito de dar uma lição por intermédio dele. Assim, por mais que lutemos, estudemos e procuremos o desenvolvimento cultural, intelectual e patrimonial, temos um momento semanal para a reflexão e para o descanso: o Shabat! Quando vimos apontar a primeira estrela no final do sexto dia, é o aviso que as nossas atividades cotidianas devem parar. É preciso parar e com tranqüilidade sair do horizontal e mergulhar no vertical, de onde tiramos nossas energias, nossas forças e nossa luz!

O Shabat é a oportunidade que têm todo homem e mulher livres. O momento em que sentimos alargar-se pela casa o delicioso perfume dos Chalôt (pães especiais), e vimos, também, cobrir a mesa nossas as toalhas branquíssimas, e os adornos dos castiçais, das taças de vinho, dos variados pratos preparados para este momento em que, cantando e sorrindo, podemos contemplar nossos filhos na calma de um tempo singular! E saboreamos cada um dos pratos, recostados em nossas cadeiras, sem pressa nem espanto, e bebemos nosso vinho, sem lamentos nem prantos. As pessoas são pessoas. As coisas são coisas!

Assim como ocorre semanalmente, o Eterno nos indica o procedimento da Shemitá, ou seja, da necessidade de cultivarmos nossas terras, plantarmos, colhermos e desfrutarmos das bênçãos do trabalho na terra, durante seis anos. Mas o sétimo ano é o ano de descanso da terra,em que nada deve ser cultivado ou plantado. Já não é um dia da semana, mas um ano após seis de trabalho! Conforme a orientação e a promessa de HaShem, haverá colheita suficiente no sexto ano para, após o ano de descanso, estaremos ainda comendo daquela safra e, mais ainda, estaremos comendo daquela safra quando colhermos o que for plantado à partir do oitavo ano!

O trabalho incessante, sem pausas, sem reflexão, sem verticalização, sem consciência, tem levado pessoas a um estado avançado de envelhecimento, de enfraquecimento, de debilitação e decadência. Normalmente, as pessoas que trabalham diuturnamente, com o afã de enriquecimento rápido e constante, perdem, ao final, seus filhos (que não vêem crescer), perde aquele elemento de aproximação, aquele vínculo afetivo, com o marido ou mulher! E, quase sempre, faz-se a seguinte pergunta: o que eu fiz para que ocorresse isso com a minha vida? Resposta simples! A falta de tempo, de oportunidade e de cumplicidade, de descanso e de entretenimento leva ao distanciamento!

Nada suplanta a consciência singular de descanso reflexivo, de descanso na unidade, de descanso festivo!

Mas, no processo, mesmo com Shabatôt e Shemitá, as pessoas vão ficando ansiosas e, a cada tempo, perdem um pouco de seu patrimônio, de sua saúde e de sua integralidade espiritual. Por isso mesmo, a cada 50 anos, no Jubileu ou Yôvel, proclama-se a redenção. Exatamente no Yom Kipur do 50º ano, contanto-se sete ciclos completos de anos sabáticos (shemitá) há que se proclamar a liberdade e o retorno ao ponto de origem. A redescoberta!

Curioso, também, que o Jubileu ocorre exatamente em um tempo que coincide com a maturidade humana: 50 anos! Pois é bem esclarecedor considerando que há um primeiro tempo em nossas vidas que vai, mais ou menos, do nascimento até os treze anos, em que somos dependentes de nossos pais.

Após esta fase, alcançamos a condição de sermos filhos do mandamento (barmitzvá), para começarmos um novo período que vai, normalmente, até os 30 anos! Tempo marcado intensamente pelos estudos e aplicação ao conhecimento. E, à partir daí, isto é, dos 25/30 anos até os 50, dedicamo-nos aos filhos e à sua criação, estabelecemos nosso patrimônio e consagramos nosso trabalho e nossas técnicas profissionais.

Espera-se de uma pessoa que chegou aos 50 anos, maturidade, serenidade, discrição, comedimento, temperança, solidariedade, humanidade, largueza de coração, profundidade de espírito, leveza de julgamentos, sabedoria e paciência! São todas as características de um momento marcado pelo “som do chifre do carneiro” que proclama liberdade a todos!

Alguém que chega aos 50 deve experimentar um estado de espírito superior, um estado físico sem conflitos, um estado emocional equilibrado, além, claro, de um discernimento ímpar no que respeita ás relações sociais!

© do autor

Nas bênçãos, em 18 de maio, 2008 – 14 Iyar, 5768

Pietro Nardella-Dellova
Sinagoga Scuola, Casa Degli Spiriti/Beit Midrash

בחוקתי BECHUCOTAI ou, PORQUE EU NÃO QUERO MORRER

בחוקתי BECHUCOTAI ou, PORQUE EU NÃO QUERO MORRER
(Midrash da Parashá Vayicrá (Levítico) 26:3 a 27:34)

...não me ensina a morrer/ que eu não quero/
...é como se perder de D’us/ e eu não quero/...
in Perdão Você in cd Marisa Monte

Um dia, com os pés sobre o Sinai, o Eterno chamou as almas judias (nefesh iehudim) em sua Mão e contemplou-as com seus olhos de fogo, dando-lhes o elemento vivificador. Tomou-as em suas mãos, concentrando-as, iluminando-as e provendo cada uma delas de capacidade de movimento e discernimento, lançando-as, por fim, como um semeador, em todos os tempos e lugares, para que se realizassem integralmente e criassem ambientes propícios para a humanização.

