alla Filosofia Dialogica, Letteratura, Relazioni Internazionali, Scienze Interculturali, Diritti Umani, Diritto Civile e Ambientale, Pubblica Istruzione, Pedagogia Libertaria, Torah, Kabballah, Talmude, Kibbutz, Resistenza Critica e Giustizia Democratica dell'Emancipazione.



ברוך ה"ה







giovedì 30 luglio 2009

Ao GOLEM ou, avante na escuridão, com sete passos e três letras na testa


Ao GOLEM ou, avante na escuridão, com sete passos e três letras na testa

por Pietro Nardella-Dellova

א
Há uma sensação de que a luta cotidiana vai perdendo o sentido e que o número de concorrentes é por demais grande, além das forças do que seria normalmente uma regular competição. Cria-se uma perspectiva totalmente enganosa, entre névoas de equivocados conceitos, pois todos vão desaprendendo o caminho do pensamento crítico e perdem os ângulos da oportunidade, porque, afinal, todos amam escadas rolantes e se aglomeram ali. Não param e não reagem, não pensam e não criticam esta marcha insana, comum, massificada e desumana.

Sim, desumana! É desumano caminhar e existir pelo impulso de outrem, pelos conceitos de outrem e pelas fantasias generalistas, bem como e, principalmente, sem se dar aquele momento único, no qual o milagre da individualidade acontece. Um homem (e não, o homem!) é dotado de algo mais, ao menos, um sopro à mais. Não significa que saiba disso e que tenha plena consciência de que o nome em sua testa seja único e efetivamente maravilhoso. É preciso parar diante da escada rolante e decidir-se por não entrar ali, apenas porque todos estão indo por ali. É preciso sorrir neste momento, com despeito, com altivez, com superioridade e com aquela sensação singular de que se está vendo a massa rolar adiante de seus olhos. Daí, o milagre do sucesso individual é a decisão de subir por escadas convencionais, que não param ao toque dos mecânicos. Veja ali, ninguém sobe por elas – estão vazias!

מ
Eu caminhava, em passos rápidos, alternando às vezes com uma leve corrida. Normalmente, no parque, vou para a direita porque para a esquerda a maioria vai, e vão, também, os dirigidos por personal trainer. Quando atravessei a área mais escura, encontrei um casal trocando beijos entre as mesinhas que estão por ali, pouco se importando se haja ou não carrapatos. E sorri com satisfação de ter visto um casal trocando beijos, sem que os carrapatos incomodem ou sejam suficientemente importantes para inibir o beijo.

Mais adiante, encontrei os trilhos. Trilhos! E, de repente levantei a cabeça naquele momento em que precisamos aspirar, retomar a energia interna para avançar na corrida. Mas, parei. À direita estavam os trilhos; à esquerda, a lagoa com capivaras. Parei, porque ao levantar a cabeça e aspirar, antes de dar o impulso à corrida naquela fase, deparei com a lua, cheia, maravilhosamente cheia, por entre as folhas de árvores que estão ali. Parei o tempo infinitamente necessário para descobrir que aquela lua era minha, só minha e ninguém mais poderia vê-la, tendo os trilhos à direita, a lagoa à esquerda e aquelas folhagens, e aquele ar, e aquele caminho de terra batida – aquela lua e aquilo tudo era o quadro pintado diante dos meus olhos, era meu, só meu!

ת
Por isso mesmo, é preciso entender esta verdade na testa, como verdade própria. A de que, na neblina da noite, por entre inimigos cruzados, encapuzados, falsas crises, bolhas midiáticas, discursos corporativistas desbotados, imbecis virtuais e idiotas esotéricos, matriculados felizes por não haver aula em tempos de pragas e uma massa que avança – sem sentido – em câmera lenta, arrastando-se pelo deserto ou, simplesmente, seguindo rumo às escadas rolantes, aos bingos e aos parques temáticos, é possível parar e dizer: vou por aqui, porque por ali todos vão!

