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ברוך ה"ה







sabato 26 febbraio 2011

DOS VAMPIROS, DOS ASNOS E DAS VIAS PÚBLICAS ou, PORQUE NÃO TENHO TEMPO PARA MORRER


DOS VAMPIROS, DOS ASNOS E DAS VIAS PÚBLICAS ou, PORQUE NÃO TENHO TEMPO PARA MORRER
por Pietro Nardella-Dellova


“...E che sospiri la libertà! E che sospiri, e che sospiri la libertà...”
(Rinado, ária de Hendel)


Resolvi caminhar pelas vias públicas, dialogando com almas boas sobre literatura e filosofia. Afinal, o que realmente temos a perder ou a ganhar? Ou não seria ganhar nem perder e, sim, desconstruir ou construir? Ou, talvez, não seja desconstruir nada, mas, simplesmente, não construir nem realizar – ausência de proatividade? Existência arrastada? Vida desperdiçada? Relações vivificadoras ou relações mórbidas? O que é cidade e o que é campo? O que ganhamos, afinal, por existirmos aqui e agora, diante de tantas pessoas que existem, também, aqui e agora? Conseguimos mesmo transformar a existência em vida, e a vida em alegria cotidiana? Conseguimos mesmo transformar pessoas em cidades ou em campos? Qual o custo deste embate e desta dialética?

Por que tantas pessoas aparecem (ou acontecem) como fogos e brisas suaves, carregando Poesia em suas mãos, e carregando, ainda, alma dentro de suas almas, realizando a mesa e o café, oferecendo a presença ao vinho poético e dialógico, e os ouvidos e a voz de canto a canto? Mas, outras, bem, por que outras acontecem com ferro e pedras, com punções certeiros na testa, carregando gesso e plástico em suas mãos e fulhigem dentro de seus corpos, realizando a tumba e o pranto, oferecendo a cova ao morto dialético e os dentes às jugulares?

Precisamos do fogo na ponta de uma espada sem que torturemos Prometeu e o aflijamos, acorrentado, com as visitas dos corvos cotidianos - ainda que haja musas, nada importa, pois a voracidade dos corvos vai além da delicadeza e do perfume das ninfas noturnas. É preciso buscar Eurídice sem que tenhamos que gemer ou transformar a música de nossa lira em odes sem fim, à porta dos infernos que nos visitam. Sim, os infernos nos visitam! Não os infernos criados pela demência ou canalhice religiosas, mas os infernos existenciais de Sartre!

E por que não desmair diante do sol quando em fuga decidida das cavernas nebulosas? E, por que não, em seguida, caminhar meio que com a visão ofuscada, mas, caminhando e renovando as percepções, construindo experiências e memórias visuais, auditivas, olfativas, tatuais e gustativas. Sim, é preciso ver e enxergar. E é preciso, ainda, ouvir e escutar, cheirar e discernir, tocar e penetrar, e degustar e mergulhar a língua em banhos profundos dos céus de um corpo – não os céus criados pela covardia e mercenarismo religiosos, mas, os céus, os muitos céus, de um corpo feminino. Sim, os corpos femininos têm muitos céus! O estado pleno de perceber-se no mundo, do mundo, para o mundo e com o mundo, cheio de cardos, mas, com flores. O mundo jardim do "muito bom". Pleno de adversidades, mas, também, com pessoas de carne, ossos, alma, espírito e afetividade - cujo olhar compensa a perda do paraíso.

E nos confundimos em algum momento, entre a caverna e o sol, entre as relações engessadas e a liberdade de ir, abraçar e beijar, rir e chorar, cantar pelas ruas sem palco nem platéia - e tropeçamos - enfiamos o pé na cola asfáltica derretida, num estado de perdição e perversão, de miséria e desgraça, de estupidez e daquela vileza e preguiça kantianas, num processo de manutenção de estruturas fúnebres, de relacionamentos mórbidos e sistematicamente idiotizados-idiotizantes, frente a asnos convictos com viseiras coladas à carne da cara, e vampiros, sobretudo, vampiros românticos, e vampiros religiosos, e vampiros políticos, e vampiros discentes, e vampiros docentes, e vampiros institucionais, e vampiros da ordem, e vampiros das lojas, e vampiros de togas, e vampiros guardiães da lei, e vampiros matrimoniais, e vampiros "família base da sociedade", e vampiros conjugais "gostou querida?", e vampiros gays, vampiros heterossexuais, e vampiros bissexuais - e vampiros assexuados, e vampiros sem causa, e vampiros de esquerda, e vampiros de direita, e vampiros sem teto, e vampiros com teto, e vampiros públicos com plaquinha intimidatória no guichê "desacatar funcionário público..." – de banheiros e setores públicos: vampiros de direito público interno e externo - e vampiros de direito privado! E vampiros de privadas! E vampiros mestres, e vampiros doutores, e vampiros analfabetos, e vampiros especialistas, e vampiros de idosos, e vampiros de crianças, e vampiros traficantes do morro, e vampiros policiais que sobem o morro, e vampiros cortadores de árvore, e vampiros virtuais, e vampiros fakes, e vampiros lista de discussão em grupo virtual, e vampiros latifundiários, e vampiros celibatários (sejam, ou não, pedófilos), e vampiros ejaculação precoce, e vampiros exorcistas, e vampiros com envelope e saquinhos de dízimos na mão, e vampiros de terreiro, e vampiros eternamente medievais, e vampiros escolásticos, e tantos vampiros defecando-no-mundo!