A voz de HaShem, convertida em Torá תורה , ecoou desde os tempos de Avraham avinu e se fez retumbante diante de Moshè. Fez-se davar! Fez-se humana! Fez-se próxima! Fez-se única e imortal!

E porque a misericórdia dEle é duradoura, fez sua Torá תורה imprimir-se nessas almas concentradas, então, em suas Mãos e, ao lançá-las em um tempo/espaço humanizáveis, orientou cada uma delas com Mitzvôt, ou seja, com Palavras-Princípio. São elas, as Mitzvôt, que garantem a saúde do corpo, da alma, do espírito e das relações sociais. São elas que fazem um homem e uma mulher erguerem suas cabeças e seus olhos e possuírem seu tempo! São elas que nos alinham com HaShem e com todas as forças da creação. São elas que nos possibilitam a integridade de todos os setores de nossas existências. E, ainda, são elas que nos dão a força necessária para empurrarmos nossos filhos para adiante, para um futuro em que não estaremos, no qual dependerão exclusivamente das Mitzvôt para sobreviverem.

As Mitzvôt nos garantem o sereno planejamento da nossa economia, a tranqüilidade das transações, uma energia suplementar para o abrir as janelas, a supremacia sobre o tempo, sobre as oportunidades, porque elas nos ensinam a contar. Contamos horas, dias, meses e anos! Contamos entre uma Festa e outra e utilizamos o tempo a nosso favor. Elas nos garantem um domínio singular sobre as necessidades básicas, de alimentação e vestuário, sobre as oportunidades de trabalho e de descanso. Com elas escolhemos a dedo o que queremos pôr em nossas mesas, em nossas casas.

Com elas, criamos um ambiente propício, em que a massa do pão cresce e o seu perfume, ao forno, percorre todos as salas, quartos e vidas. Com elas, olhamos em direção ao sol (mas, não para o sol) e vislumbramos Yerushalaim e, irresistivelmente, cantarolamos o Sh’má...

E quando nos encontramos em situações-limite, em situações de opressão e perseguição, em problemas cotidianos, apenas com elas, as Mitzvôt, nos levantamos, sem excitação, sem perda de energia, e descobrimos as perspectivas diante de nossos olhos! Com elas não ficamos sem perspectivas!

Por isso mesmo, HaShem usou, em uma das mãos a sua Justiça אלהים e, em outra, a Misercórdia יהוה , para nos legar as Palavras-Princípio, ou seja, as Mitzvôt. Com elas vivemos e sem elas, morremos! Com elas conseguimos passar adiante, sem que nos sintamos sufocados, com o peito fechado e a respiração ofegante. Com elas não trocamos o pão pelo lixo, nem nos sentimos compelidos a um suicídio cotidiano, não precisamos de elementos artificiais em nossas relações inter-pessoais. Com elas não temos pressa nem jogamos nossos recursos ao vento, não ficamos excitados pelo vazio e mantemos, pontualmente, o discernimento lê chaim (para a vida)!

Bechucotai בחוקתי é o movimento em direção à luz. É um simples e atento movimento em direção ao que está posto em nossas almas, em nossos olhos, em nossas vidas (a vida inteira). É o passo necessário para não nos afligirmos na ansiedade, na depressão, na excitação e na perda das perspectivas. Baruch HaShem!

E, assim, fortalecidos, amadurecidos e resolvidos pelas Mitzvôt, sentimos, à distância, a voz de HaShem, porque nesse momento, ela nos faz sentido! E ouvimos as vozes de Avraham, Ytzchak e Ya’akov, e a voz de Moshè, e as vozes de Sarah, de Rivka, de Leah e de Rahel, as nossas matriarcas nos legando leveza e robustez. Sabemos o caminho de ida e de volta!

© do autor, Contagem do Ômer, em 1 de Sivan, 5768 (3/6/2008)

Pietro Nardella-Dellova. Mestre em Direito pela USP e em CRe pela PUC/SP. Rav na Sinagoga Scuola. Membro da UBE. Autor dos livros AMO, NO PEITO e ADSUM. Professor e Consultor de Direito
Mais informações e textos: http://nardelladellova.blogspot.com/
Contato: professordellova@libero.it