Deixe os trilhos à direita e a lagoa das capivaras, à esquerda – veja a sua lua! Os concorrentes são fracos, portanto, use a neblina (para que seus inimigos não lhe vejam). Exercite seus sentidos, pelos quais tudo se percebe ao redor – veja melhor, escute melhor, toque mais delicadamente, saboreie com calma e perceba os odores variados! Avance e vença, afinal, as corporações são numerosas, mas sem recurso moral e sem bagagem intelectual. Lembre-se, a maioria de seus colegas de classe não estudam – apenas copiam e reproduzem falas de usurpadores das cátedras. Vá pelas escadas convencionais, então, descobrirá que não há muitos contra os quais concorrer. Olhe a lua, pois a maioria esta encapuzada, perdendo tempo com gritarias religiosas ou anestesiados com terços nas mãos e rezas sem fim. Finalmente, outro tanto se perdeu nas vigílias virtuais madrugada adentro ou em maledicências infindáveis.

Vê? Seus concorrentes são fracos demais – numerosos, mas fracos! A massa em câmera lenta é fraca, esotérica e perdida! Os matriculados são apenas matriculados, não estudantes. E os inscritos em corporações são apenas inscritos em corporações – esqueça deles! A lua pode ser apenas sua!


São Paulo, 30 de julho, 2009

© Prof. Pietro Nardella-Dellova מסטר בן עבדיה. Mestre em Direito pela USP. Mestre em Ciências da Religião pela PUC/SP. Pós-graduado em Direito Civil e em Literatura. Formado em Direito e em Filosofia. מסטר Mestre na Sinagoga Scuola - בית מדרש‎ - Beit Midrash. Membro da UBE – União Brasileira dos Escritores. Poeta, autor dos livros AMO (89), NO PEITO (89), ADSUM (92) e FIO DE ARIADNE (org./co-aut., 94), das traduções FILOSOFIA DEL DIRITTO PRIVATO (de P. Cogliolo) e GIUSTIZIA (de Z. Zini), bem como, das teses A PALAVRA COMO CONSTRUÇÃO DO SAGRADO (PUC/SP) e A CRISE SACRIFICAL DO DIREITO (USP). Professor, Palestrante, Coordenador de Curso de Direito e Judaísmo e Consultor Jurídico e Acadêmico, desde 1989.

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lunedì 20 luglio 2009

BACI ALLEGRETTI ou, beijos compostos para dueto pleno!


BACI ALLEGRETTI ou, beijos compostos para dueto pleno!
por Nardella-Dellova

Os beijos têm diferentes faces, e cores, e sabores, e duração, e profundidades, e energias, e tessituras, e geografias. Há beijos de amigos que se encontram e beijos de amantes que se reencontram no vácuo do tempo. Há beijos americanos e beijos brasilianos, mas, há beijos totalmente napolitanos!

Há beijos religiosos e beijos escandalosos. Há beijos que são ícones da Internet e beijos de plástico. Há beijos com máscaras e sem máscaras! Há beijos terapêuticos e psicoterapêuticos. Há beijos de misericórdia e beijos de piedade. Há beijos de maridos e de esposas e há beijos de enamorados. Há beijos convencionais e há beijos apaixonados! Há beijos vivos e beijos necrófilos – beijos de lábios e beijos de espelho do espelho no toalete!

Há beijos que são beijos de Homem-Poeta e de Poeta-Mulher, de Homem-Poesia e de Poesia-Mulher, profundos e demorados, beijos que vasculham o céu da boca, a língua e todos os lábios, e todos os poros, e os olhos, e as faces, e a pele inteira, e as mãos, e os dedos, e os braços, e as coxas, e as costas, e os cabelos, e as orelhas, e o pescoço, e o peito, e os seios. São beijos que misturam e espalham o vinho, do umbigo ao corpo inteiro, e escrevem partituras inteiras – são beijos sonoros que avançam allegretto e se destacam no dueto pleno, entre as vozes dissonantes da turba tresloucada!

Beijos demorados no corredor, elevador, biblioteca, setor de macarrão, frios e eletrodomésticos – beijos anticomerciais, beijos apolíticos. Beijos antissociais!

