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ברוך ה"ה







venerdì 18 luglio 2008

Entre o MURO e a CASA ou, relações entre Tamuz תמוז e Av אב estando diante do Vesúvio


Entre o MURO e a CASA ou, relações entre Tamuz תמוז e Av אב estando diante do Vesúvio



pelo Rav Pietro Nardella-Dellova
da Sinagoga Scuola, Beit Midrash


Estamos no mês de julho de 2008 e, no calendário hebraico, no mês de Tamuz de 5768. Estamos no meio de Tamuz. O próximo mês é de Av! Façamos uma leitura, ainda que rápida, pois me encontro em viagem, relacionando os valores numéricos, as Parashiot indicativas e as aproximações pertinentes, com uma reflexão ao final.

Escrevo esta mensagem olhando, de onde estou, diretamente para o Vesúvio, em cuja cratera estive nesta semana, assim como, nas duas cidades Pompéia e Herculano, por ele destruídas no ano 79 e.c.. O que tem o Vesúvio com Tamuz e Av? Nada! Exceto pelo fato de ter sido na mesma ocasião, no ano 70 e.c., a destruição do Beit HaMikdash (Templo de Jerusalém). Andiamo, alla lettura...

TAMUZ é o quarto mês, contando de Nissan ou, da Saída do Egito. Mas é, também, o décimo mês em anos comuns e, neste ano bissexto, o décimo-primeiro, a contar de Rosh HaShaná. E, em qualquer caso, contanto com ele, Tamuz, faltam três meses para Rosh HaShaná. Em aproximações numéricas, 4 ד , 10 י , 11 יא ou 3 ג , temos, sempre em relação a Tamuz, os números 9 ט ou 8 ח . O mês de Tamuz de 5768 exige a leitura da 18ª Parashá, ou seja, Mishpatim משפטים (Shemot 21:1 a 24:12)

AV é, então, o quinto mês, contanto de Nissan ou, da Saída do Egito. É, outrossim, o décimo-primeiro mês em anos comuns e, ainda, neste ano bissexto, o décimo-segundo, a contar de Rosh HaShaná e, em qualquer caso, contanto com ele, Av, faltam dois meses para Rosh HaShaná. Em aproximações numéricas, 5 ה , 11 יא , 12 יב ou 2 ב , temos sempre em relação a Av, os números 1 א ou 9 ט . O mês de Av de 5768 exige a leitura da 19ª Parashá, ou seja, Terumá תרומה (Shemot 25:1 a 27:9)

Considerando os dois meses, Tamuz e Av, pois estão umbilicalmente ligados, temos, finalmente, em anos bissextos, como o de 5768, os números 9 ט e 1 א . Nos outros anos, temos os números 8 ח e 9 ט .
Assim considerando, neste ano temos o número 10 י, que é 1 א. A leitura final é de Bereshit בראשית (Bereshit 1:1 a 6:5)

Tamuz também significa ponderação (diálogo interior e exterior) e não conclusão...Tamuz não permite conclusão! Tamuz é um movimento reflexivo em direção ao princípio, a Bereshit e ao Beit e, portanto, ao descanso. O movimento de ir, avançar, com segurança e fidelidade ao Eterno.

É preciso ter cuidado! A letra TAV ת , com a qual começa a palavra Tamuz, é uma das letras “duplas” pois, emite dois sons: um forte e positivo e outro, fraco e negativo

ת = 400
מ = 40
ו = 6
ז = 7
Total 453 = 12 = 3 (indicação da 3ª Parashá Lech Lechá לך־לך , Bereshit 12:1 a 17:15, Vai...Lech Lechá significa movimento)

3 = ג

Mas o resultado do número de Tamuz é a letra ג “guímel” com a qual uma das formações da Árvore Sefirótica é começada: GUEVURAH (potência)

Este mês possui 29 dias (29 = בט). Significa que nos leva para o duplo, para o dois, para a letra ב (bet) (de valor 2) e para a letra ט (tet) (de valor 9). Portanto, para o dois (2), ou seja, novamente para o ב (bet). Ou, ainda, novamente, para o Beit (para a casa, para o templo, lugar de descanso, de acomodação e de purificação). Neste sentido, a leitura é a segunda Parashá, Noach נח. Mas, observemos bem a Torá (vide a parte em hebraico), em que a Parashá reforça a expressão Noach duas vezes, conjuntamente נח נח, Bereshit 6:9 a 11:26. Noach significa “descanso”. Mas, por haver ali um reforço do bet (2), percebemos a possibilidade de um repouso distinto de qualquer outro que possamos conhecer! Shalom!

O mês de Av אב.
א = 1
ב = 2

Total 3 (a mesma indicação de Parashá de Tamuz!!!! Ou seja, indicação da 3ª Parashá Lech Lechá לך־לך , Bereshit 12:1 a 17:15, Vai...Lech Lechá significa movimento)

Av começa com a primeira letra do alfabeto hebraico "alef" (para escrevermos esta letra precisamos dois yuds (um encima, outro embaixo), separados por um vav (veja a letra). Yud é a letra inicial do "tetragrama", no Nome do Eterno e é, também, a letra inicial de Yisrael, de Yerushalaim. Seu valor é 10 (um) por o Eterno é "echad" (um). Yisrael e Yerushalaim também são únicas, insubstituíveis e eternas. Há uma estreita ligação entre o Yud superior (Eterno) e o Yud inferior (Yerushalaim) e, por isso mesmo, quando proferimos nossas preces o fazemos em direção a Yerushalaim (quem está no Ocidente olha para o Oriente e vice versa) e, começamos sempre, nossos dias com o Sh'má Yisrael, Ad-nai Elohenu, Ad-nai Echad!

A letra "alef" necessita, então, de dois "Yuds", cortados por um "vav", cujo valor é seis. Seis é o número da Maguen David (escudo de David ou, vulgarmente conhecida como "estrela de David"). Seis para o Yud de cima é igual a Sete. Seis para o Yud de baixo é igual a sete. Em todas as direções, seja superior ou inferior, o sete em "alef" é presente, como que indicando o caminho para obtenção dos Sete Espíritos de HaShem: Espírito de Ad-nai, Espírito de Conhecimento, Espírito de Sabedoria, Espírito de Entendimento, Espírito de Coragem, Espírito de Força e Espírito de Temor a HaShem. Seis é o número do homem incompleto, necessitado do "yud" (do mais um) para a plenitude.

E, ainda, a palavra "Av", que começa com o "alef" faz avançar para o "bet" (a segunda letra do alfabeto hebraico). E ''bet'' é a letra com a qual escrevemos "beit" (casa) e "bereshit" (no princípio). Av nos aponta o Beit (individual, familiar e sinagogal)! E é no Beit individual, familiar e sinagogal, que acendemos nossa Menorá (castiçal de sete lâmpadas)!!!

E o resultado numérico de Av, também, é a letra ג “guimel” com a qual uma das formações da Árvore Sefirótica é começada: GUEVURAH (potência)

TAMUZ e AV nos levam para a mesma Parashá! E, no conjunto delas, para Toledot תולדת. Ainda é Potência em movimento, com o cuidado, agora, reforçado das facetas fraco/forte positivo/negativo, pois Toledot começa com ת Tav e termina com ת. Nas mesmas mãos, em Toledot, Ytzchak avinu, tem dois movimentos: Ya’kov e Esav, um forte, outro fraco; um positivo, outro negativo.

O mês de Av possui 30 dias o que reforça a leitura de Lech Lech, a terceira Parashá! E, nos remete para קדשים KEDOSHIM (santificados), a trigésima Parashá! Lech Lechá (sai, vai, ande...). Kedoshim (santificados, formados, constituídos, purificados).

E, assim, tanto a na palavra אב Av, como seu número, bem como, na quantidade de dias disponíveis neste mês, temos as seguintes Parashiot: בראשית Bereshit, נח Noach, לך־לך Lech Lechá, קדשים Kedoshim! E encontramos o Beit, a Menorá e a Força!

Considerações especiais:

Em ambos os casos, Tamuz e Av, encontramos indicações lógicas de Bereshit, Lech Lechá, Kedoshim, Noach e Bereshit (nesta ordem)

O mês de Tamuz é especialmente utilizado para reflexão das nossas fragilidades (achar-se forte quando se está fraco é uma fragilidade). O dia 17 de Tamuz é dedicado a um Jejum de profunda reflexão (Shivá Assar Be-Tamuz), pois neste dia os romanos começaram a destruir as Muralhas de Jerusalém para, depois de 22 dias, em 9 de Av, destruir o Templo (ב). Mas, os romanos destruíram mesmo ou nós permitimos que eles destruíssem? O olhar não deve estar sobre aquele que destrói, mas sobre aquele que se permite destruir. Ecco, a visão judaica!

