alla Filosofia Dialogica, Letteratura, Relazioni Internazionali, Scienze Interculturali, Diritti Umani, Diritto Civile e Ambientale, Pubblica Istruzione, Pedagogia Libertaria, Torah, Kabballah, Talmude, Kibbutz, Resistenza Critica e Giustizia Democratica dell'Emancipazione.



ברוך ה"ה







mercoledì 18 febbraio 2009

AO RABI, ou ao Giam, HaZaken!


AO RABI, ou ao Giam, HaZaken!
de Pietro Nardella-Dellova

A voz de D'us me chamou: levanta-te, profeta, vê, ouve,
e percorrendo mares e terras, queima com a Palavra o coração dos homens!
(Aleksandr Puchkin – 1826)

Rabi, Maestro mio, entre as folhagens viçosas, os arbustos verdejantes, as árvores imponentes: o limoeiro, a figueira, a palmeira, o cafeeiro, a amoreira, o bambual, a bananeira, a goiabeira, a laranjeira, e as flores perfumosas do seu jardim, entrecortado por passagens, bancos e muretas de paralelepípedos -tudo plantado e feito pelo seu coração- caminhei, na minha última infância e primeira juventude, tantas vezes, de um lado para o outro, preso à sua mão, pulando o caminho das formigas, emudecendo-nos, atônitos, diante dos beija-flores. Descobrindo, a cada canto, a santidade do mundo das larvas, casulos e borboletas, a sabedoria das aranhas coloridas no alto das árvores, o calor dos ninhos de passarinhos, a vida em sementes explodindo ao vento.

Naquele tempo, convidava-me a estar diante do poço e beber dele uma canecada de água fresca e, orientava-me, também, a ver tudo ao seu redor (porque o poço no seu rancho, meu bom homem, é o centro de tudo) mostrando como a natureza e o homem são o corpo e alma da Terra. E como os olhos iluminados pela bondade podem encontrar poesia e música puras, e harmonia, e afeto, e respeito pela vida.

Ah, jamais me esquecerei daquela ponte que você fez entre uma árvore e outra com um galho ressequido para que as formigas pudessem passar pelo alto, protegidas!) E com aquela caneca à mão, plena de água fresca, descobri para sempre que estes são os milagres mais próximos da manifestação de D'us! E entendi, então, por que se comovia com os cães enxotados, sarnentos e famintos nas calçadas, e os tomava nos braços, sarando suas chagas com carinho, banhando-os e alimentando-os, dando-lhes nomes (zé, caçula, preta, marrom...) e a amizade da sua casa.

Entendi por que arrebanhava das ruas para a sua pequena varanda tantos gatos quantos podia salvar do veneno da vizinhança. E por que alimentava centenas de pombos, recebendo-os na palma da sua mão, medicando os de asas e pés quebrados pela violência das pedras da ignorância. Entendi, também, por que dava morada a um sapo à direita da sua porta, e por que mantinha uma tampinha com açúcar para as grandes formigas pretas e um vaso mais adiante com água limpa para os passarinhos se refrescarem. E entendi, por que certa vez chorou profundamente, durante uma semana, a morte de um besouro grudado à tinta nova de um portal. Porque as tuas mãos, rabi, foram ungidas para abençoar!

Por isso mesmo, eu ficava ali muitas horas e, ao anoitecer, dividia o seu pão comigo, para depois me postar diante da sua mesa e caminhar, madrugada adentro, por cada uma das letras da Torá, ouvindo do seu peito a angústia e a ansiedade de Abraham, a solidão de Isaac, a força de Jacob, a determinação de Moshé (Moisés) pela liberdade. E depois, fazia- me ouvir o choro de Yirmiahu (Jeremias) pelas ruas de Jerusalém, e descer aos infernos de Yoná (Jonas), e cantar com os Tehilim (Salmos) e construir com os Mishlei (Provérbios) e com o Cohélet (Eclesiastes), e renovar esperanças com Yeshayahu (Isaias), e amar a beleza singular da mulher com os Shir Harishim (Cantares). E nessas madrugadas tantas, ouvíamos o barulho dos grilos, dos sapos, dos ventos, no seu quintal feito Éden. E, dentro, sobre sua mesa tantos livros abertos, convertendo sua casa numa singular Beit HaMidrash, onde eu era tocado no espírito, inspirado na alma e estimulado no corpo, a um verdadeiro Bar Mitzvá e, por tantas vezes, a uma T’shuvá,, o caminho de volta, à nossa Sinagoga do Comune di Fondi, cantando, misturadamente, o’ sole mio e Hatikvá.

Mas, às vezes, atrás do ungido aparecia o homem, o poeta, e escondidos entre seus livros, mantinha seus versos e na profundidade de cada um deles, a sua própria angústia e ansiedade diante de D'us, a sua própria solidão, a sua própria força e fraqueza, a sua própria determinação pela liberdade e os seus próprios pés estrepados, o seu próprio choro, o seu próprio grito, o seu próprio inferno, o seu próprio terno cobrindo as mãos, o seu próprio amor perdido no passo delicado de algum palco, a sua própria humanidade!

Porque, caro Rabi, para isto fomos feitos: para salvar larvas e nelas, as borboletas, esperando em suas asas encontrar os olhos da mulher amada. Para amar a Torá, e esconder entre suas páginas as folhas que ninguém compreende de amor humano. Esperando encontrar alguma Dalila, alguma Betsabá, alguma Rainha do Sul, que nos arrebate no seu encanto, que nos faça sofrer e, depois, nos faça remover colunas, vencer guerras e amar outras mil mulheres, procurando por detrás de cada coluna, em cada palácio e em cada dança de uma hebréia, o rosto único, o perfume único e a dança única da mulher amada.

Por isso, a um só tempo, somos tão frágeis e tão fortes. Por isso, nosso jardim é, a um só tempo, Éden e Caos. Por isso vivemos com um dos pés no leite, no mel, no pão e no vinho de Canaã e, o outro, nos tecidos finíssimos do Egito. E transformamos, às vezes, nosso Talit, o manto das Mitzvót, em própria mortalha. Porque somos humanos, a despeito de toda maldade e de toda violência e de tantos obstáculos nestes quatro mil anos.

E, como humanos, nos reerguemos, sempre, em nossa Bimá, porque ali se faz iluminar a Torá C’haim. E é o humano que compreende e salva os cães, e os gatos, e os pombos, e as formigas, e os sapos, e tudo. Porque queremos descobrir em cada um a amizade que humanamente nos falta.

2 febbraio 2004 – 1O shevat 5764 © copyright do autor

© Pietro Nardella-Dellova. Mestre pela USP. Mestre pela PUC/SP. Pós-graduado em Direito Civil e em Literatura. Bacharel em Direito e Licenciado em Filosofia. Rav na Sinagoga Scuola/Beit Midrash/Casa Degli Spiriti. Membro da UBE – União Brasileira dos Escritores. Autor dos livros AMO, NO PEITO e ADSUM. Professor de Direito.

© caso queira copiar, mencione os dados da autoria e a fonte http://nardelladellova.blogspot.com/, como sinal de respeito e atenção à legislação. Não mude nada no texto, nem o título nem o conteúdo.

Mais informações e textos: http://nardelladellova.blogspot.com/
Contato/Autorização: professordellova@libero.it

1 commento:

Ricardo Nespoli ha detto...

Não importa o tempo que se vai. A campanhia faz o homem.