Quais beijos são os beijos da sua boca, querida? São melhores que beijos virtuais? São melhores que beijos matrimoniais ou religiosos? São beijos musicais? São beijos desenhados na pele, umedecidos no toque despretensioso e demorado? Conhece os beijos que nascem das palavras vivas dos poetas. Palavras que carregam almas. E almas que carregam corpos. E corpos que carregam ardores. E ardores que carregam o gotejamento apressado de corpos com almas, absortas nas palavras do poeta, ditas a quaisquer brisas que sopram sobre o estacionamento. Conhece estas palavras que brotam do inimaginável e despreocupado encontro e do beijo que fica entre os desenhos da face e da boca? Beijos que começam no canto da boca...

E os vampiros sabem o que é o dueto? E os necrófilos, saberiam o que é o beijo allegretto? Os vampiros se perderam entre os necrófilos e as pessoas entre imagens e fakes? Atrás de um fake existe uma enfermidade e entre eles, existem seres vivos, e existem mulheres de corpo e alma, de espírito e inteligência, de perfume e intensidade. Alguns nadam na superfície; outros, mergulham na profundidade! E aos que estão acostumados à invariável superfície, mergulhar causa espanto e sobressalto! O mergulho é o ato de coragem afeito aos que amadurecem pelo tempo e pela experiência, pela dor e conhecimento – peça força que nasce quando ridicularizamos a sociedade que nos cerca com sua amarelada hipocrisia. Afeito aos que discernem entre o perfume natural da carne em chamas e o perfume de Shopping Center!

O que você pode dizer, querida, sobre o mergulho? O que pode dizer sobre Eurídice e Orfeu? O que pode dizer sobre o vôo das águias? Tente dizer e passear por este caminho. Tente descer ou subir, mergulhar ou voar! Ainda que eu saiba que o silêncio é melhor que a fala, experimente a fala, enfrente o Poeta e diga sobre os entranháveis desejos da alma humana. Diga que Orfeu era um Poeta e desceu para buscar a amada no esconderijo dos mortos. Invente palavras e sussurros, gemidos e vozes e diga sobre se isto é um diálogo ou um mergulho – mas, não diga que é um diálogo profundo, pois diálogos profundos rapidamente se convertem em monólogos...Porque dizendo, saberá que é diálogo e mergulho...

E se é diálogo, deve saber a fala poética, os códigos poéticos e os poros poéticos! Se é mergulho, deve ter fôlego, deve ter força e querer encontrar, com as mãos dadas ao Poeta, as pérolas que só se encontram no fundo, apenas no fundo. Então, depois, precisa de um manto aberto e poros que respirem intensamente. Sabe mergulhar? Tem fôlego para ir ao fundo, onde apenas seres de verdade se encontram e se descobrem, onde pérolas se fazem com o ritmo do tempo sem pressa e sem contas? Se nada sabe de Poesia e se não tem fôlego nem coragem, não poderá mergulhar com o Poeta nem dialogar diante de quem estende a mão para o movimento musical. Mas, quando pensar na pérola, vencerá o medo, e a Poesia se intensificará em seu corpo e lhe dará vida. Seus poros respirarão dentro das águas profundas. Não é uma lição – é um fogo de vida e intensidade!

O Poeta não ensina – o Poeta vai! Ele leva você a ver do alto, a voar alto, a mergulhar, a mergulhar ao fundo. Quer a lição ou o vôo? Quer o conceito ou o mergulho? A mágica da Poesia é receber asas de águia, para voar alto - quer? E receber fôlego, para mergulhar com o Poeta ao fundo, e encontrar pérolas - quer, também?

Então, se você ouvir a Poesia e descobrir de que são formados os beijos do Homem-Poeta, descobrirá a sua Poesia-Mulher, e pedirá para voar alto, bem alto, e para ver as pérolas que lhe fazem falta ao fundo, se vencer o medo do profundo. Enquanto a noite não vem, desenharei as asas que erguerão você para o alto, para o bem alto, e juntarei o ar de que precisa para o mergulho. E, se o Poeta estender a mão, dirá: sim, Poeta, quero voar alto – me leve! Sim, quero mergulhar fundo – me leve...Leve-me às pérolas, porque preciso de pérolas. E, se o Poeta levasse você, perderia o fôlego e as asas?