Entre amar e ser amável ou, do movimento para a completude


Entre amar e ser amável ou, do movimento para a completude

Prof. Pietro Nardella-Dellova
Rav na Sinagoga Scuola, Casa Degli Spiriti


Proclama-se aos quatro ventos, de forma artificial e retilínea, o mito de amar o próximo como a si mesmo. Embora o enunciado ואהבת לרעך כמוך “ve’ahavat lere’aha kamokha” tenha sido cunhado entre as pedras e o pó do Sinai, em período superior a três mil anos, distante dos gregos e dos romanos e das estranhezas medievais, foi apropriado indevidamente por eles e pelos desdobramentos convergentes dessas culturas e, hoje, serve como um discurso, vazio e incompreensível, ou, ainda, como a coroa hipócrita das mensagens de reconciliação entre pessoas ou povos. As pessoas ouvem, religiosa e sistematicamente, que “devem” amar o próximo como a si mesmo, considerados aí, por um lado, o amar como algo abstrato, subjetivo e fluído e, do outro, o próximo, bem, o próximo, como sendo todo mundo (toda e qualquer pessoa, indiscriminadamente)!

Mas, a expressão amar o próximo como a si mesmo traz em si, pelo menos, três categorias distintas, enunciáveis apenas em modo circular (e não retilíneo). São elas, o amar (e não o amor); o próximo, ou seja, o ser amável (e não todo mundo); e o amar a si mesmo (e não atos masturbatórios ou de culto a si mesmo). E, por ser circular, mas não fechada (pois é espiral), a expressão permite a análise em qualquer ponto. Então, parece mais oportuno que, primeiramente, alguém saiba o que significa a si mesmo! Voltar os olhos para o universo do si mesmo é um encontro, uma descoberta multifacetada!

Voltar os olhos para si mesmo não é contemplar-se diante do discutível espelho, mas passar em revista, com todos os recursos analíticos, a integridade do seu eu. Em outras palavras, perceber o corpo em sua plenitude (de qualquer tempo), sem medo de encontrar-se, seja aos dezoito ou aos setenta anos. Sem fugas ou projeções deprimentes e sem suicídio cotidiano. Percepção que resulte em um estado de paz e de harmonia com cada parte, com cada osso, como cada músculo, com cada célula, com cada poro e com cada gota de sangue. E, ao mesmo tempo, perceber seu universo subjetivo, com todos os rancores, mágoas, ansiedades, escaninhos, traumas, criações fantasiosas, marcas, impressões, sentimentos, de tal forma, que seja possível lançar ali uma bateia e buscar o ouro perdido na areia, buscar o elemento vital, perdido na hipocrisia em que se educam as pessoas. E mais, aprofundar-se no elemento criativo, no poder intelectivo, na capacidade de ser um pequeno deus (elohim), na competência de discernir e julgar, de separar, de valorar. Descobrir-se assim é, revelar-se em um corpo (adam), em uma alma (nefesh) e em um espírito (ruach).

O amar é a relação possível entre duas pessoas que se conhecem como adam-nefesh-ruach. Amar o próximo é o movimento em direção a determinadas pessoas que se perceberam e se valorizaram de forma integral. É o levar e presentear com o corpo que se conhece, com a alma que se percebe e com o espírito que cria. E encontrar reciprocidade! Mas, não havendo reciprocidade, não havendo o si mesmo, não haverá próximo. Uma pessoa que não se conhece a si mesma não é amável e nem é próximo! É alguém, apenas um alguém que deve ser mantido à distância!

Amar o próximo como a si mesmo é o movimento, circular, de completude, de cumplicidade, em direção ao ser amável. Ou seja, em direção ao próximo! As muitas relações impõem discernimento e julgamento. Há relações que são profissionais, e só! Há relações de vizinhança, e só! Há relações que são acadêmicas, e só! Há relações que são comerciais, e só! Há relações que são políticas, e só! Há relações que são esportivas, e só! Há relações que são jurídicas, e só! Há relações que são religiosas, e só! Há relações de consangüinidade, e só! E há relações que são matrimoniais e só! Nenhuma delas permite ou inibe o amar o ser amável. Nenhuma delas, por si mesma, cria o próximo (o ser amável), pois o profissional, o vizinho, o aluno, o professor, o colega, o vendedor, o comprador, o político, o atleta, o sujeito de direito, o religioso, o gerado, a gerada, o colateral, o genitor, a genitora, o cônjuge e a cônjuge, o convivente, a convivente, não são, necessariamente, pessoas próximas, ou seja, amáveis!


© do autor, em 22 Iyar, 5768 (27/5/2008)

Publicação autorizada no Jornal Campinas Café

Prof. Pietro Nardella-Dellova. Mestre em Direito pela USP e em CRe pela PUC/SP. Rav na Sinagoga Scuola. Membro da UBE. Autor dos livros AMO, NO PEITO e ADSUM. Professor e Consultor de Direito
Mais informações e textos: http://nardelladellova.blogspot.com/
Contato: professordellova@libero.it

Midrash sobre a Parashá Emôr ou, de como estar diante de HaShem


Midrash sobre a Parashá Emôr ou, de como estar diante de HaShem

Por Pietro Nardella-Dellova
Da Sinagoga Scuola, Casa degli Spiriti


Ontem, 5 de Yiar, Dia da Independência de Israel (Iom Haatzmaút), pudemos refletir, na Sinagoga, acerca da Parashá de EMÔR (declare!), em Vayicrá (Levítico) 21 a 24.