Confundimo-nos entre uma coisa e outra, porque oferecemos a veia. E, na cegueira e estado de ópio, um pouco convidamos, um pouco abrimos a porta, um pouco nos calamos, um pouco aceitamos que vampiros de todas as cores, credos, nacionalidades, condições, estados, níveis e escolaridades, abusem do instante incauto e se transformem em companhias (ou sombras) cotidianas. Confundimos o dar e o beijar de boca!

Em uma das vias, passei diante de um funeral – todos ali olhando para o morto com ar de superioridade, esperando ansiosamente a hora do enterro, porque precisavam enterrar a morte! Eu passei, ao longe, ainda de bermuda e sem camisa, porque o sol, enfim, é de todos os vivos e eu não quero enterrar ninguém. Passo longe, sempre, porque a turba, louca e narcotizada, com os olhos esbugalhados e com os poros vertendo sangue e soro, espera o momento de arrastar uma pessoa pelas vias públicas, sufocá-la nos cruzamentos públicos, cortar seus membros sob aplausos públicos, comer seu fígado e beber seu sangue em praças públicas e queimar seus restos no aeroporto ou, o equivalente, isto é, enterrar um defunto e jogar terrinha sobre o caixão e continuar em seu estado de vileza, preguiça, delírio, purgatório e cegueira.

Passo longe, bem longe, porque não tenho tempo para morrer nas vias públicas – o vinho está reservado em Napoli - vinho para vivos! Sabe o que significa "Napoli"? Napoli significa nova polis. Novo lugar onde a justiça acontece! Lugar onde morremos de costas viradas ao Vesúvio! Lugar onde abrimos nossas janelas pela manhã cantando canções de sempre e recolhemos poesia das paredes milenares. Em Napoli apenas vivemos! Mas, em Napoli, também, existem vampiros e asnos. E em New York existem vampiros e asnos. E em São Paulo existem vampiros e asnos. Afinal, ser vampiro e asno é um estado de desfazimento do ser por que passam as pessoas na pós-modernidade em qualquer lugar e espaço, público ou privado!

Va bene, preciso viver de encantos na biblioteca, nos encontros de poema e poesia entre um livro e outro, e de como mostrar para aquela mulher que passa deixando sapatos jogados no caminho (que, afinal, conhece estrelas, tem asas nos pés e alma no corpo) que a minha estrela sai-lhe ao encontro nas tardes de café e chocolate. Preciso encontrar poesia pura nos versos metrificados de Bilac e levá-la ao seu ouvido: "ora, direis, ouvir estrelas...", fazer brilhar seus olhos e dizer-lhe que seu caminhar é dança única - e que o melhor é continuar dançando. Preciso tempo para dizer-lhe que seus cabelos soltos se abrem como asas de águia, e que a um passo, um toque, um sorriso, um olhar com pupilas dilatadas e meia mordida nos lábios, eu mergulho para buscar pérolas, porque tenho tempo apenas para viver. Vou à biblioteca para encontrar a mulher que une beleza e cultura sobre seu peito desnudo. Eu corro, porque tenho tempo para isso, e levo em uma das mãos aquela estrela e na outra, a poesia! Vou usar meu tempo para construir uma ponte entre mim e ela - eu irei a ela, e ela virá a mim por esta ponte. E depois voarei com ela ao alto - mas iremos juntos! E quando achar que não tem ritmo, mergulharei com ela ao profundo das águas sob esta ponte e, assim, naquele vôo e neste mergulho, cada poro de sua pele dirá um verso da profundidade de se sentir simplesmente amada. Como é bom encontrar aquela mulher!

Mais adiante, encontrei uma carroça puxada por um jumento ou asno – não tenho certeza se era jumento ou asno, pois, eles se parecem muito e, talvez, até sejam a mesma coisa, mas, à parte o meu desconhecimento, havia, com certeza, uma carroça!