Então, se perder as asas, será trazida de volta á terra. E, se perder o fôlego, será trazida de volta à superfície. Porque os beijos têm diferentes faces, e cores, e sabores, e duração, e profundidades, e energias, e tessituras, e geografias.
São Paulo, 13 Julho, 2009 - 22 Tamuz 5769
Ilustração: o Dueto, por Hendrik ter Brugghe
© Prof. Pietro Nardella-Dellova מסטר בן עבדיה. Mestre em Direito pela USP. Mestre em Ciências da Religião pela PUC/SP. Pós-graduado em Direito Civil e em Literatura. Formado em Direito e em Filosofia. Mestre na Sinagoga Scuola - בית מדרש‎ - Beit Midrash. Membro da UBE – União Brasileira dos Escritores. Poeta, autor dos livros AMO (89), NO PEITO (89), ADSUM (92) e FIO DE ARIADNE (org./co-aut., 94), das traduções FILOSOFIA DEL DIRITTO PRIVATO (de P. Cogliolo) e GIUSTIZIA (de Z. Zini), bem como, das teses A PALAVRA COMO CONSTRUÇÃO DO SAGRADO (PUC/SP) e A CRISE SACRIFICAL DO DIREITO (USP). Professor, Palestrante, Coordenador de Curso de Direito e Judaísmo e Consultor Jurídico e Acadêmico, desde 1989.

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domenica 19 luglio 2009

Ao MEU BABBO ou, como abençoar até mil gerações


Ao MEU BABBO ou, como abençoar até mil gerações
por Pietro Nardella-Dellova

Tudo que este homem quer é o campo florido e perfumado...
in AMO, 1989


Babbino mio, venho caminhando daqueles primeiros passos, meio trôpegos, que você orientou e ajudou a firmar e, acredite, ainda sinto, fortes e delicadas, as suas mãos nas minhas mãos e nos meus ombros e, ainda, estão presentes o calor e o afago da sua face colada à minha.

Ouço o seu riso sonoro, em meio àquelas cócegas barulhentas que fazia na minha barriga com os seus bigodes vermelhos e com o seu naso napoletano. E isto me encanta até hoje, e me leva para o ontem e para o amanhã. Eu vejo, caro babbo, seus olhos verdes num sguardo de bondade, e expressivos (dizendo sempre alguma coisa), lançados sobre mim como se fossem os olhos de D’us (e não são?).

As mãos grandes, a face meio rosada, o riso sonoro, os olhos verdes, os bigodes ruços, a barba grisalha e a sua voz... Era uma bênção única (e ainda é) ouvir a sua voz traduzindo sonetos de Petrarca, lembra? Você de um lado do quintal e eu do outro (sua voz levava-me aos anos 1300): ...stiamo, amore, a veder la gloria nostra ... vedi bem quanta in lei dolcezza piove! ... una pioggia di fior sovra ‘l suo grembo...Qui regna Amore... amore ed io sì pien’ di meraviglia!...Che debb’io far? Che mi consigli, amore?...Amor, se vuoi ch’i’ torni al giogo antico?...Amor, che nel pensier mio vive e regna...(estamos vendo, amor, a nossa glória ...veja bem como está cheia de doçura!... uma chuva de flores sobre o seu colo... Aqui reina Amor...Amor e eu de plena maravilha!... Que devo fazer? Que me aconselha, amor?...Amor, quer que eu volte à sujeição antiga?...Amor que no meu pensamento vive e reina...)

Ah, mio babbino caro, a verdade é que ninguém entendia coisa alguma porque o seu italiano misturava-se à voz emocionada: era preciso não ouvir tanto e mergulhar nas lágrimas que corriam, para entender bem a alma e o profundo de cada verso, porque você chorava sempre diante da poesia humana e, chorava, também, diante da semente germinando, da formiga transitando, dos passarinhos namorando, das nuvens com chuva, do brilho do sol, e falando do Eterno...

E aquelas coisas singulares que você ensinava, formadas na sua sinagoga interior: da grandeza da Torá e da mão do Eterno, da inspiração dos Nevi’im, da intensidade de Isaias, da poesia dos Ketuvim, da profundidade de David, da sabedoria de Sh’lomò, e de um reino futuro onde habitará (ou habitaria) a justiça e a paz do Mashiach...