O dia 9 de Av é, entre outros motivos, um dia especialmente dedicado a outro Jejum de reflexão (Tishá Be-Av) por conta da destruição do primeiro e do segundo templos (ב ב) (as duas destruições nos remetem ao número 4 (para a letra ד) ou seja, para Melech David e, por conseqüência, para Mashiach ou época de Mashiach. Tais destruições ocorreram neste dia (9 de Av). A primeira, nos levou ao cativeiro de Babilônia, de conseqüências terríveis. A segunda, nos levou à morte, a morte de milhares de judeus e a uma dispersão, na qual ainda estamos sofrendo! A primeira destruição nos atingiu no corpo; a segunda, no corpo e na alma!

Uma das razões pela destruição das muralhas de Jerusalém, em 17 de Tamuz foi o ódio entre nós, judeus, o processo de helenização (leia-se, assimilação) de Jerusalém e ao abandono das Mitzvôt. A outra, a falta de critério em medir a própria potência, os próprios recursos e, portanto, as próprias fragilidades. Para muitos judeus, bastava a ascendência em Abraham avinu (Abraham nosso pai) para alcançar a misericórdia e a presença do Eterno. Mas, é um engano. Abraham mostrou o caminho, lançou a seta. O caminhar é de cada judeu, ou seja, cada um de nós é responsável por sua vida e o que nos fortalece e norteia nossa existência, diferenciando-a de tantos outros povos, é a prática das Mitzvôt.

Destruídas as muralhas, o caminho para destruição do Templo/Casa (Beit) era só uma questão de dias...

O ódio, a mágoa, a tristeza e falta de solidariedade, atingem as 613 Mitzvôt em seu âmago, nas Luchot HaBrit (Pedras do Pacto), ou seja, nas Dez Palavras. Daí, todas as outras 603 Mitzvôt ficam enfraquecidas. Sem as Mitzvôt estamos com nossas Muralhas destruídas. Falta pouco para a destruição da Casa (Beit).

Entramos em um processo de servidão no Egito por conta das nossas odiosas relações. Saímos do Egito (Nissan) em direção ao lugar de elevação, Hallel e Shalom (Jerusalém/Beit), mas, tendo que passar por Sinai (Torá/Mitzvôt/Formação).

O desrespeito continuado, o desprezo e a desatenção pelas Mitzvôt, é o enfraquecimento de nossas “muralhas”. É, portanto, o mês de Tamuz! Continuando o processo em que nos prendemos às mágoas, ao ódio, às perversidades de toda ordem, o nosso Beit (centro), a nossa Casa (lugar de paz) será violentamente atingido, com repercussões inimagináveis: dispersão, desagregação, distanciamento de HaShem, opressão inimiga, escravização de nossos filhos e filhas, enfraquecimento.

Portanto, Tamuz e Av, além das considerações acima (em função das Parashiot), nos indicam a reflexão sobre o estado em que nos encontramos e em que se encontram nossos muros, nossas muralhas.

Em outras palavras, pergunto, como estamos nós em relação às Mitzvôt? Conforme o Eterno nos legou: “viverás por estas Mitzvôt...”. Então, vivemos pelas Mitzvôt?

Em Av, o acento reflexivo se intensifica! Agora, já não é o muro apenas. É o Beit, a Casa, o Templo! Permitir destruir o “beit” é destruir o centro de apoio, dos processos de pacificação cotidiana (no Templo, os processos eram continuados) e, na destruição, encontrar a dispersão, a fragmentação e enfraquecimento. É estar longe do Hallel (louvores), dos Chalôt (a parte do pão especialmente dedicada no Templo), do repouso!

Há um muro individual. Há Mitzvôt nossas, de cada um de nós!
Há Mitzvôt familiares, como os processos de purificação de toda a família!
Há Mitzvôt sinagogais, como as que se referem às Festas, ao Minyan, aos Midrashim!

Há um “beit” (casa) individual. Dentro de nosso peito há uma casa individual e, conforme as Mitzvôt sejam cumpridas, vamos fortalecendo este “beit”, protegendo-o e mantendo-o à luz da nossa própria Menorá!
Há um “beit” (casa) familiar. Lembrando Vinícius Moraes “a casa de um homem bom é o seu templo...”. O lugar familiar da mesa, do espaço vital, do encontro entre pessoas ligadas pela “bênção nupcial” e de pessoas ligadas pelo sangue e pelo afeto. O lugar de expressão afetuosa e de construção de vínculos.
Há um “beit” (casa) sinagogal. O lugar onde nos encontramos com outras pessoas, para a troca de experiências diante de HaShem. O lugar onde respiramos o Hallel, onde aprendemos os Midrashim e onde tocamos o Sêfer Torá!

É preciso cuidar do “muro” (Mitzvôt) em todos os sentidos para podermos manter o “beit” (Casa) em todos os sentidos!

Nas bênçãos

Napoli (Piazza Garibaldi), Itália, em 15 de Tamuz, 5768 (18 de luglio, 2008)

© copyright do autor, não reproduzir sem expressa autorização!

© Pietro Nardella-Dellova. Mestre em Direito pela USP – Universidade de São Paulo. Mestre em Ciências da Religião pela PUC/SP – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Rav na Sinagoga Scuola/Beit Midrash. Membro da UBE – União Brasileira dos Escritores. Autor dos livros AMO, NO PEITO, ADSUM e de Centenas de Artigos na Coluna Café & Direito ®. Autor das Teses “A Crise Sacrificial do Direito” (USP) e “A Palavra Como Construção do Sagrado” (PUC-SP). Professor universitário de Direito.

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venerdì 11 luglio 2008

Do SILÊNCIO ou, diálogo com uma pessoa que se movimenta em direção ao Judaísmo




Do SILÊNCIO ou,

diálogo com uma pessoa

que se movimenta em direção

ao Judaísmo



por Pietro Nardella-Dellova

da Sinagoga Scuola, Casa Degli Spiriti













B”H - ב״ה



E, então, uma pessoa me procurou, pois ela vinha em direção ao mundo judaico e, por isso mesmo, enchendo-se de satisfação manifestou sua vontade de conhecer o Judaísmo para encontrar D’us, quiçá, vislumbrar um caminho e vencer o mal (ou Mal, a como está mais acostumado)... Mas, porventura, -perguntei a ele- já te ocorreu que HaShem (ou D’us, se quiser) não quer (e nem pode) ser encontrado? Por acaso, já pensou na possibilidade do Judaísmo não ser um caminho nem te dar certeza alguma sobre um mundo que não será alcançado? Pensou, ainda, que, na formação judaica, não há preocupação nenhuma com o mal ou o bem (ou Mal e Bem, se quiser) e nem há teologia alguma a ser apreendida? Pensou nisso?



Pois bem, no Judaísmo não estudamos, não procuramos e nem vendemos HaShem. O Judaísmo não tem por escopo o encontro com Ele. Não podemos dizer nada sobre o Mal ou o Bem, vez que, personificados, são fantasias persas, gregas e medievais - para nós, ao contrário, é um todo indivisível e orgânico. Mas, apenas, ocupamo-nos (nunca nos pré-ocupamos) dos comportamentos bons ou maus, das escolhas boas ou más. No Judaísmo, não nos projetamos em um mundo futuro e, sendo futuro (se o for), virá natural, independente e dentro do que HaShem possa pretender... Não há mágicas, não há fórmulas nem rezas que possam modificar os tempos, os ciclos e os Elohim (as Forças da Creação)! (creação e não criação).



E, assim, sem futuro nem surpresas, aprendemos a olhar nossas mãos, nossos pés, nossos olhos, nossos ouvidos, nosso corpo, nossos sentimentos, nossos conhecimentos e tudo aquilo que se nos chega para realização. Ensinamos aos nossos filhos que um precipício é mesmo um precipício (e não um conceito). Ensinamos que um jardim é mesmo um jardim (e não uma fantasia). E deixamos claro que, sobre nossa mesa, um pão deve ser justo, feito por mãos justas e adquirido com recursos justos, pois, ao pronunciarmos alguma palavra (entre nós) não o fazemos para agradecer (pois filhos não agradecem a seus pais), mas, ao menos as pronunciamos para abençoar o Nome de HaShem, a fim de termos certeza de que aquele pão não tem outra origem senão a de justiça, bondade e leveza...