Como se formou o jumento (ou asno)? O que leu o jumento (ou asno)? Do que se alimenta o jumento (ou asno)? A qual partido pertence? Quantos livros (lidos) tem o jumento? Quais músicas o jumento (ou asno) conhece, com as quais tenha passado suas tardes, e noites, em homenagem à vida, ao vinho, à intensidade e aos processos de humanização com múltiplos prazeres? O jumento, digo, Jumento, com letra maiúscula porque é um nome próprio para fins coletivos, anda de mãos dadas com o vampiro – ou vampiros! O Jumento e o Vampiro são estados decadentes da humanidade que, não conseguindo dar o salto evolutivo, mantiveram-se presos às suas musculaturas primitivas, cerebro reduzido e apetite voraz de almas, tempo, corpos, mentes e vidas alheias.

Mais adiante, na esquina, encontrei mulheres (pela metade), que vivem ou ficam com jumentos (ou asnos), porque a vida lhes passou em absurdidades (ou carroças) – perderam muito tempo contando dinheiro e falando mal dos outros, perderam tempo demais invadindo privacidades, devassando intimidades, difamando, caluniando, injuriando, deturpando verdades. E suas carroças ficaram abarrotadas de lata velha, pedra, isopor, papelão, coisas indescritíveis encontradas na rua, cadeiras mancas, ferro fundido e mais coisas, ainda, indescritíveis. Hoje são mulheres pela metade - mulheres sem Poeta - que não conseguem esboçar seus próprios nomes! Mulheres pela metade é um estado de absoluta decadência da humanidade, de perda irreparável do umbigo e do vinho, e perda do paladar, e perda da poesia, e perda da música, e perda do estado do amor e vida - estado de carregar coisas indescritíveis e asfalto colado aos pés.

Na praça, um homem (ou vampiro), esgotado no delírio de Constantino e vestido de obscuridade, dirigia-se ao funeral, para enterrar o morto (ou a morte) com um livro de rezas à mão! Ele se dirige sempre aos moribundos, aos mortos, ou, normalmente, ao que sobra dos mortos!

No cruzamento me abordou um homúnculo sem filhos nem o amor de uma mulher, (um asno envelhecido), e me pediu um minuto para explicar o que estava escrito no folheto em sua mão, sobre o plano de redenção da humanidade, sobre o apocalipse, sobre a conspiração dos países imperialistas, sobre a besta (ou asno), sobre o fim do mundo e de como as pombas fazem crianças especiais. Ele foi solene e me pediu um minuto, aliás, perguntou-me antes se eu tinha um minuto! Eu disse que tinha, mas, diante da experiência do funeral, das mulheres que ficam com asnos, dos vampiros multifacetados e dos jumentos que penso serem asnos puxando carroças, além, lógico, de eu querer encontrar a mulher que une beleza e cultura sobre os seios nus, preferi corrigir-me e dizer logo: “tenho, mas este minuto é meu”. Afinal, não tenho tempo para morrer!

(13 de maio, 2010)

© Pietro Nardella-Dellova é Escritor e Poeta. Professor de Direito e Arte Literária em graduação e pós-graduação. Mestre em Direito pela USP e Mestre em CRe pela PUC/SP. Pós-graduado em Direito Civil e em Literatura. Formado em Direito e em Filosofia. Mestre na Sinagoga Scuola. Membro da UBE – União dos Escritores. Membro do Gruppo Martin Buber (Roma/napoli). Autor dos livros AMO (89), NO PEITO (89), ADSUM (92), FIO DE ARIADNE (org/tex), A PALAVRA COMO CONSTRUÇÃO DO SAGRADO (98), A CRISE SACRIFICIAL DO DIREITO (2001) e, agora, do A MORTE DO POETA NOS PENHASCOS E OUTROS MONÓLOGOS (2009). 
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11 commenti:

CLAUDIO AJES DIREITO 3 TERMO ha detto...

Escrever é uma arte de repensar os sentidos ,somente, os intimos sentidos das palavras que julgamos traduzir o que estamos sentindo...pensando e, querendo expressar.Elas, as palavras, as vezes se tornam tão limitadas naquilo que queremos reprresentar e transmitir que sentimnos podados intelectualmente,nesse grandioso exercicio de construir pensamentos livres.

Belissimo texto, de Pietro,pois é critico, é cronica?É, IRONICO, nAO É EXATAMENTE belo, no sentido grego do mvocabulo...parabens por sua contribuição à literatura dos blogger´s
Claudio, estudante de direto.3° termo AJES MAIO DE 2010

ha detto...