Sabe... aquela vez... quando eu tinha uns quinze anos, e você me disse que uma mulher era bênção de D’us. Pois bem, no outro dia eu passei a olhar todas as meninas da escola com olhos poéticos, até mesmo aquelas que em tempo de festa junina tinham gosto de mostarda na boca. Passei a vê-las como expressão máxima de qualquer coisa boa: um anjo, um arcanjo, uma deusa, uma estrela... Você me revelou naquele dia a mulher e meus olhos se abriram... E passei a perceber todas elas: a diretora, a professora, a servente, a mãe, a filha, a tia, a santa, a louca, a largada, a certinha, a vizinha, a de mostarda na boca (todos os anos), a que ama chocolates (todos os chocolates), a alta, a baixa, a gordinha, a magrinha, a nova, a madura (esta em especial), a idosa, a branquinha, a amarelinha, a negrinha, enfim, todas. Entendi, finalmente, o porquê de você falar delas com mel nos lábios, com delicadeza, com um meio sorriso e o porquê de beijar-lhes as mãos: viva! São mesmo diferentes! São mesmo poesia pura! (embora muitas nada saibam de poesia e amor). São mesmo uma bênção de HaShem!

Aliás, depois de me dizer que D’us estava em todos os lugares do mundo e que tudo fora creado por ele – e que nele não havia violência alguma, ao mesmo tempo que você tratava as formiguinhas (eu me lembro bem) à boca do formigueiro com leite em pó e gomos de laranja. E, também, quando partia o pão para nós, não tive mais medo de dizer para as pessoas que D’us estava no partir do pão e, tanto no Universo quanto, e principalmente, nas formigas...

Mas, até hoje elas não entendem muito bem essa coisa de Eterno, Torá, Universo, partir do pão e formigas...e menos ainda essa outra coisa de mulher ser bênção... Porque, geralmente, as pessoas comem sem nunca terem feito um pão e não olham muito para as estrelas e, menos ainda, para as formigas – e não percebem as mulheres feitas de poesia, mel, delicadeza, inteligência e bom cheiro, por perto.

Mas, não importa. As impressões, as primeiras impressões, que você plantou em mim como babbo, e a instrução que me deu como rabi, estão tão profundamente arraigadas que se converteram em princípios, dos quais eu não me perco facilmente. Quaisquer que sejam as dificuldades, babbo mio, meu amigo para sempre, não converto D’us em ídolo nem a Torá em magia; não me alimento da gordura das ovelhas nem me visto com sua lã e não piso em formigas. E as mulheres, mesmo quando um pouco confusas, continuam poesia puríssima e bênção divina.

Sigo o caminho da simplicidade, amado babbo, preferindo trilhas em vez de ruas asfaltadas. Continuo não gostando do cimento e do concreto que oprimem a terra e fico feliz, muito feliz, ao ver as raízes das árvores arrebentando as calçadas, vencendo o concreto e desfazendo a idiotice generalizada. Odeio copinhos, saquinhos, garfinhos, pratinhos e outras coisas de plástico que sufocam o mundo e me entristeço, facilmente, com os lugares manchados de sangue inocente.

E, ainda, luto contra a força terrível da coisificação que quer fazer de mim, do meu pensamento, da minha consciência, da minha pesquisa, da poesia, da mulher amada, da fé, dos professores, dos alunos, dos representados nos tribunais, dos filhos e do sentimento, coisas entre outras coisas de mercado!