Ensinamos, também, que um inimigo é mesmo um inimigo (um inimigo sempre!) E o melhor para nós, é que o inimigo esteja bem, tranqüilo, ocupado (muito ocupado) e que more longe de nossas casas, longe mesmo! Mas, o inimigo não é “alguma coisa” caída do “céu”, um ser sobrenatural, um revoltado em “bereshit” ou um ente espiritual com desejos sexuais. O inimigo tem mãos e pés, tem fome e sede, tem visão e olfato, assim como nós. Mas, ele, o inimigo, não tem mesa nem pão justos, não tem limites nem conhece princípios. Diferente de nós, quando ele tem fome, devora sem medida nem critério. Por isso, lança as mãos e avança seus pés, não se importando com este ou com isso. E quando vê ou percebe alguma coisa, o inimigo quer para si, em um incontrolável desejo mimético, arrebatador, destruidor e fatal. Por isso, sempre desejamos que nossos inimigos tenham tudo, ocupem-se bastante e fiquem muito cansados, a fim de que se esqueçam de nós, dos nossos portões, dos nossos bens, dos nossos filhos e de nossas vidas. Mas, nós, que não sabemos nada dos seus portões, dos seus bens e dos seus filhos, todavia, não nos esquecemos deles, nunca nos esquecemos que são inimigos que devem, todavia, viver...).



No Judaísmo não discutimos conceitos teológicos, não defendemos dogmas religiosos, não buscamos fiéis ou infiéis, não levamos ninguém para a Sinagoga, não formamos missionários. Não desprezamos nem aprovamos a religião de outrem, pois o Judaísmo é o nosso melhor silêncio, um singular e respeitoso silêncio. E, assim, nunca estamos nas praças ou esquinas (nem nos palcos). O palco não é, de fato, para judeus...





Ao contrário, estamos envolvidos com o nosso suor, com os nossos livros, com as nossas Sefirôt. Mas, não estudamos o Eterno e sequer pronunciamos o seu Nome! Não pedimos nada a Ele, entretanto, com um profundo e respeitoso sentimento de gratidão e reverência, abençoamos seu Nome, todas as manhãs e todas as tardes e, ao anoitecer, olhamos para nossos filhos, cobrindo-os ternamente e lançando-os na Presença de HaShem...



Amamos festas, contamos no dedo os dias que faltam para a próxima festa e o que devemos fazer para que elas sejam alegres, maravilhosas e humanas. Nossas Festas não projetam nada de mágico para o futuro nem devem ser lidas como profecias.





Nossas Festas são apenas Festas de memória, com as quais, contamos a nossa história (para os nossos filhos). Sim, meu caro, com elas contamos a nossa própria história, por isso mesmo, há milênios fazemos o mesmo pão da amargura e cativeiro, e não comemos, naquele período, fermentos para não nos esquecermos de que sair da escravidão é um ato apressado, um ato que não permite conforto nem reflexão - um ato decidido.





Não temos nenhuma vergonha de dizer, em nossas Festas, que fomos escravos! Comemoramos nossas colheitas, o nosso momento de constituição integral no Sinai, e comemoramos nossos novos períodos de trabalho, muito trabalho, lembrando-nos das más ações, dos maus comportamentos em um ciclo completo, das privações, das cabanas (nas quais moramos).



Ademais, lembramos dos momentos em que nossos inimigos destruíram nossos palácios, nossos altares e, de como, fortalecidos em nossos princípios, livramo-nos deles, lutando, lutando muito, com espadas, garfos e pedras (reais). Lembramos do nosso estado em terra estranha e dos governos babilônicos, persas, romanos, católicos, luteranos, nazistas, fascistas, britânicos, que tentaram nos apagar da história e de como pessoas do nosso povo, de carne e ossos (homens e mulheres) mantiveram seus propósitos claros, seu amor inabalável e, com sabedoria, utilizaram tudo o que haviam aprendido em casa, com seus pais e irmãos, para decidirem por alguma coisa, para fazerem alguma coisa e definirem que não temos que desaparecer da terra.



Nossos dias não são ocupados, integral e tresloucadamente, com lufa-lufa continuado. Não! Nós paramos, sim, há um dia, deliciosamente especial, em que paramos para comer um pão trançado, feito por uma mulher amável e satisfeita com HaShem.



Paramos para beber o vinho, para comer frutas, doces e mel, para cantar com nossos filhos e filhas e, de mãos dadas, dançarmos, cutucando cada um deles, fazendo-lhes cócegas, dando gargalhadas e cheirando seus cabelos. Também, paramos, neste dia, para nos encontrar com outras pessoas a quem amamos, os nossos amigos que, como nós, que comeram do seu pão trançado, feito por suas mulheres amáveis e satisfeitas com HaShem, e que beberam do seu vinho e comeram frutas, doces e mel, que cantaram com seus filhos e filhas e, de mãos dadas, dançaram com eles, e os cutucaram, e lhes fizeram cócegas e deram gargalhadas, e cheiraram seus cabelos... Por isso mesmo, quando mais pessoas amigas estão juntas, todas sabem o que é pão trançado, vinho, doces, mel, filhos, filhas, mulheres amáveis e satisfeitas com HaShem, risos, gargalhadas e os motivos, todos os motivos, de não querermos trabalhar neste dia...



Entretanto, quando um dos nossos amigos trabalha neste dia, e não podemos vê-lo em nossos encontros, isso não nos aborrece nem encanta. De fato, não mandamos nenhum espia em sua casa, nenhum missionário e, muito menos, um profeta! Não investigamos nosso irmão nem nossa irmã, pois, no Judaísmo, cada qual é responsável por si mesmo e, assim como as letras do alfabeto hebraico, cada qual vale por si mesmo, tem seu peso e sua medida (que ninguém procura conhecer, pois é a medida indecifrável de cada um).



A responsabilidade, em nós, alcança níveis de grandeza e profundidade, de peso e substância, mas ela é individual, singular e intransferível. Desde a tenra idade somos esclarecidos no comportamento, somos ensinados no exemplo de nossos pais e de nossas mães (sim, no Judaísmo conhecemos bem as palavras pai e mãe!). Aprendemos a fazer, a concretizar, a transformar um tijolo em castelo, uma página em biblioteca e, assim, somos exercitados continuamente ao aprofundamento, ao estudo e à busca pelo saber. Freqüentamos mais lojas de livros usados que restaurantes...



Desenvolvemos, assim, naturalmente, o respeito por aqueles que, eventualmente, sejam nossos mestres, nossos professores. Porém, eles não são nossos guias espirituais, não são nossos pastores nem nos conduzem a lugar algum. São mestres que nos ensinam a Torá e o Talmud, e que nos incentivam a ensinar a Torá e o Talmud, transformando-nos em mestres e professores, que ensinam a Torá e o Talmud... Eles, os mestres, não são nossos donos e donos de nossas casas, porque o que têm em mãos e nos legam, é de tal modo precioso, grandioso e essencial que, por conta disso, exatamente disso, aprendemos que nossa casa é nosso jardim, nosso recanto e uma projeção de nós mesmos. Aprendemos que nossas casas refletem o nosso amor por Jerusalém.



Ah, Jerusalém... Jerusalém é o nosso centro. E dali, aprendemos a olhar o mundo, o universo, o kosmos... Ali, especialmente ali, nos reencontramos como um povo, como seres humanos que venceram a morte, as câmaras de gás e toda sorte de maldades, que suplantaram as dores e renasceram! A cidade de Melech David e de Melech Sh’lomo, a Poesia e a Sabedoria de mãos dadas!



Não, não meu caro, Judaísmo não é solidão. Somos calorosamente sociáveis. Judaísmo é silêncio realizador, fogo que queima sem discurso, energia que faz e refaz a nossa alma. Se quiser andar conosco, poderá vir. Sim, você poderá vir (por que não?). Mas, não pretenda sair pelo mundo, tentando consertá-lo com o Judaísmo, nem voltar-se contra seus antigos pares, incriminando-os, derrotando-os e causando-lhes dissabores. Não faça isso!



Se quiser, venha. Mas, se vier e viver como judeu, você não se fará melhor que seus antigos companheiros, nem poderá lhes dizer coisa alguma. Apenas apontará para si mesmo (apenas para si mesmo!) um comportamento único, próprio, sobretudo, se perceber que nosso D’us será seu D’us e que nosso Povo será seu Povo e, assim, não poderá fazer (nem permitir que se faça) aos outros o que lhe parecer odioso, injusto e indecente a si mesmo.



Fondi, Itália, em 8 de Tamuz, 5768 (11 de luglio, 2008)



© Pietro Nardella-Dellova. Mestre em Direito pela USP – Universidade de São Paulo. Mestre em Ciências da Religião pela PUC/SP. Mestre na Sinagoga Scuola/Casa Degli Spiriti. Membro da UBE – União Brasileira dos Escritores. Autor dos livros AMO (89), NO PEITO (89), ADSUM (89), A MORTE DO POETA NOS PENHASCOS E OUTROS MONÓLOGOS (2009) e de Centenas de Artigos na Coluna Café e Direito ®. Autor das Teses “A Crise Sacrificial do Direito” (USP, 2000) e “A Palavra Como Construção do Sagrado” (PUC-SP, 1998). Professor universitário de Direito, na Universidade Federal Fluminense, RJ.