Salve Grande Mestre,
os asnos e os vampiros realmente são personagens que compõe a pequena alma de muitos moradores que jaz nessa terra de infâmes. Não se apavore, isso só é contagioso para os seres que não tem a poesia como antídoto. Não se preocupe ter essas espécies como fonte de pesquisa é de fundamental importância, já que as mesmas têm o dom conduzir os sábios por caminhos imagináveis, dentre eles os degraus da vida. Conhecer os vampiros e os asnos nos conduzem ao mergulho em seus mundos, porém o caminho de volta está em nossas mãos. Apenas os tolos têm o destino certo para a morte. Os sábios sabem cruzar, observar e sair ilesos. Tenha calma, não se apoquente...rsrsrrsrsrs Encontrarás asnos e vampiros em todas as cidades!!!!

Luciane, estudante de Direito AJES

cosme damião de almeida ha detto...

Caro Pietro,lí nas entre linhas do seu texto e não concordo com seus pensamentos e classifico como um filósofo talvez um quanto revoltado,com um cenário existente que jamais será mudado, porque o mundo jaz no maligno.e só será mudado e terá fim no dia juízo final.

"seja voçê mesmo a mudança que voçê quer para o mundo"
GANDHI

manuelacurvelo ha detto...

SHABAT SHALOM!!
acabei de reler... pois é, em INHAMBUPE TEM VAMPIROS E ASNOS... e como têm! ousaria dizer que salvo raríssimas exceções não os são!!!!!!!!
Mas prefiro te encontrar na biblioteca e com esperança de uma nova polis e novas descobertas fora da caverna, para não precisar atravessar a rua e perder meus minutos, afinal, mais uma vez aprendi que não posso matar ou morrer junto com o meu tempo, aprendi a querer rodar os 100 km com vida e alegria(e algo mais intenso que isso) e aproveitar a água( e tudo mais que o mergulho oferece), o vento( e tudo mais que o vôo oferece). preciso ir junto com você, para poder ter asas nos pés e alma e, não foligem, no corpo!!

Bacione!!!

manuelacurvelo ha detto...

SHABAT SHALOM!!
acabei de reler... pois é, em INHAMBUPE TEM VAMPIROS E ASNOS... e como têm! ousaria dizer que salvo raríssimas exceções não os são!!!!!!!!
Mas prefiro te encontrar na biblioteca e com esperança de uma nova polis e novas descobertas fora da caverna, para não precisar atravessar a rua e perder meus minutos, afinal, mais uma vez aprendi que não posso matar ou morrer junto com o meu tempo, aprendi a querer rodar os 100 km com vida e alegria(e algo mais intenso que isso) e aproveitar a água( e tudo mais que o mergulho oferece), o vento( e tudo mais que o vôo oferece). preciso ir junto com você, para poder ter asas nos pés e alma e, não foligem, no corpo!!

Bacione!!!

manuelacurvelo ha detto...

SHABAT SHALOM!!
acabei de reler... pois é, em INHAMBUPE TEM VAMPIROS E ASNOS... e como têm! ousaria dizer que salvo raríssimas exceções não os são!!!!!!!!
Mas prefiro te encontrar na biblioteca e com esperança de uma nova polis e novas descobertas fora da caverna, para não precisar atravessar a rua e perder meus minutos, afinal, mais uma vez aprendi que não posso matar ou morrer junto com o meu tempo, aprendi a querer rodar os 100 km com vida e alegria(e algo mais intenso que isso) e aproveitar a água( e tudo mais que o mergulho oferece), o vento( e tudo mais que o vôo oferece). preciso ir junto com você, para poder ter asas nos pés e alma e, não foligem, no corpo!!

Bacione!!!

Natasha ha detto...

Mestre Pietro Nardella-Dellova, acompanho seu Blog Café & Direito sempre, aliás, diariamente, porque com ele tenho aprendido muito e crescido em todos os sentidos!
Fico sempre feliz com seus textos e com a maneira com que coloca os assuntos. Vejo força e autoridade em suas palavras, vejo delicadeza quando se refere à figura feminina e respeito quando se refere a Deus.
Obviamente este texto é contundente. É forte e preciso e apenas alguém com sua autoridade e curriculum pode mesmo descrever a sociedade que nos cerca.
parabéns
Natasha

Pedro ha detto...

Fortissimo! Belissimo! Um texto de expressão diante de uma sociedade hipocrita, cheia de vampiros e asnos!
Asnos convictos!!! Demais isso!!!

Abraçosss

Dagoberto ha detto...

Indiscutivelmente um TEXTO ORIGINAL e pleno de verdades!

Lendo, caro Mestre, parecia até ouvir sua voz em sala de aula!!!

Abração

Giuliana ha detto...

Bravo, Maestro!

Mirian Baller ha detto...

De fato, VAMPIROS e ASNOS já começam a cansar!!!!