Às vezes, fico às margens do Tirreno sentado e quieto. Às vezes, com Abraham, il mio figlio primogenito que as suas mãos, babbo, ungidas de todas as Mitzvôt, ergueram, abençoando-o, num Shabat pleno de Torá e, diante do seu D’us, B’H. E ali, às margens daquelas águas de Fondi, reúno você, babbino, e la mamma, i nonni Giuseppe e Luigia, Giuseppe e Antonia Maria, i bisnonni Antonio e Anna, Onorato e Rosa, Donato e Giovanna, e l’altri antenati Dellova, Nardella, Pietrobuono, Iamini, Ciola, Di Denia, Trani, Talano, Miggiarra, Marrocco, Zippo, Orticello, Traglia, Morella, Addessi, Gasparrini, Casale, Di Fazio, Terensio, Monacco, Colonna, Pasciuto, Notaberardino, Mastrobattista, Nardoni, D’Errico, D’Élia e Ovadiah, e nos assentamos, todos, ali.
E conto ao meu figlio histórias dos patriarcas, dos tijolos, do sangue, das pirâmides, do Pessach, do deserto, do Sinai, de Moshè, de Yehoshua, de David, dos Profetas, das cadeias babilônicas, do Chanuká, das espadas e cruzes greco-romanas, do Mashiach (e de como o desfiguraram...), dos talmidim que resistiram, das fogueiras da Inquisição, dos fornos nazistas, do peso fascista, da covardia getulista, da iniqüidade terrorista e lançamos, sem pressa alguma, pedaços de pão caseiro sobre aquelas águas (num particular momento de transferência da bênção e da fidelidade que permanece faz quatro mil anos).

Por isso mesmo, jamais acordo gritando, assustado ou ofegante na madrugada; jamais sou fraco e jamais temo a morte, porque seu D’us é o meu D’us (embora brigue muito com Ele), e sua Torá é minha Torá, e não me afasto do abraço do talit, nem rompo a comunhão dos tefilim, nem me descubro da reverência do kipá, porque seu nome, babbo, é um hino na minha boca, a sua lembrança é um fogo vivificador e me ensina diuturnamente.

E o pão, babbo mio (il pane!) continua simples e justo! Pois o mais justo que posso viver e o melhor que posso fazer na vida que você me deu, é manter acesa esta pira sagrada!

Ah, babbino mio, nasceram-me, nestes últimos tempos, "due bambine", Luigia e Giovanna, cheias de graça, música, flores e risos, que você não pôde conhecer (ou pode?). Mas elas conhecem você em mim, presente, e foram abençoadas pelas suas mãos nas minhas continuadas, diante da mesma Torá.

Agora, para as formigas do quintal essas duas bambine dizem: tutto bene, formica? (e lhes dão casquinha de biscoito); para as flores daqueles pequenos vasos: buongiorno, fiori! (e lhes fazem um carinho). E, todos os dias, ao entrarem ou saírem, tocam carinhosamente a mezuzá cantando com um sorriso que não lhes cabe nas faces: Sh'má Yisrael, Adonai Elohenu, Adonai Echad.

Fondi/São Paulo, 29 ottobre 2004 * 14 cheshvan 5765

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Texto dedicado ao meu babbo (pai) Biagio Dellova (de abençoada memória), Mestre e Darsham para sempre. E, também, aos meus filhos Abraham, Luigia e Giovanna: que sejam abençoados por todas as bênçãos da Torá, e sejam como nossos patriarcas Abraham, Itzchak e Ya'akov e como nossas matriarcas Sarah, Rivka, Rahel e Liah!
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© Pietro Nardella-Dellova. Mestre pela USP. Mestre pela PUC/SP. Pós-graduado em Direito Civil e em Literatura. Bacharel em Direito e Licenciado em Filosofia. Rav na Sinagoga Scuola. Membro da UBE – União Brasileira dos Escritores. Autor dos livros AMO, NO PEITO e ADSUM. Professor de Direito.

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AO ELIJAH AMADEO ou, VENHAM E VEJAM MINHA MARRETA E MINHAS BORBOLETAS!


AO ELIJAH AMADEO ou, VENHAM E VEJAM MINHA MARRETA E MINHAS BORBOLETAS!

Pietro Nardella Dellova
da Sinagoga Scuola - Beith Midrash







para que é preciso ter um piano?
o melhor é ter ouvidos e amar a natureza.
Fernando Pessoa (Alberto Caeiro), 1914.