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mercoledì 9 luglio 2008

Entre o Castelo e as Escadas ou, GUARDA LA LUNA, MAMMA!


Entre o Castelo e as Escadas ou, GUARDA LA LUNA MAMMA!


por Pietro Nardella-Dellova
da Sinagoga Scuola, Beit Midrash


Vivemos em um tempo de rótulos, apenas rótulos, lamentáveis rótulos! Há uma incessante e desastrosa busca por marcas, estereótipos e máscaras. Nessa marcha, as pessoas vão perdendo o brilho, a grandeza, a direção e, pouco a pouco, por medo de enfrentarem os seus abismos pessoais, atribuem ao outro o peso da culpa pelos males do mundo, e pelos infernos (todos quantos se possam criar pela imaginação humana).

Por isso mesmo, estamos vivendo em um tempo pesado, com pessoas doentes em todos os sentidos, carregando entranhas fantasmagóricas, com marcas artificiais de violência, de espantos e temores. Com pavor de se abrirem as janelas da casa porque lá fora habita a escuridão, o desfazimento do ser e os ruídos mórbidos.

Em que medida enxergamos o conjunto de tudo que se nos apresenta? Pois, então, não poucas vezes, debilitados e corroídos pelos nossos próprios enganos e ações más, envenenamos um mundo que continua ali...Lá fora não habita a escuridão, o desfazimento do ser e os ruídos mórbidos. Lá fora reinam o sol e seu fulgor, a leveza e a Poesia. Reinam a luz e as Forças da Creação. E uma voz que ecoa: “é muito bom...”

Dentro, bem dentro de cada um, também há sóis, luzes, calor e música. Há motivos para desfazer a nuvem (ou ver por intermédio dela), romper os obstáculos (ou utilizá-los como referência) e prosseguir. Mesmo quando é noite, não é noite, pois é possível ver estrelas, encontrar a lua...

Em Fondi, passei por muitos velhinhos solenemente sentados naqueles bancos que se dispõem na Via entre o Castello Baronale e a Chiesa di San Francesco. E, passando, ouvi deles os reclamos da Grande Guerra, de suas vidas e de suas dores. Um deles, o mais convicto, disse ao outro: “la guerra è la guerra della coca-cola...”. E, em seguida, levou seu caffé macchiatto à boca, com os olhos fitos e marejados...

Havia uma menina de três ou quatro anos, brincando nas escadas da Chiesa di San Francesco, e eu estava ali, olhando o Castello Baronale, à distância... e pensando nas mãos que ergueram aquelas paredes (e na Guerra vã dos velhinhos), quando, de repente, a ragazzina gritou para sua mamma: - Mamma, guarda, la Luna!!! E, olhei para seus olhos sorridentes, sentindo o peso das pedras que sustentam aquele Castello saírem dos meus olhos e voltei-me para a lua. Sim, lá estava a lua, crescendo, aparecendo, iluminando, por entre os adornos das construções antigas... A lua, iluminada-iluminando! Afinal, nem tudo é pedra, história e pensamento. Alguma coisa é o grito de uma criança encantada com a lua!

Aquela criança encheu meus olhos de alegria, de uma tal alegria (indizível) e olhei para ela, como quem olha D-us, com olhar de ternura, de agradecimento, de afeto e de redescoberta! Porque a lua estará sempre ali, renovando os tempos, “as tardes e as manhãs” de todos os dias. Nem o Castello nem a Chiesa; nem a Guerra dos velhinhos, foram capazes de desfazer a lua.

Mas, é preciso ouvir os gritinhos das crianças porque trazem o segredo dos mundos, a substância da vida e a Poesia plena! Foi assim, como a criança nas escadas, que os homens, um dia, olharam para o alto e começaram uma busca que os levou a terras distantes, vencendo medos e mitos, vencendo ursos nas esquinas e a ferocidade dos répteis.

Mamma, guarda la luna, guarda, mamma!

É como dizer para o ventre que nos forma, para os lombos que nos trazem e, talvez, para os fantasmas e marcas que nós mesmos gravamos em nós, impiedosamente, com a mesma voz daquela ragazzina, pulando em nossos degraus e vencendo nossas escadas: “la luna, guarda!”

Entrei, entao, na La Piccola Caffetteria, um bar que fica entre o Castello e esta Chiesa, precisava de um caffé macchiatto, precisava de uma Via movimentada e precisava de uma cadeira. E pedi um “un tramezzino ma non di maiale ed anche un caffè macchiatto”. Mas, o balconista me disse: “prego, può mangiare, è buono!”. Então, seu colega de balcão lhe advertiu, dizendo: “perche lui è ebreo e non mangia maiale come io, musulmano”, olhando-me e sorrindo para mim, com a mesma satisfação do encontro Esav-Ya’akov, que só é possível em terras como a Itália e, com o mesmo ininterrupto sorriso, preparou-me um delicioso suco “di arancia”.

Ali, naquele momento, eu não estava de kipá nem ele de turbante...e, apenas sentimos, com a troca de nossos sorrisos, que nossos mundos não estavam tão distantes assim...

Naquela noite (era noite para mim, mas para as pessoas que amo, na América, era apenas a metade do dia) eu ri de mim e para mim mesmo. Bem, naquela noite, eu comprei um “pacific aromatic” e um “vino rosso” em tetra pak para, simplesmente, descobrir que a noite não é para todos, no mesmo momento e, portanto, aquela voz de criança encantada não é para todos, no mesmo momento...

Pois, depende dos movimentos que fazemos, depende da nossa vontade-ação, buscando, criando, reagindo e avançando os olhos para a lua. Porque a lua não tem história de sangue nem de amor. Não há lágrimas na lua nem sorrisos. A lua é a lua sempre! Mas, os nossos castelos trazem, ainda, o som, surdo, das vozes do tempo, dos monstros, das doenças de que fomos acometidos e dos males, pelos quais, fomos lançados sob pedras...pesadas pedras...

Amanhã vou a Napoli, bem cedo, ver o sol de Napoli e toda sua movimentação. Enquanto estiver vendo o sol de Napoli, as pessoas que amo, na América, estarão, ainda, no meio de suas noites...

...La luna, mamma, guarda la luna!


Fondi, Itália, 5 de Tamuz, 5768 - 8 de luglio, 2008

© do autor, não reproduzir sem expressa autorização

© Pietro Nardella-Dellova. Mestre em Direito pela USP – Universidade de São Paulo e, Mestre em Ciências da Religião pela PUC/SP – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Rav na Sinagoga Scuola. Membro da UBE. Autor dos livros AMO, NO PEITO e ADSUM. Professor universitário.

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mercoledì 2 luglio 2008

Pensando na CAVERNA DE PLATÃO ou, diálogos virtuais pela manhã entre o viajante e um ragazzo





Pensando na CAVERNA DE PLATÃO ou, diálogos virtuais logo pela manhã entre o viajante e um ragazzo





por Pietro Nardella-Dellova


Não tem jeito, ragazzo, não tem jeito, você está colado ao asfalto da sua própria sorte e resistência. E, muito provavelmente, não passará pelos dissabores do deserto. Mas, olhe para aquelas crianças, elas não precisam morrer no deserto nem entregar suas vidas aos fantasmas que vêm com os ventos noturnos...

Será que nos recuperaremos do excremento/fossa/asfalto/lixo em que fomos jogados até o naso? Seria possível transformar o lixo em ouro e o excremento em algo proveitoso? É uma sensação de que ele, o excremento, vai invadindo seus pés, pernas, tronco e, finalmente, com o lixo, encontra sua boca. E, depois, entra em sua alma, em seu espírito e vai se tornando uma unidade com você, com sua vida e com o seu modus vivendi.

É um processo de fragilização, em função do qual, os sentidos perdem sua capacidade de discernimento e, no avançar das horas (de uma noite que não termina), a fumaça, os aparentes fogos, os sons e ruídos, misturam-se, confundem-se e se transformam em abandono. São os longos anos de lutas, de loucuras, de bestialidades, que nos convertem em seres estranhos, bastante estranhos. Até o espelho é estranho!

Perder o brilho, a energia e a poesia, é ser condenado aos vermes, às moscas e tudo...Pois, ao longo dos anos, a dignidade, a honra e a Presença do Eterno também se perdem... E você não faz idéia, ragazzo, o que seja para uma águia ficar no chão ou para um leão fugir de hienas. Você não sabe o que é Moshé ficar suspenso entre o alto e o baixo, entre a Liberdade plena e a ânsia dos seus pares por bezerros de ouro...
A uma pessoa é dada a possibilidade de perder quase tudo, mas não deve perder a energia vital, o brilho e a grandeza...