Informei os presentes a diferença entre "Vaiomer" e "Veidaber". O primeiro, como expressão do discurso, comum, superável e transitório, parte de todo e qualquer discurso, com o significado: "E disse"! O segundo, como expressão da fala, substancial, essencial, entranhável, significando: "E falou"! Alguém que diz, apenas comunica algo comum. Mas, falar é tirar de dentro, é fazer brotar dentro.

Da perspectiva desta diferenciação, o começo da Parashá, referente aos descendentes sacerdotais, traz o "vaiomer". Mas, à partir do perek 23, o Eterno fala (veidaber) e determina que Moshè se dirija aos "b'nei Yisrael" e fale com eles (daber). Por duas vezes no pasuk 1 aparece a expressão "daber" para referir-se às Festas Judaicas (8 no total da Torá; 10, na tradição judaica). O mesmo ocorre no perek 24:1 aparecendo a expressão "veidaber", para referir-se à Menorá (ícone dos Sete Espíritos de HaShem) e no pasuk 13 "veidaber", para referir-se ao pecado de blasfêmia contra o "Nome" do Eterno.

Reflitam sobre isso!

É relevante saber que os kohanin (ou, cohanin) deveriam, desde o ventre, estar preparados e desenvolver, à luz de outros sacerdotes, a habilidade de intermediação, a fim de que todo o serviço pudesse ser feito de forma "educativa", "lógica" e "continuada". Isso se devia, como se deve ainda, ao fato da transgressão às Mitzvôt (palavras-princípio) levar o transgressor à área de "perigo", à área de "sujeição" e "decadência" e a um “status” de fragilidade plena. O enfraquecimento se dá exatamente pela transgressão às Mitzvôt e, em linhas gerais, à Torá inteira, não como “pena”, mas como desdobramento, como resultado.

Lembremos que as Mitzvôt estão na Torá. Esta é a que contém; aquelas são contidas! A Torá porta, entre outros aspectos e valores, todas as 613 Mitzvôt. E, por via oblíqua, as Mitzvôt mantêm o judeu, natural ou convertido, em conexão com a Torá e com as "brachôt" (bênçãos) dela decorrentes.

Portanto, transgredir as Mitzvôt é, por via oblíqua, desprezar a própria Torá. Em outras palavras, é maldito (ou seja, sem bênçãos ou sujeito ao pó desértico) aquele que não ergue a Torá (em todos os sentidos, seja na prática ou no simples ato do Serviço da Torá na Sinagoga).

Daí que o serviço sacerdotal, de modo organizado e organizador, de modo organizativo e organizante, exige pessoas preparadas, afeitas à Torá e dela guardiãs. Pessoas que podem, com seu exemplo, ajudar a conduzir o sacrifício ao Mizbeach (altar), por si mesmo e pelos judeus em geral.

Mas, esta é apenas a primeira parte da Parashá Emôr, caracterizada pelo discurso, conforme o resumo que postei. Caracterizada pelo "vaiomer" (com o sentido de discurso passageiro, transitório e superável). É assim que começa essa primeira parte dirigida aos sacerdotes, os Kohen (ou cohen), como um discurso que deva ser suplantado, a fim de que se prepare a segunda parte.

A segunda, argüida longamente em Midrash, na Sinagoga, deixa de ser o discurso para se tornar a "palavra". Veidaber, como começa a segunda e terceira partes da Parashá, tem a ver com a palavra substancial, com a essência. É a palavra que vem de dentro, que está dentro, é a constituição de uma pessoa. É a palavra que permanece. Por isso mesmo, a segunda parte destaca as Festas Judaicas. Assim como está na Torá, as Festas de HaShem são, não como "encontros" festivos, mas como manifestação do Ser Finito diante do Ser Infinito, na busca incessante de recuperação e organização "cósmica", na busca incessante da “infinitude”.

Na primeira parte, cujo foco é, aparentemente, o sacerdote e os descendentes de Aharan, estamos diante do transitório, do que deve ser suplantado. Estamos diante de um "processo" sacrificial cujo objetivo é a conscientização dos equívocos e transgressões, da necessidade de retomar o caminho perdido, o rumo esquecido. Estamos diante da fraqueza, da fragilidade, do reconhecimento das perturbações intrínsecas, da decadência humana. Mas, na segunda parte, estamos diante do perene, do perpétuo, da expressão de força, graça e comunhão com o Eterno, B'H. Na primeira parte, é estar cabisbaixo e chorar. Na segunda parte, é o levantar a cabeça, abençoar o Nome do Eterno, dançar e festejar o "encontro", a saúde integral e integrativa. A redescoberta do Finito no Infinito. Por isso mesmo, as Festas, como lá estão, são do Eterno. São os tempos propícios para o Encontro e Comunhão com HaShem.