א
Não escreverei sobre os famigerados políticos nem sobre a CPI da Petrobras. Não falarei do abismo que separa, tristemente, o Rio de Paris, dois lugares mágicos. Não abordarei a notícia de aproveitadores que usurpam o poder público e a mídia para falarem sobre a dor que jamais sentiram. Não considerarei nada que diga respeito aos livros (quase) pornográficos distribuídos pelo governo paulista aos alunos da rede pública. Não permitirei, por agora, que os perpétuos Renans e Collors, Sarneis e Gilmares, estraguem este texto. Nem me ocuparei do plástico que cobre o mundo e, muito menos, das loucuras coreanas e iranianas! Há pessoas que odeiam árvores, plantas, flores, cães, gatos, pombos, passarinhos, terra, abraços, crianças, pobres e outras pessoas. Eles cobrem o planeta de concreto, asfalto e mentiras, fiscalizam a vida alheia e espalham o fermento da sua estupidez, maldade e perversidade, roubando o tempo vital. Não, não falarei dos canalhas hoje!
ב
Estou cansado da sordidez e quero, agora, visitar as maternidades e escrever sobre parteiras, sentar-me à mesa no boteco com gente boa e caminhar pelos corredores com alunos e professores que tenham lido alguma coisa e feito algo pela Educação. Quero simplesmente meu café na xícara de ferro esmaltada, coado em coador de pano e o perfume do pão feito pela mamma, sua bisnonna!
ג
Va bene, piccolo italiano, em sua homenagem escreverei das borboletas! Porque os seus olhos azuis, meu sorridente menino, completos um ano agora, têm a simplicidade e a inocência dos que buscam a paz, e o seu rosto, afetuoso, traz nele a força da comunhão, e nos seus sorrisos germinam continuamente as bênçãos: daquelas que tiram o homem adulto do mais profundo abismo!
ד
Certa vez, peguei uma marreta de 43 kg, pintada de verde, branco e vermelho, antigo presente do meu babbo, seu bisnonno, e tirei o concreto da minha calçada, onde estava uma árvore cortada, sem dó, por um vizinho maledetto. Quebrei-a de ponta a ponta, deixando apenas uma faixa para pedestres... (eu odeio concreto, mas respeito os seres humanos!). E deixei à mostra a terra vermelha, preciosa, da qual os homens de bem foram formados, e nela, bem ao centro, plantei um ipê-amarelo. E plantei, também, beijinhos, manjericão e herbáceas (do jardim que meu babbo, seu bisnonno, cultivou durante 38 anos). Mas, deixei ali, bem visível, o tronco da árvore e suas raízes de 43 anos!!!
ה
Depois, fui depositando ao profundo, dia após dia, o adubo orgânico, sem nenhuma química ou outra perversidade: depositei cascas e bagaços de laranja e limão, restos de mamão, de batata, de banana, de maracujá, de feijão. E pus, também, um pouco de terra nova, escolhida e preparada, e pó de café, muito pó de café da cantina da Universidade, onde ensino o Direito e a Filosofia, e da casa dos meus irmãos onde, tantas vezes, atravesso a noite ensinando Moshè rabenu, Elyahu hanevi e Shir HaShirim de Mélech Sh'lomò (principalmente, os Shir HaShirim “Catares”) e, também, o pó do café de casa, onde criei meu filho, seu babbo, entre livros, música e poesia...
ו
Pus tudo o que ali pudesse ser aproveitado para promover a vida, e honrar a terra, e abençoar D'us: tudo foi depositado, profundamente, sem que o maledetto vizinho e seus filhos, pudessem ver, pois enquanto eu quebrava o concreto com a marreta de 43 kg , eles riam o riso mecânico dos que pensam dominar o mundo com arrogância, mentiras e violência! E eu esperava ver apenas o ipê-amarelo, os beijinhos multicores e o perfumado manjericão florescendo em torno do tronco com raízes profundas (agora, aos 49 anos). Porém, aquele pequeno espaço tornou-se um Éden: e, da terra adubada nasceram, também, cinco mamoeiros, dois limoeiros, uma dama-da-noite, duas amoreiras, três raízes de maracujazeiro, um pinheirinho, três moitas de bananeiras ornamentais e a presença única do Eterno! Colhi, algum tempo depois, vinte e dois mamões e, conduzindo o maracujazeiro desde o chão por um caibro e fios, cobriu-se o muro de graça, e verde, e flores, e abelhas (pequenas e grandes), e besouros, e mamangavas, e vespas, e borboletas. E quanto mais insetos, mais flores!.
ז
E nas folhas, ovos de borboleta (milhares de ovos!) e dos ovos centenas de lagartas e mandruvás (peludas, lisos, coloridas, escuros, vermelhas, pequenos, grandes!) e passarinhos, e formigas, e vida: vida em abundância! E, com a vida, colhi setenta maracujás!!! Por fim, eu e a minha bambina Luigia, recolheramos centenas de lagartas e as colocamos, respeitosamente, em caixa arejada e aberta e, por vários dias, demos folhas para seu alimento, até que, crescidas, buscaram um espaço e se transformaram silenciosamente em crisálidas!
ח
E um dia, poucas semanas depois, chamei a Luigia, a Thaís e a Gabriela, três crianças que vêm, ainda, do sopro do Eterno sobre o Sinai, com as quais protegemos, ainda, a Arca na Sinagoga, e elas puderam testemunhar as crisálidas rompendo-se e, delas, borboletas abrindo asas e abençoando nossos olhos com leveza, e colorido, e vida, e esperança. As borboletas, assim nascidas, deram-lhes um sentido para a Torá!
ט
E naquele momento, eu lhes disse, e digo, agora, para você, também, pequeno Elijah Amadeo: "estão vendo tudo isto? - a isto tudo, nas mãos de vocês, chamamos salvação!!!"
י
Va bene, você completa um ano agora e deixarei um futuro presente para você (não agora, porque a uso ainda!!!). Deixarei a minha marreta de 43 kg, que pertenceu ao meu babbo, seu bisnonno!
-
5 Iyar 5764 (dedicado, ao Elijah Amadeo, em 11 de junho 2009 (5769), por ocasião do compleanno de seu primeiro ano de vida)