Va bene, encontrarei amigos em Firenze e querem que eu fique com eles, mas não ficarei, senão o tempo necessário para um café, um sorriso e um abraço. Firenze é linda, e os amigos são maravilhosos, mas, é preciso estar só, completamente só, absolutamente só. As pessoas não mudam e os lugares, por causa das pessoas, são iguais sempre, não importa seja a América, seja Firenze ou outro lugar.

Na Itália, ragazzo, é preciso descobrir o que seja próprio. No lixo da rua, na mulher que caminha, no velhinho diante de um Bar, no coco do pombo, não importa. Na Itália, lixo, mulheres e velhinhos são iguais, como em qualquer outra parte do mundo. Mas ali, essas coisas dizem respeito ao que é próprio...são minhas...E, não importa tanto o que seja belo ou feio, porque ali eu me vejo dentro em uma normalidade integral. Estou no meio do meu povo!

Por isso mesmo, após o café em Firenze (talvez uma pizza), vou deixar aqueles amigos, e continuar minha jornada ao centro da terra, ao centro de mim mesmo, e visitarei os vazios que se criaram na alma e falarei com a escuridão que teima, espessa e bruta, em assombrar meu espírito, pois estou cansado... De fato, ragazzo, cansei. Cansei! Realmente cansei! Estou profundamente cansado de carregar o mundo nas costas, de empurrar, de gritar aos quatro cantos, de ser um eco no deserto. Cansei, apenas cansei! E agora, se não me cuidar, eu me cansarei de mim mesmo, e começarei a fazer talhos em minha carne...

Criei um poder de fogo, de luta, de sobrevivência, sobre bases, conceitos sólidos e princípios. Criei a vida sobre o amor ao conhecimento e ódio à ignorância e idiotices. E descobri os perfumes da vida, da própria vida! É a Poesia! Ah, ragazzo, é a poesia...e o modo de ver com poesia... O modo de ver poeticamente é ver por dentro, na substância, na essência, compreende? Não é o jogo das palavras, rimadas ou não, mas a quebra do discurso, retilíneo e frio, a quebra do excesso de palavras, e a descoberta...

Mas, a Poesia arruína o diálogo. Não há diálogo com Poesia, apenas solidão...pois vendo por dentro o poeta é condenado a uma eternidade de solidão...Poetas falam para si mesmos... A Poesia arranca o homem das profundezas e o lança diante do brilho do sol, dá-lhe asas, e vigor, desde o modo de caminhar, da quebra do giz a um café universitário.

Porém, mesmo com o fogo da Poesia, não é permito a um homem, sábio e poeta, cometer o irremediável erro da inocência. O erro da inocência faz este homem rastejar, ruminar o pó da terra... Sim, sim, você tem razão. Afinal a experiência com o pó da terra pode ser boa, pode fazer amadurecer e descobrir a vida. Mas, a inocência é a crença no improvável diálogo com o ser humano.

Acreditei que seria possível o diálogo, o encontro dialógico, a descoberta do “tu”, do café e da ternura. O diálogo é possível, o “tu” é possível e o café e ternura são possíveis, mas não o tema que propus. Foi diante do tema proposto por mim que desfiz minha inocência e errei, em um processo de autodestruição, de vergonha, de enfraquecimento, de lente-opaca e de pasmo.

É preciso deixar o “sábio” levar o “poeta” (e a simplicidade levar a ambos), para que alguns aspectos sejam compreendidos, capisce? Agora o tempo, meu caro, o tempo é exíguo...Eu havia proposto avançar nas coisas grandes, do alto, do Eterno, da Poesia Substancial, da Intensidade e da Infinitude.

Acendi Sete Lâmpadas, sobre a mesa. Uma era o Espírito de HaShem, o centro, o equilíbrio, o encontro da Justiça com Misericórdia. Depois, eu fui acendendo as outras, conforme havia café na xícara, pão sobre a cesta, sorrisos nas faces e bilhetinhos de amor entre as páginas. Acendi as lâmpadas do Conhecimento, e da Sabedoria, e do Entendimento, e da Coragem, e da Força e do Temor ao Eterno... Mas, errei pela inocência...

Não, eu não perguntei se aqueles que lá estavam, queriam o diálogo em torno das Sete Lâmpadas. Ademais, não dei tempo para descobrir o que as pessoas queriam ouvir. Assim como no Mito da Caverna, de Platão, saí entusiasmado para dizer para os meus pares sobre a liberdade, sobre o sol, sobre a vida, e fui violentamente surrado. Saí pelas ruas e pelos cantos vomitando, com as mãos trêmulas, empalidecido e desacreditado...

Achei possível todos mergulharem em livros, nos estudos e pesquisas, todos gostarem de Ópera e amarem Poesia e verem Jerusalém diante de suas portas, tocando suas Mezuzot. Pensei fosse possível amarem o Pão Justo, prendendo à mão seus Tsitsiot! Achei que todos viveriam de sebo em sebo, enchendo suas casas de livros. Pensei que transformariam o vinho em música e a música em Hallel. Mas, não perguntei isso a eles...e eles nada sabem sobre isso... Odeiam bibliotecas e confundem ruído com notas musicais, e suas Mezuzot são símbolos de sepulcros, saqueiam o mercado e entregam o pão maldito nas mãos de seus pais, com largos sorrisos, e seus Tsitsiot são enfeites (não sabem o que são nem o que representam). Seu Hallel se converteu em música de Cabaré e seu vinho no meu vômito. Seus Talitot são mortalhas e os véus...os véus, meu caro, não reservam a face da beleza e da santidade, mas escondem a lepra e a vergonha de rostos desfigurados, de olhos esbugalhados e de bocas enfermas...

E vai custando, agora, a alma, o espírito, o corpo e a vida inteira. Mas, por que custa tanto? Porque o tema matou o diálogo e as Lâmpadas assustaram. Tudo lhes era mais simples diante do “pó da terra”, tudo era mais fácil com um sermão ou uma prece, um churrasco e um jogo de futebol. Era mais fácil esconder as fraquezas de toda ordem, em máscaras criadas em sexta-feira, quando as velas da mortandade são acesas. Eis a dor da surra!

Ah, ragazzo, agora vem o aprendizado. O meu aprendizado! Preciso reaprender a viver, do início, ou ficar sobre um monte, esperando que o Eterno me faça um sepulcro e um funeral do qual ninguém possa participar...A soberba e a inocência andam de mãos dadas. É imperdoável acreditar que todos possam desabrochar. Vieram alguns, mas eu queria todos!

E fico um pouco desorientado, por não saber mais quais são os parâmetros que separam o de cima e o de baixo. Por isso ando como quem anda entre cadáveres insepultos, tantas as fraquezas, fragilidades, banalidades, mediocridade, falta de perspectiva, infantilidades, falta de caráter e banalização da presença humana.

Sim, meu caro, é a face da humanidade que eu não enxerguei, acreditando que todos pudessem ser melhores. Mas, todos não podem, não todos. Por isso mesmo o erro estava em mim, pois as pessoas são só pessoas.

Agora é tarde, tarde demais, para estar com as mesmas pessoas. Ficará sempre a marca, a triste marca, de estar ali, ali mesmo, passando um Poeta, um Profeta, um Sábio, que esmaga os seres pequenos e não tolera a fragilidade, porque as pessoas querem apenas ser vistas pelo que são na sua própria mediocridade e não pelo que poderiam ser. Os Patriarcas, Moshé, o Poeta, o Profeta, o Mashiach, passam a ser odiados, quando as pessoas percebem que eles se tornam uma referência. Sim, uma referência que exige de todos, por si mesmos, um movimento dantesco para sair da areia e do pó. Uma referência que exige de todos bater contra sua própria pedra e formar um ser. E Sarah, Rivkah, Leah e Rahel, ah, ragazzo mio, elas perturbam o sono de quem não pode ser como elas, de quem não pode chamá-las de "nossas mães", nem fazer o pão que faziam, nem olhar para o Alto como faziam...

Essa é a natureza do gigante e essa é a natureza das pessoas. Não é possível ser a salvação das pessoas, exceto se você levar em mãos uma “vitrola”, um diário impertinente, partituras cifradas, cerveja e a notícia das últimas novelas. Diante de tanta média, somente o silêncio, a tolerância e a compreensão de que as pessoas são meio que imutáveis. Mas, para o Mestre é tarde, é tarde demais.

Afinal, quem aprende? O discípulo ou o mestre? Os muitos anos, talvez, fossem necessários para aprender que, enfim, valem mais as vendedoras de prazer da estrada, os compradores e vendedores de diplomas, os que comem a gordura do povo e os que escondem em seus bolsos coisinhas furtadas na prateleira do mercado. Valem mais os estelionatários e aqueles que se apropriam de um giz sem ter o que ensinar... De fato, valem mais os desonestos e os medíocres!