Encontramos em todo o Tanach, especialmente, nos Nevi'im, que o Eterno não tem prazer algum no sangue de animais, no sacrifício cotidiano, posto que expressam apenas a fragilidade. Mas, encontramos, também, o quanto que o Eterno é honrado por intermédio das Festas Judaicas!!!!
É o Shabat. É Rosh Chodesh. É o Pessach com HaMatzôt. É Bikurin. É Shavuot. É Rosh Hashaná/HaShofar. É Yom Kipur. É Sucot. E, ainda, para celebrarmos ocasiões específicas, o Purim e Chanuka! As primeiras OITO Festas referentes a HaShem e as DUAS últimas como antecipação do tempo de Mashiach. O total é de DEZ, como não poderia deixar de ser!

E, é nessa perspectiva, que podemos entender a terceira parte da Parashá, a saber, a blasfêmia contra o Nome do Eterno. Porque o Eterno é Um (Ad-nai Echad) e, pelas Festas (que são dEle) encontramos o ápice da comunhão, em que podemos, de fato e de coração, "abençoar o Nome do Eterno", como "daber" (bênçãos, palavra que vem de dentro) e não como "omer" (discurso).

A negligência, o desprezo, o desrespeito, em relação à celebração do Shabat, do Rosh Chodesh, do Pessach (com HaMatzôt), de Bikurin, do Shavuot, do Yom HaShofar (Rosh Hashaná), do Yom Kipur e de Sucot, caracterizam-se como blasfêmia ao Nome do Eterno, pois são Festas dEle! São os tempos e as oportunidades, integradas, indivisíveis, irrenunciáveis, de manifestar o daber por HaShem. São Festas semanais (Shabat), mensais (Rosh Chodesh), anuais (as outras) que, em perfeita harmonia ao procedimento DIÁRIO, isto é, à recitação e interiorização do SH’MÁ YISRAEL completam os ciclos, as oportunidades de dar "Kosmos" ao "Caos".

É o período ciclicamente completo de estar sob as Mãos de HaShem, em comunhão com Ele e em Sintonia com "a" Ruach HaElohim, também, indicada na mesma Parashá Emôr, quando da menção da Menorá, da Lâmpada de Sete Luzes ou, dos Sete Espíritos do Eterno!

Manter a integralidade das Festas (e não somente uma ou outra delas) é manter a Menorá acesa, é manter a relação com HaShem em tempo oportuno, é estar sob a "unção" da Ruach HaElohim (Espírito de Ad-nai, Espírito de Conhecimento, Espírito de Sabedoria, Espírito de Entendimento, Espírito de Conselho, Espírito de Coragem, Espírito de Temos a HaShem). E é, sobretudo, evitar a blasfêmia ao seu Santo Nome, tendo em vista que o Eterno é honrado por intermédio das Suas Festas.

A negligência, o desprezo e o desrespeito às Festas implicam em "blasfêmia", em grave transgressão e sujeitam o transgressor ao afastamento da comunidade judaica e dos "b'nei Yisrael", condena à morte, por apedrejamento (ou seja, morte lenta, simbolizando "caos", decadência, dor, sofrimento, angústia, depressão, isolamento e desfazimento do ser).

Estar distante da comunidade dos “b’nei Yisrael” é ficar no vazio, no pó do deserto.

(c) do autor (não reproduzir sem expressa autorização)

Nas bênçãos do Eterno
Em 5 Yiar, 5768
Pietro Nardella-Dellova
Sinagoga Scuola, Casa Degli Spiriti

Caso Isabella ou, retrato de uma sociedade decadente


CASO ISABELLA OU, RETRATO DE UMA SOCIEDADE DECADENTE

por Prof. Pietro Nardella-Dellova

O caso Isabella, homicídio da menina que foi, “como tudo indica”, morta pelo próprio pai, digo, genitor, e madrasta”, é conhecido, explorado, comentado, abusado por tantos (quase todos) e, apesar dos dissabores do tema, tem revelado mais uma vez as muitas faces da sociedade brasileira, no que ela tem de pior. Revela este defeito de “olhar pela fechadura alheia”.

Há uma tendência vergonhosa de cuidar da vida alheia ou dela tomar conhecimento, de saber do outro, de criar “episódios”. De fato, é uma característica brasileira transformar a vida alheia em “episódios”, sejam de boas ou más informações. E este caso é típico, daí o porquê de estar em cada página, cada vídeo, cada tela, em todo minuto, em todo instante.

Os comentários que se ouvem são como os comentários pós-jogos de futebol. Do tipo “ele marcou o gol”, “poderia ter marcado o gol”, “a polícia acha que foi o pai”, “a polícia acha que foi a madrasta” etc etc...

Talvez não seja nada disso. Pode ser a característica criminal, os dados criminais, o contexto criminal. Parece haver uma projeção da maioria das pessoas no caso criminal, como se lhes dissessem respeito, como se fosse algo que os chamassem para si mesmos. Aquelas pessoas todas, aqueles repórteres, aqueles comentários de sofá e balcão, tudo, parece revelar a face oculta da maioria das pessoas: a besta criminal! Parece que cada um gostaria de ter lançado “algum filho ou filha” por aquela janela. E um processo pelo qual Alexandre Nardoni e sua esposa se transformassem em “heróis”. Como são “corajosos”: conseguiram fazer o que a maioria faz de outro modo!