© Prof. Pietro Nardella Dellova Mestre em Direito/USP (1996). Mestre em Ciências da Religião/PUC-SP (1993). Pós-graduado em Direito Civil (1990). Pós-graduado em Literatura Brasileira (1991). Formado em Filosofia (1995) e em Direito (1986). Membro da União Brasileira dos Escritores – UBE (1989). Rav na Sinagoga Scuola -בית מדרש - Beit Midrash (1986). Autor dos Livros AMO (1989), NO PEITO (1989) e ADSUM (1992), entre outros. Ex-Membro da Comissão de Bioética e Biodireito da OAB/SP (2002). Advogado, Consultor e Palestrante. Coordenador de Curso de Direito e Pós-Graduação em Direito (2003-2008). Professor de Direito Civil, Ética e Filosofia do Direito (1990). CVLattes: http://lattes.cnpq.br/1306316250021237

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sabato 18 luglio 2009

VIDA SUSTENTÁVEL

"Todo mundo 'pensando' em deixar um planeta
melhor para nossos filhos...
Quando é que 'pensarão' em deixar filhos
melhores para o nosso planeta?"

lunedì 13 luglio 2009

AMOR, EU VOU, E VOLTO!




Amor, eu vou, e volto!



Tenho que combater monstros, mas não voltarei monstrificado,
voltarei mais humano.



E não permitirei que o abutre me destrua diuturnamente!
As musas que vierem me visitar durante a noite,
não serão apenas consoladoras,
serão gente e poesia!



Darei o fogo do conhecimento, mas não darei tudo!
E nem permitirei que os que escolheram viver em cavernas,
levem a minha vida às suas profundidades psicóticas!
Irei, apenas irei, porque nasci para isto,
a fim de portar a Instrução e apontar o caminho...



Amor, eu vou, e volto!



Porque ouço um gigante, disforme, amaldioçoando o nome de HaShem.
Irei de encontro a ele, com o que tenho à mão!
Eu vou, amor, e volto!
Em uma das mãos trarei a cabeça desse gigante, agora emudecida,
mas, na outra, amor, trarei a suavidade e a poesia.



Trarei a taça do nosso vinho....



(Nardella-Dellova, maio, 2009)

C.I.P. - ORQUESTRA FILARMÔNICA DE ISRAEL

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