Ficarei, então, com as pombas, com os ratos, com as formigas, com os cães, com os gatos e com as minhocas, mas devem ser pombas, ratos, formigas, cães, gatos e minhocas italianos!
Você é um ragazzo que se fez homem, de verdade!

Vamos, então, e tomemos o vinho em qualquer lugar da Itália, menos em Napoli, porque em Napoli eu me reservo, tranquilamente, para reencontrar a alma da mulher amada...


Freehold, USA, 28 Sivan, 5768 (1º luglio 2008)

© do autor - Pietro Nardella-Dellova. Mestre em Direito pela USP – Universidade de São Paulo e, Mestre em Ciências da Religião pela PUC/SP – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Rav na Sinagoga Scuola. Membro da UBE. Autor dos livros AMO, NO PEITO e ADSUM. Professor universitário.

Mais informações e textos: http://nardelladellova.blogspot.com/
Contato: professordellova@libero.it

AND I WOULD NOT WAKE YOU UP FROM THIS SLEEP, SON! (tradução do original em português)


AND I WOULD NOT WAKE YOU
UP FROM THIS SLEEP, SON!

On my chest you always arises
and I would not wake you up from this sleep, son,
and if no longer be confident and sensitive of the
beats of the heart of this dad, poet.

And under your chest let me feel
The paused beats within your chest;
And your live blood in soft veins
I feel my old veins been warmed by yours;

And this working hands of mine sliding with love
Following the mold of you little body,
your little feet, back, shoulders and face ...

And you feel so lying on my chest,
So intense the heat of your little body sleeping
So in my veins, living my life!

------------------------

Author
From Giuseppe Pietro Nardella-Dellova ( to Abrahan )
São Paulo, December 24, 1984 at 1pm.

Traslation:
Abrahan Alessandro ( to Elijah Amadeo )
Freehold, USA July 2, 2008 at 1pm

texto original em português
E NÃO ACORDAREI VOCÊ DESSE SONO, FILHO!
Sobre o meu peito você se coloca sempre / e não acordarei você desse sono, Filho! / e se deixa ficar confiante e sensível / às batidas do coração deste bardo pai, / E sob o seu peito me deixo sentir / As pausadas batidas dentro do seu peito; / E o seu vivo sangue nas tenras veias / Sinto aquecer as velhas veias minhas; / E as mãos calejadas se deslizam com amor / Acompanhando o molde pequeno do seu corpo: / Os pezitos, as costas, os ombros e a face... / E sinto você tão sobre o meu peito deitado, / Tão intensamente em meu calor dormindo, / Tão em minhas veias vivendo a minha vida!
(publicado no livro NO PEITO HÁ UMA PORTA QUE SE ABRE, 1989)

Foto de ilustração: Abrahan e Elijah Amadeo (30.6.2008, USA)

Em função de EURIDICE ou, diálogos na madrugada para que flores se livrem da morte


Em função de EURIDICE ou, diálogos na madrugada para que flores se livrem da morte


por Pietro Nardella-Dellova
da Sinagoga Scuola, Beit Midrash



Vai e estenda a sua mão, a amizade e o afeto. Vai, mas, antes se cubra de sabedoria, prudência e serenidade, e vista luvas, e se banhe em águas purificadas. Vai, cante uma canção, suave e melódica, em face das sombras que cobrem a alma daquela mulher... pois ela vem de longe, trazendo o peso da infância deformada nas crendices de esquinas, nas asperezas da periferia multifacetada, nos gritos de botecos e nos sonhos frágeis de uma colegial...

É a sombra espessa, com peso asfáltico e cores marrom-escuro, capazes de atingir no âmago, no frágil equilíbrio das composições humanas, e arrastar para o mais profundo dos infernos, onde tudo vira carvão de churrasco, garrafas quebradas no quintal e latas enferrujadas sobre as lajes. São aqueles gritos que deveriam ter sido calados, com isopor, faz tempo. E a infância que deveria ter dado lugar à flor da vida, às pérolas, à maturidade e aos vôos mais altos...

Vai, e encontre aquela mulher, que anda presa, ainda, às rezas que enceguecem e transformam jardins de inverno em flores plastificadas, e arquiteturas italianas em caixas de papelão molhadas. Vai, minha cara, vai desatar os nós que se formaram nos jogos de cordas, nas solidão do bem-me-quer, e tente trocar o barulho de um vinil em dias de festa de aniversário ou fumaças de formatura, por uma poesia de Drummond. Tente dizer ao ouvido daquela mulher que a vida clama, e não espera. Que a vida passa...

Ela precisa de sua própria alma, perdida em algum evento místico, desfeita diante de algum bastardo, jogada nas águas sujas do esgoto que se acumula à porta, nos corredores, nos intermináveis corredores, feitos de frustração, de loucuras e de ratos que ficam em pé. Vai, e estenda sua blusa para que ela passe...

Você me daria água? Água para amenizar o sal que se cristaliza na minha boca? Vai, então, e tire o sal da minha boca pois tenho vertigens, e ânsia, e tremores que me acordam pela madrugada, pois o céu, as estrelas e as flores, não podem ser colocadas em um poço fundo e escuro...E aquela que se encontrar em poço fundo e escuro, inimaginável, não pode ver o céu, as estrelas e as flores.

Lançaram o mestre de um penhasco e seus intestinos foram deixados aos corvos da terra. E o despiram dos pergaminhos sagrados e arrancaram dele cada um dos olhos, e o fizeram vomitar cada uma das letras da Torá. Encheram seu cérebro de vermes e o ofereceram aos deuses pagãos. E, cortados, seus dedos e sua língua, foram deixadas às hienas... E o Poeta? Roubaram dele a Lira e a Harpa e, agora, andando de um lado para o outro, geme à porta de Plutão.

Vai, querida, arranque aquela mulher de entre os cães, aquela mulher que foi amarrada em estacas do sangue que corre nas veias, e que ainda cheira a sopa do ventre que a formou, pois a direção e o caminho se perderam, a luz converteu-se em velas que adornam o esquife...

De longe, um sopro pode machucar aquela mulher. Vai, e leve, então, a candura, a bondade, o espírito e uma tocha à mão para iluminar aquele rosto. Mas, coloque-a bem perto do seu rosto, pois se encontra deformado, envolto em escuros panos rotos, e não se importe, minha cara, se ela estiver com pedras à mão e que sua voz lembre o turbilhão de águas que se encontram e que se despejam do alto. Vai, e não se importe que das suas faces saia o enxofre e a tristeza. Vai, e fique sobre um pedra, aponte a luz, a leveza, a árvore e os ramos, aponte o Mikvê, e empreste a ela uma peneira para que se recolham as letras perdidas na escuridão. Ajude-a encontrar entre grãos de areia, choros continuados e pensamentos maus, a letra yud י , e mais adiante, a letra he ה ,e entre musgos a letra vav ו e, finalmente, complete seu vigor com a letra he ה . E, mostre a ela como unir essas letras e formar o Nome de Quem ela não pode se esquecer, o Nome capaz de fazer o “nada” se transformar em Jardins Coloridos, o Kaos em Kosmos e o pó da terra em coisas “muito boas”...O Nome do Eterno... Vai, querida, e mostre do que é feita uma judia e porque você é filha de Sarah, Rivkah, Leah e Rahel...Vai e, acorde-a para receber luz e poesia por mil gerações...

Assim, ela terá a luz, a candura perdida, o bom coração e o bom espírito. E sua alma, perdida em um longa noite escura, úmida e sombria, voltara ao seu ninho e seus dias serão de paz e poesia...Oxalá pudesse eu movimentar um olhar e um bocejo, de terras longínquas onde me encontro, e fazer a unção cobrir-lhe como um manto de realeza. Os meus sons ecoam e amedrontam os moradores das valas comuns, estremecem os seres monstruosos e cadavéricos, fazem calar Plutão e fugir, apavorados, os cães guardiões das profundezas, mas não chegam a ela, não a tocam nem a fazem viver. Meu braço se estende, dentro da morada da serpente, e doem meus músculos e avanço, ainda, a mão aberta e hirta, rasgando-me o peito, mas, por uma película indecifrável, por uma vestimenta de pasmo e pavor, não a toca...porque ela deve fazer um movimento em direção à poesia, à mão e à vida...

Vai, querida, vai por mim. Leve em suas mãos, concentrados, os rumores da minha fala, as vibrações das minhas bênçãos e, leve, também, as lágrimas que derramei, e diga-lhe com serena voz, muito serena, que estou doente, sem Lira nem Harpa, sem Bênção nem Torá, sem Talit nem Tefilim, descoberto diante de um mundo agressivo que me violenta com escarros e excrementos, que me fragiliza com o sal apegado à língua. Minha boca está salgada, compreende? Ah, querida, se pudesse me dar uma fritella... Mas este pão, o pão dos justos, daqueles que plantam, e colhem, e carpem, tornou-se uma goma, uma cola, grudada ao céu da boca e entre os dentes...