O destaque remete ao caso do “Chico estuprador”. Aquele caso em que um motoboy de São Paulo levou para uma determinada mata “reserva”, ao lado da Via Imigrantes, mais de uma dezena de jovens, desejosas de serem atrizes, modelos e sei-la-o-quê, todas mortas por asfixia violenta e após “amadas” pelo, então, herói! Foram meses de destaque, meses de projeção das variadas pessoas “do público” que se viam, ora como o “chico”, ora como as meninas cheias de ilusão, ora como as mortas “amadas”...Ao final, o Chico foi preso e, convertendo-se, tornou um “missionário das boas-novas” na cadeia.

Talvez, agora, o pai (melhor dizer o genitor). Pois bem, o genitor é o ícone, o paradigma, de tantos outros “apenas genitores” que lançam seus “filhos e filhas” pela janela. Droga! Quase tudo deve ficar entre aspas! E entre aspas ficam as pessoas sedentas de “episódios” como o da menina lançada ao vento, porque gostariam de fazer o mesmo com seus filhos. Como o do “chico estuprador”, porque gostariam de fazer a mesma coisa. Entre aspas ficam os episódios do Congresso buscando dossiês de cartões corporativos. Entre aspas ficam os advogados criminalistas de plantão ou, de porta de cadeia. Entre aspas ficam os advogados civilistas que, ao atuarem em casos de separação e divórcio, deixam de fazer o que deveriam fazer, ou seja, deixam de orientar seus clientes acerca de pensões alimentícias e dos desdobramentos de determinadas ações ou reações.

No mais, o processo como um todo e os destaques abrangentes reforçam a necrofia de uma sociedade, a brasileira, que se alimenta de cadáveres, que se alimenta de estupros, que se alimenta de cocaína, que se alimenta de sermões pregados nas esquinas e praças públicas, que se alimenta de “deuses” mortos, que se alimenta de más notícias (e as cria), que se alimenta de episódios diários, diuturnos, recriados mil vezes, em que alguém deva matar alguém.

No caso Isabella, a menina, agora convertida em uma “boneca policial”, é morta a cada dia por cada pessoa que gostaria de estar no lugar de seu genitor!

© do autor, em 23 de Nissan, 5768 (28/4/2008)

Prof. Pietro Nardella-Dellova, Mestre pela USP e PUC/SP
Rav na Sinagoga Scuola. Professor de Direito
http://nardelladellova.blogspot.com/
professordellova@libero.it

Midrash de Acharei Mot e Kedoshim: Possibilidades de Reflexão e Redescoberta


Midrash: Entre Acharei Mot e Kedoshim (Vayicrá "Levítico" cap 16 a 20)

Prezados chaverim e chaverot, Shalom Alechem!

Neste domingo, 27/4, termina o período de Pessach, no qual fizemos nosso Sêder de Pessach e Chag HaMatzôt. Durante este período nos abstivemos de comer alimentos com chametz e, por outro lado, nos alimentamos com Matzôt.

É como uma via de duas mãos: NÃO COMER CHAMETZ e COMER MATZÔT, a contraposição do Profano e do Sagrado; a contraposição dos Defeitos de Caráter e das Virtudes de Caráter.

É um período propício para REFLEXÃO e CONSCIENTIZAÇÃO como foi ensinado no dia de ontem, na Sinagoga, durante o Midrash. Período no qual nos encontramos entre Acharei Mot e Kedoshim, as duas Parashiot deste momento.

Período no qual estamos diante de dois cabritos: um para o Eterno e outro para "azazel". O primeiro que nos permite respingar o sangue sobre o Aron HaKodesh (invólucro da Torá); o segundo, em deixar no deserto rochoso (azazel), no lugar impropício, no lugar onde nada nasce, tudo aquilo que nos limita, que nos oprime, que nos faz descer, que nos faz pecar...

Diante dos respingos sobre o Aron HaKodesh (sete vezes), buscamos de forma completa (sete vezes) a conscientização e a reflexão plena, tendo como elemento paradigmático a Torá.

As atitudes, boas ou más, nascem dos pensamentos bons ou maus. Portanto, pensar bem pode ser determinante para atos de bondade e atos bons; pensar mal, determinante para atos de maldade e atos maus.

A concretização dos pensamentos é o resultado de nossa conduta e, será por ela, que os pensamentos serão julgados.

Entre os sete respingados de sangue sobre o Aron HaKodesh, há um processo profundo, intenso e difícil de busca pelos próprios "chametz", por aqueles motivadores dos maus comportamentos, das más decisões, das más condutas...

No cabrito para "azazel" (para o deserto rochoso), devemos compreender tudo o que não pode "terminar de pronto", que não pode ser "desfeito", mas que não podem, também, ter um "terreno" propício. Deixar no deserto é fazer suas forças diminuirem, é assumir o prejuízo de abandonar "parte de" com tudo que não nos faz bem, com tudo que nos faz infelizes e decadentes.