Passou uma criança e me disse: - cante! E eu fugi, tomado de pasmo, como quem corre do medo e vomita pela morte...Passou um ancião e me disse: - lance uma Brachá sobre mim, e eu desmaiei do terror que me invade e me sufoca... Passou um casal e me disse: - fale sobre a Torá! E eu não pude tirar a Torá do Aron Kodesh, porque os que me olhavam do alto, dos andares superiores, riam de mim, e lançavam sobre a Bimá milhares de cebolas, milhares de tomates e milhares de berinjelas...

Vai, então, minha querida, vai sozinha, porque estou nesta estaca, levantada no tempo e na passagem. Fizeram de minha cabeça um troféu, da minha dignidade uma vergonha, tiraram a pele do meu rosto para os balões de aniversário e misturaram meu fígado ao vinagrete e serviram a meu povo. Vai, vai por mim, porque ando com náuseas pela manhã e me sento na praça à tarde. E, o dia inteiro, como quem espera ser lambido pelos cães...

E por que ando assim, desfeito no pó? Porque pedi aos transeuntes que amarrassem minhas mãos e tapassem minha boca, pois o meu cântico tornou-se uma praga e a Lira, da qual fazia suonare poesia e vida, foi largada em uma caixa de gordura. Por isso fico assim, andando pelos bares de Roma, buscando caffé e água. Mas, Roma, não é mais a mesma...as pessoas não falam italiano em Roma, falam outras línguas, mas não o italiano...Eu peço água e eles não me entendem. Vai, então, enquanto curo as feridas da minha face e a escuridão dos meus olhos...vai...e desperte Euridice...

Vou a Napoli. Em Napoli encontrarei as vias estreitas. Procurarei minha alma entre pessoas que me compreendem. Ninguém me pedirá uma canção hebraica nem solicitará uma Brachá. Ninguém pedirá que eu leia coisa alguma. Em Napoli terei tempo para ficar quieto...


Freehold, USA, 27 Sivan, 5768 (30 giugno 2008)

© do autor - Pietro Nardella-Dellova. Mestre em Direito pela USP – Universidade de São Paulo e, Mestre em Ciências da Religião pela PUC/SP – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Rav na Sinagoga Scuola. Membro da UBE. Autor dos livros AMO, NO PEITO e ADSUM. Professor universitário.

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Diante do MAR e do DESERTO ou, diálogo entre um Rabino e uma discípula acerca dos lábios salgados e da água fresca


Diante do MAR e do DESERTO ou, diálogo entre um Rabino e uma discípula acerca dos lábios salgados e da água fresca

por Pietro Nardella-Dellova
da Sinagoga Scuola, Beit Midrash

B’H - ב׳ה

A saudade e a lembrança pressupõem a presença de pessoas, ávidas pelo conhecimento, ávidas pela luz e pelo momento em que tenhamos um estado de Shalom pleno e continuado. Mas, precisamos de mais desprendimento, mais solidariedade, mais consciência e mais responsabilidade com o que temos em mãos, isto é, a Torá.

Você se surpreende por ser amada por um Rav? E por que a surpresa, se amar e ensinar estão dentro em contexto da mesma natureza e substância? Amar é um estado em que um relacionamento se concretiza para o crescimento, para o fortalecimento, para o desabrochar, para a alegria e para a descoberta da nossa própria humanidade. Por isso mesmo, ensinar a Torá e amar se converte na mesma relação. Amar não é ter ou possuir, escravizar ou pendurar na parede, seja uma cabeça ou uma fotografia. Amar é lançar o outro adiante, na luz e nos processos de libertação e, assim, na constância, convertê-lo em “tu”! Amar não é um procedimento idolátrico, diante de um deus grego ou romano, mas uma descoberta, uma realização, uma libertação, uma unção...

Por um pouquinho falaremos mais sério, mas depois voltamos, debochadamente, a sorrir, rir, brincar, dar gargalhadas. Não, não é necessário ser sério em todas as horas do dia, não gosto de ser sério em todo o tempo. Embora, as muitas responsabilidades docentes, sinagogais e familiares e os muitos relacionamentos pelo mundo, com pessoas com as quais me ocupo, façam de mim uma pessoa menos sorridente, mais centrada e menos estrambótica. Ma, va bene...

Não me faz bem essa seriedade continuada. A vida vai ficando pela estrada... e as pessoas vão ficando um pouco amedrontadas, um pouco distantes. Ficam com medo até de levantar a mão para o cumprimento de passagem. Mas, naquilo em que devemos ser sérios (são poucas as situações que exigem seriedade), devemos, então, ser sérios! Tenho sido sério no que respeita à Torá e no que toca à Cultura Judaica, no que se refere à Educação em geral e aos momentos em que me encontro diante de um quadro negro e um giz em mãos...

Não brinco com nada que se refere ao Eterno! Porém, no mais, deixo a seriedade, a introspecção e as formalidades, para estar com pessoas, sorridentes e leves, sem pesos nem loucuras. É bom estar, assim, leve, e ir ao cinema, tomar um bom café, falar besteiras, dançar, ir ao teatro, sorrir, dar gargalhadas, brincar, provocar o riso, desafiar aos momentos mais suaves...

O que eu quero dizer com isso, querida? Muita coisa, muita coisa mesmo... Quero dizer, por exemplo, que ao entrar em uma sala de aula (e você já me viu em sala de aula), e quando tomo o giz em minha mão, quebrando-o ao meio, eu sou absolutamente profissional, responsável com o que eu ensino, procurando dar aos meus alunos todo o apoio acadêmico, todas as informações, toda a orientação, ajudando-os a investigar o universo jurídico com amplitude, humanidade e verticalidade...

E, quando estou na Sinagoga, sobretudo, debaixo do meu Talit, ou com os Tefilim postos em minha testa e braço, diante do Aron Kodesh e com a Torá diante dos meus olhos, meio abaixados, sou absolutamente zeloso com este universo, com o que diz respeito a HaShem, apenas procurando transferir em cânticos, preces ou Midrashim, o que recebi ao longo de toda minha vida de Estudos da Torá...Vejo aquelas crianças e aqueles meninos e sinto que o que mais posso lhes dar é a certeza de quem não serão enganados nem vitimados diante de lobos religiosos, diante de pagãos e estelionatários. Não quero que estraguem suas vidas com as ilusões religiosas, mentiras e falsidades.

As pessoas, em quaisquer situações, são caras demais, valiosas demais e preciosas demais...E, por isso mesmo, procuro transferir a Torá, com toda minha alma, com toda minha força e com todo meu pensamento. São seus filhos e são meus filhos, é o futuro deles que pretendo garantir com as luzes da Torá. Concorda, querida? Tem certeza que concorda? Você consegue ver isto mesmo e esta nossa relação? Observa isto no Rabino, no Professor? Ou, ao contrário, vê mais um falsário, mais um mentiroso, mais um estelionatário, enganando alunos e participantes de uma Sinagoga?

No entanto, minha cara, às vezes (a maioria das vezes), eu gosto de ficar mais leve, mais solto, sem os gizes, sem meu Talit e Tefilim, sorrindo, apenas sorrindo e vibrando com gargalhadas, provocando, cutucando, fazendo sorrir, fazendo o rosto ficar vermelho e o abdômen dolorido. Nada há de melhor, estando leve, que tomar uma boa taça de vinho, falar de poesia, de uma peça qualquer (sobretudo, se for “diálogos da vagina”). Nada há de melhor que correr pela areia da praia, estar com amigos e amigas, sem ter que falar de coisas mais sérias.

Tenho buscado o melhor modo de libertar o homem, o poeta e o ser humano, do Rabino e do Professor. Porque o homem, o poeta e o ser humano, não devem se privar de viver, apenas viver, com simplicidade... Você me diz, querida, que é um privilégio estar com o Rabino e com o Professor? Não, não é assim! Não é o seu privilégio, mas o meu, a pessoa, o ser humano (dentro do Rabino e do Professor). É o meu privilégio, pois vocês fazem bem em serem humanamente pessoas! Vocês me fazem bem em sorrir e em não perguntar coisa alguma da Cátedra e da Sinagoga!

É isso que me leva às lágrimas, neste instante...E gostaria que soubesse que na condição de Rabino, a vida é solitária, muito solitária...Para entender isso, as pessoas deveriam ter amadurecido, a fim de suportar dividir questões de peso, de fundo e de grandeza...A questão judaica não é tão simples que possa ser lançada no mundo sem um criterioso método...