São duas posturas distintas diante das nossas transgressões: uma de reflexão (o cabrito e seu sangue respingado sete vezes sobre o Aron); outra, o prejuízo do abandono do cabrito para o deserto, carregando em si outros comportamentos que deverão repercutir por muito tempo ainda em nossas vidas. Podemos, por um lado, refletir de forma completa, e sentir em nossos dedos o sangue da transgressão concluída. Podemos, por outro lado, deixar em lugar, em situação controlada, os prejuízos de nossas transgressões, de forma que não mais produza seus efeitos destrutivos, ou seja, deixar no deserto!

De qualquer modo, sejam quais forem as transgressões, o Eterno, B'H, é inofendível. Não há como ofender o Eterno em sua Grandeza e Majestade, em sua Infinitude. As transgressões ofendem a ordem natural de desenvolvimento humano, ofendem a nós mesmos, a nossos familiares e a nossos filhos...

É uma fraqueza inconcebível, um procedimento infantil, considerar que o Eterno possa ser ofendido (este é um sentimento humano). O Eterno, B'H, em sua Sabedoria criou tudo (e o Eterno fez todas as coisas..."Bereshit").

Quando encontramos em Bereshit que o Eterno fez "todas as coisas", devemos entender que "nada" pode ser feito à posteriori. Nada será feito, após o Eterno ter feito "tudo". Especialmente por isso, celebramos o Shabat, para confirmar nesta nossa importante Festa semanal que "O Eterno, B'H, fez todas as coisas" e que o Shabat é o seu descanso.

Entre todas as coisas, o Eterno, B'H, fez os elementos naturais, organizou tais elementos, criou os céus e a terra (e tudo o que neles há), criou os animais, as plantas e o homem na sua integridade física (corpo, adamá), moral (alma, néfesh), espiritual (intelecto, ruach) e social (relações sociais, kehilá). Criou o bem o mal, as trevas e a luz e soprou por todo o universo seus elementos de poder, suas forças criativas.

Os raios do sol podem matar, enceguecer, envelhecer a pele, mas, podem, também, trazer luz, energia, elementos vitamínicos. É preciso saber como utilizar... As forças estabelecidas por HaShem no princípio de tudo estão aí: é preciso saber como utlizar-se delas, como proteger-se delas, como viver...

E, assim, o Eterno, B'H, na sua Misericórdia, ensinou e instruiu os primeiros homens na Torá (oral). Estabeleceu um diálogo direto com o homem. Alguns mantiveram o diálogo e, outros, como Caim, romperam o diálogo, recusando-se ao encontro!

A Torá dada pelo Eterno aos nossos pais no Sinai, por intermédio de nosso maior Líder, Moshè rabenu, é a possibilidade de diálogo, de reencaminhamento de nossas vidas. Os que souberem utilizar a Torá em suas vidas descobrirão o caminho de volta, descobrirão o caminho a Etz Chaim (árvore da vida).

Por isso mesmo, a trasgressão simbolizada pelo sangue de um dos cabritos, respingado SETE vezes sobre o Aron HaKodesh, deve ser objeto de nossa particular reflexão, enquanto deixamos outras "atividades" no deserto...sem vida e sem ambiente propício para desenvolvimento.

Assim, caminhamos para Kedoshim, a próxima Parashá (vide Vaicrá, Levítico, cap. 19), na qual descobriremos que determinadas ações, atitudes, comportamentos e decisões, nos ajudarão e estabelecerão bases sólidas para a construção de uma vida inteira, sem decepção, sem decadência e sem destruição de nós mesmos.

Nas bênçãos, Shavúa Tov
Rav Nardella-Dellova, Pietro
da Sinagoga Scuola, em final de Pessach de 5768

giovedì 3 aprile 2008

FORREST GUMP, o CONTADOR DE HISTÓRIAS


FORREST GUMP, o CONTADOR DE HISTÓRIAS



...e naquele dia, sem nenhuma razão especial, eu decidi fazer uma pequena corrida...


Eu corri até o fim da estrada e, quando cheguei lá, pensei em correr pelo Condado de Greenbow. E pensei: “já que cheguei até aqui, vou correr pelo grande Estado do Alabama!”
E foi o que eu fiz. Corri pelo Estado do Alabama inteiro.


Sem nenhuma razão especial eu continuava e, corri, até chegar ao Oceano. E quando cheguei lá, pensei: “já que cheguei até aqui, eu vou voltar e continuar correndo...”


Quando cheguei ao outro Oceano, pensei: “já que cheguei até aqui, é melhor voltar e continuar correndo...”


Quando eu ficava cansado, eu dormia. Quando tinha fome, eu comia. Quando tinha que ir, bom, sabe, eu ia...


Eu pensava muito na minha mãe, e no Bubba, e no Tenente Dan, mas eu pensava muito mais na Jenny. Eu pensava muito nela...


(e as pessoas todas me perguntavam por que eu estava correndo). Eles não podiam acreditar que alguém corresse tanto sem nenhuma razão especial...


E perguntavam: - por que está fazendo isso?


-Eu tive vontade de correr, eu tive vontade de correr...


Bem, por alguma razão o que eu fazia parecia fazer sentido às pessoas, assim, ganhei companhia. E, depois disso, ganhei mais companhia. E aí, mais gente se juntou a nós...


Algum tempo depois, alguém me disse que isso deu esperança às pessoas. Eu, eu... não entendo nada disso, mas, algumas pessoas perguntaram se eu podia ajudar...


-Acontece!
-Quê, merda?
-Às vezes...


E alguns anos depois soube que aquele cara arrumou um slogan –merdas acontecem- e fez muito dinheiro.


Bom, como eu dizendo eu tive muita companhia...Minha mãe sempre dizia que tem que por o passado pra trás, antes de continuar. E acho que foi por isso que eu corri tanto...


Eu corri por três anos, dois meses, quatorze dias e dezesseis horas... (e parei)


(silèncio! Silêncio! Ele vai dizer alguma coisa...)


- Eu to muito cansado, acho que vou pra casa agora...


E, assim, meus dias de corrida acabaram e eu voltei pra casa no Alabama...

(trecho traduzido do filme FORREST GUMP, O Contador de Histórias, 1994)

martedì 1 aprile 2008

POLÍTICOS ou, INVESTIMENTO A FUNDO PERDIDO

POLÍTICOS ou, INVESTIMENTO A FUNDO PERDIDO

por Pietro Nardella-Dellova





No ano passado vimos, meio que dopados, meio que narcotizados, meio que “tipo” abobalhados, mais de cem dias se perderem em função das extravagâncias de um senador nordestino que, não encontrando quem o ajudasse no pagamento de pensão alimentícia de uma Filha, havida em sessão solene de gabinete, socorreu-se de uma construtora que, graciosamente, atendeu-lhe à necessidade. Assentado sobre sua cadeira de presidente do congresso nacional, juntamente com todo o congresso nacional a seus pés, esbanjou eloqüência, sorrisos, entrevistas, discursos e furtou aos brasileiros (no sentido original da palavra) um semestre inteiro e, acima de tudo, com conversinhas de “casa do norte”.

Antes disso, nos últimos dois anos do primeiro mandato presidencial do Lula, assistimos, igualmente dopados, loucos, surdos, incapazes, zumbis, preocupados com a segunda divisão do time fiel, envoltos por um manto de empobrecimento intelectual, um manto de imprevisão e irresponsabilidade, às cenas tresloucadas de um barítono (então, bastante desafinado), em face de ministros desafinados, de publicitários “come-quieto”, portadores de um “trem” barulhento, diante de um Congresso que dança, canta e fala mal, muito mal!

Continuasse eu neste sentido de revisitação da história política brasileira chegaria, como chego, então, ao desembarque dos membros “dilacerados”, ofegantes, medrosos e acovardados da Coroa, inaugurando o período (que não terminou) da política pequena, rasteira, vil, covarde e, sobretudo, “tresloucada”.

Assim, neste ano, comemoram-se os duzentos anos da fuga “cinematográfica” de um grupo de aristocratas, com vestimentas de personagens imperiais, aos quais faltou talento, inteligência, sabedoria e coragem! Mas, seria injusto dizer que não contribuíram com a formação econômica, jurídica, social e política do Brasil. Contribuíram, sim, e de modo determinante, perpétuo. Criou-se, à partir de então, uma terra propícia para brasileiros (no sentido original e etimológico da palavra), vindos de todas as partes da Europa, assentando aqui seus negócios, a começar pelo Rio de Janeiro até concluir-se em Brasília. Abriram-se escolas de política vazia, de oradores burros e sem substância, de asnos vestidos à caráter e canalhas que proliferaram, sem chances para estatísticas!

Hoje, pela manhã, ouvia por uma rádio, enquanto seguia, a fim de ganhar meu pão justo, o repórter informando os valores pagos aos políticos (apenas federais), com gastos pessoais, hospedagem, viagens, roupas, moradia, salários, ajuda de custo etc. Números tão altos que sequer guardei e nem precisava, pois guardei mesmo que 119 pessoas morreram no Rio de Janeiro por conta da dengue. Esse número eu guardei!

E ouvi, na mesma rádio, que as Forças Armadas estão em luta no Rio de Janeiro. Contra o quê mesmo? Sim, contra o “mosquito da dengue”. Bah. Até as Forças Armadas são burras: o mosquito da dengue nasce, cria-se e se prolifera, enfim, na Praça dos Três Poderes!

No Rio, o serviço é para Funerária!

© do autor, 24 de Adar II, 5768 (31/3/2008)
- publicação autorizada para o Jornal "impresso" C. Café

Prof. Pietro Nardella Dellova, Mestre USP e PUC/SP. Mestre na Sinagoga Scuola - Casa Degli Spiriti. Professor de Direito. Coordenador do Curso de Direito.
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