O Rabino deve correr, correr, correr muito (e sozinho) para fazer com que todos corram também... Por isso, estar mais à vontade, mais leve, sobretudo, em companhia de pessoas como você, que brincam, sorriem e não limitam as oportunidades de estarem bem, fazem-me mais amigo, mais sorridente, e mais forte para continuar...Tenho a impressão que vivi centenas de anos, compreende? Muita coisa, muita história, décadas de trabalho, milhares de livros, embates acadêmicos e universitários, questões midráshicas sem fim, rolos e textos que não acabam...São experiências que transformam qualquer um em gigante, compreende? Por isso mesmo as coisas parecem mais fáceis...mas, não são! A constante intensidade em tudo traz vontade de vômito.

Pois a vida nos impõe isso mesmo, lutar por cada livro, por cada espaço, por cada conceito (contra preconceitos), por cada minuto e, ainda, tentar manter o sorriso. Por isso, às vezes, vem aquela vontade de vomitar ou de abandonar tudo, e ir para o campo, cuidar de flores, animais, ver a chuva, o sol e desenvolver alguma sensação de paz...

Por que a vontade de vomitar? Você tem certeza que está fazendo essa pergunta? Eu lhe digo. Acumular energia, tornar-se gigante, vencer medos, dissabores, superar oscilações psicológicas, idiotices, preconceitos e padrões rasteiros, traz aquela certeza de que, ao mover um dedo, um dedo apenas, é possível esmagar os que se encontram ao lado, em qualquer situação. Daí aquela vontade de falar pouco em livros, em judaísmo, em Torá, em Princípios, para simplesmente redescobrir o sorriso, as brincadeiras, o vinho e estar bem com as pessoas boas.

Mas, por outro lado, se deixar tudo, abandonar tudo, desfazer a minha própria constituição, tenho igual medo de atingir as pessoas próximas, crianças que crescem com o som de Hatikvah e com a entonação do Sh’má...As crianças e as pessoas em geral, são frágeis, pequeninos, indefesos...cabem na palma de uma mão. E, fora, há muitos “castros”, muitos “mirandas”, muitos “macedos”, muitos “bentos”, enfim, muitos lobos que violentam o mundo com conceitos de demônios, de céu, de inferno, de deus-menino, de virgindades...

Porém, eu sou apenas uma pessoa. Não sou HaShem! Sou, por agora, apenas um homem bem intencionado, que não quer a gordura nem o pagamento das pessoas...Não quero o pagamento pelo que ensino diante da Bimá, tendo em vista que ensinar aquilo que ensino traz a impressão de que estou deixando um mundo melhor para os meus próprios filhos. Ensinar a Torá, e apenas a Torá, é legar algo de maravilhoso, de simples e de liberdade às gerações futuras. O que não estiver na Torá, não está no mundo...

Eu sei , eu sei que falo muito de pessoas divertidas (e, agora mesmo, estamos falando). Por quê? Porque olho adiante, e vejo o mar e o deserto, um grande mar e, além, um cauticante deserto, diante de mim, no caminho de todos, e penso comigo: como atravessar o mar e o deserto, e como fazer com que todos passem? E gostaria que passassem leves, divertidos, sorridentes, cantarolando. Seria, dessa forma, mais fácil a experiência do mar e o enfrentamento do deserto... Por que falo em divertimentos? Quer mesmo saber o porquê de eu falar em divertimento? Porque eu fiquei, minha querida, muito tempo diante do mar, olhando e pensando, meditando e raciocinando, buscando a estratégia para ajudar essas pessoas a atravessarem o mar, para facilitar essa experiência e dar-lhes a mão...

E, assim, porque fiquei diante do mar, minha boca ficou salgada, meus olhos ficaram salgados, minha pele ficou salgada, minha poesia e humanidade ficaram salgadas. E fiquei com sede. E voltei os olhos para ver quem poderia me dar um pouco de água (e não havia ninguém tão próximo). Estavam longe, esperando que eu lhes dissesse como atravessar o mar e como enfrentar o deserto. Mas, eu queria apenas um pouco de água, para aliviar a boca seca e salgada... E vi, à distância, que todos estavam bem, divertindo-se, cantando, sem poder saber que eu queria apenas um pouco de água. Apenas um pouco de água, e nada mais, para que eu pudesse dizer, então, como atravessar o mar e como enfrentar o deserto. Fiquei espantado que não encontrasse quem me desse um pouco de água, apenas um pouco de água...

Divertidos...Divertidos? Sim, querida, divertidos...Eu tinha que ficar diante do mar, mas queria estar, também, no acampamento, com todos, divertindo a minha alma, meu coração e enchendo meus olhos das alegrias que a todos estavam sendo dadas. E, de longe, eu querida dizer algo. Um pouco de água, um pouco de música, um pouco de vinho, um pouco de sorriso, um pouco de piadas, um pouco de brincadeiras, um pouco de danças, um pouco de palhaçadas, um pouco de amizade, um pouco de divertimento. Do mesmo divertimento que estava no meio do meu povo...Entende? Entende mesmo, querida?

Eu sei, querida, que não pode entender plenamente. Não é isso que quero. Sabe por que não pode entender, quer saber? Quer que eu lhe diga por que não pode? Quer querida? Você me vê? Enxerga o Rav? Você percebe o Rav? Eu sou o Rav de sua casa? Sou seu Rav? E é por isso mesmo que você não pode compreender tudo nem discernir tudo! Porque você vê o Rav!

Você vê o Rav, mas não consegue ver o mar (que o Rav vê), por onde você e sua família terão que passar. E não consegue ver além do mar, o deserto, por onde terão que caminhar. Você não compreende tudo porque me vê, como Rav, e eu vejo o mar e o deserto... De onde estou, vejo o mar. De onde você está, você vê o Rav...e, parece que, à distância, o Rav, cuja função é mesmo ver o mar, está bem...enquanto a música no seu acampamento continua...Você vê o Rav, mas não consegue ver o homem, o poeta e a pessoa...

Mas, te ocorre que o Rav, que o vê o mar e o deserto, está com a boca salgada, com os olhos salgados, com a pele salgada e com a alma salgada? E que ele, o Rav, quer apenas um pouco de água fresca? Você sabe disso? Você tem um pouco de água fresca para o seu Rav, que vê o mar e o deserto, por onde todos terão que passar?

Com a boca salgada, com os olhos salgados, diante deste mar, que eu vejo... e, porque vejo o mar, vejo, além do mar, o deserto, por isso mesmo, precisarei erguer as mãos, unindo os dedos (sabe, unir os dedos?), e precisarei proferir a Brachá (lembra, a Brachá?), aquela mesma, proferida com amor, cuidado e zelo, que alcança nossos filhos, e os filhos depois deles, sabe? Aquela Brachá que, sem ela, nossos filhos e filhas estarão perdidos no deserto... Pois bem, querida, não consigo! Pois minha boca está seca e salgada, e minhas mãos machucadas e trêmulas. Preciso apenas de um pouco de água fresca, que venha de alguém que perceba a necessidade de erguer a mão, com um copo de água fresca, e que diga:

Rav, beba! Rav, não chore! Rav, viva!

Você pode, querida? Se puder, faça-o, com serenidade, sabedoria, carinho e prudência, estenda sua mão e dê a água que me falta... e tire o sal que se impregnou nos meus lábios, na minha alma e nos meus olhos...e, em troca, terei forças, terei saúde, terei energia, terei vigor e levantarei minhas mãos, unindo meus dedos, diante de HaShem e diante do Aron Kodesh e poderei, quiçá, abençoar mil gerações, e conduzirei você pelo deserto e a ajudarei a passar pelo mar...

Por ora, este Rav que te ama, e ama, também, sua família, está distante, sozinho e triste, açoitado pelo vento, pela areia e pelo dissabor, com os olhos chorosos, com a alma pesada, com os passos cansados, com as mãos machucadas, com a boca seca e salgada, de um sal triste e de uma pesada brisa, esperando, apenas, que pessoas boas, como você, possam lhe oferecer um pouco de água...

Mas, também, estou um pouco surdo, e um pouco cego, e um pouco insensível, e um pouco acamado e enfermo. Estou difícil de encontrar, tal a distância em que me encontro...Mas, se você vier a meu encontro (você viria ao meu encontro, querida?). Viria mesmo?

Freehold, USA, 26 Sivan, 5768 (29 giugno 2008)

© do autor - Pietro Nardella-Dellova. Mestre em Direito pela USP – Universidade de São Paulo e, Mestre em Ciências da Religião pela PUC/SP – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Rav na Sinagoga Scuola. Membro da UBE. Autor dos livros AMO, NO PEITO e ADSUM. Professor universitário.

Mais informações e textos: http://nardelladellova.blogspot.com/Contato: professordellova@libero.it