alla Filosofia Dialogica, Letteratura, Relazioni Internazionali, Scienze Interculturali, Diritti Umani, Diritto Civile e Ambientale, Pubblica Istruzione, Pedagogia Libertaria, Torah, Kabballah, Talmude, Kibbutz, Resistenza Critica e Giustizia Democratica dell'Emancipazione.



ברוך ה"ה







domenica 8 maggio 2011

BAHHH!!! ou, CHURRAS E OS GRAUS DA NECROFAGIA E DA NECROFILIA



E' una grande vergogna
spargere il sangue
e divorare le belle membra di animali
ai quali è stata violentemente
tolta la vita.

Empedocle di Agrigento (400 a.e.c.)


Ah, meu amor, hoje vi o pôr do sol da região amazônica. Estava em um lugar que não tem mais florestas exuberantes - tem latifúndios, pastagens sem fim e pó, muito pó: o pó anterior à desertificação do mundo, misturado à fumaça de queimadas, que cega exploradores e governos idiotizados, e forma mentes ressequidas, grudando nos cabelos, na pele, nos dentes, nos pés, em argamassa de insensibilidade, desumanização e vampirismo. Vale mais quem serrar primeiro, esbofetear poetas e filósofos e der a primeira dentada! É difícil ensinar algo a quem tem a mente petrificada, a quem pensa, apenas, em serras elétricas, diamantes e dinheiro. A sensibilidade tornou-se uma desconhecida, uma estranha...

Eu estava de bicicleta, meu amor, com a bicicleta de um amigo, um poeta, com quem resistia ao modus garimpo e tornava a vida menos dolorosa, afinal, onde houver um poeta ou uma alma de poeta, haverá música, e a paisagem fica mais colorida. E, é possível até transformar o grito das vidas serradas em alguma cantoria. Meu amigo se foi e deixou a bicicleta, aliás, ele deixou tudo. Fui com esta bicicleta (e pensarei se lhe pago, ou não) para descobrir a simplicidade do movimento e da locomoção – sem pressa nem atropelos! Fui pensando em Parmênides, em Epicuro, em Gandhi e nas boas Almas que perfumaram este mundo.

Rodar de bicicleta traz aquela certeza de que o mundo não precisa acabar. Fui por uma estrada (das poucas asfaltadas) e o caminho de ida é penoso, difícil – estrada de subida, mas, subi, pensando apenas em voltar descendo, como moleque, com as mãos soltas do guidão e o vento me trazendo as bênçãos que ainda restam. Descendo em velocidade, senhor das minhas coordenações motoras e do grito que soltei ali. Ao descer, com braços abertos, recebendo o sopro da divindade no peito e no rosto, a sensação foi de que o mundo não precisa acabar!

Mas, no meio da minha descida libertária, abraçando o vento e gritando aos deuses das matas destruídas, olhei ao longe e lá estava aquela bola de fogo alaranjada, quase no horizonte. Então, tive que parar, encostar e ver – é preciso ver o sol se pondo, mesmo em uma região devastada pela ação impensada e louca desses homens avarentos e dessas mulheres de plástico. Ver o sol, assim, tão majestoso e singular, entrando em seu descanso, fez-me pensar em tantas coisas e seres, nos círculos da vida, nas oportunidades e nas experiências musicais e poéticas no mundo.

Do lugar onde estava, eu vi pastagens, e muitos animais: bois, vacas, bezerros. Como dizem meus amigos do sul: bahhh!!! Olhei para os bois e tentei compreender o processo. Os pecuaristas devastam as florestas, sob as bênçãos de governos etílicos (alguns são pecuaristas-governos ou governos-pecuaristas) para criar bois e vacas, então, os pecuaristas (e os governos municipal, estadual e federal) comem as florestas e vendem os bois para comedores de bois e vacas que, de forma tipo neanderthal, atiram ou marretam a cabeça dos animais e, ainda meio vivos, arrancam-lhe o coro e alma.

De onde vem o direito de comer carne de outros seres, tendo em vista que não somos, por opção, neanderthais – ou somos? Não há direito algum, exceto arrogância, perversidade e violência! O mesmo homem que derruba árvores sem razão nem critério, é o homem que cria bois para, depois, matá-los! Alguns fazem isso diretamente – todos os outros ficam excitados com as toras (de árvores) e com os funerais sem fim (churrascos ou churras!!!! Viva!!!). Devoram a carne, e devoram a gordura, e devoram tudo, até que o sangue se lhes escorra pela boca de forma insana e hiênica, em ritual idolátrico! Devoram tudo, tanto e tudo, que fariam Malinovski e Girard ficarem surpresos, apesar de suas pesquisas antropológicas!

Bahhh!!! Não me chamem para comer carne desses animais, nem muito menos paras festas, rodeios, pescarias, touradas, caçadas e outras formas de violência, em que o animal é humilhado, ferido e reduzido a nada. Monstros e monstrificados. Monstrificantes! Churrascos (ou churras!!) são funerais – festins orgiásticos e bacanais da carne morta. Reunir-se em um churrasco, com os dentes cheios de carne, enquanto alguém sempre fica com a mão no espeto e no peito de plástico é, na melhor das hipóteses, uma insaciável necrofagia e uma excitante necrofilia. Não me chamem para isso nem, por vias simbólicas, a comer o corpo e beber o sangue de mitos religiosos ou de pessoas, sejam o que e quem forem. Isto é medieval! Não me chamem para comer carne assada, grelhada ou moída - nem espeto!

É compreensível esta coisa no ser humano? Que vai saqueando o mundo e destruindo tudo em seu caminho, como praga, seja na terra ou no céu, seja na floresta ou nos rios. Lá está ele, o monstro-monstrificante, o devorador de carne, o vampiro na terra, em seu processo de involução, arrogando-se um falso direito de dar a marretada na cabeça do boi, entupir a vaca de hormônios, separar e transformar bezerrinhos em prato predileto de usurpadores, arrancar seu couro, ainda vivo e vibrante, matar tudo, cortar tudo, identificar tudo, vender tudo em pedaços e ralar tudo, moer tudo (e enfiar em tudo o ralado e o moído) e, ainda, gemendo solitário, defecar no mundo sua melhor obra de criação ! Esse processo de matar, dividir, moer, ralar, enfiar, cultuar e comer a carne, é alguma coisa de apetite necrófago e perversão necrófila!

E por falar nisto, as florestas estão morrendo, são vítimas caladas desses homens, assim como os rios que cortam o mundo, e carregam em suas águas a sujeira, a perversidade, a exploração e o resíduo asfáltico de que são feitas as mentes estúpidas. Mas, deságuam no mar, nos mares do mundo. Os mares são poderosos e um dia vomitarão sobre os homens seu furor incontrolável...

Tudo isso é odioso, arrogante, violento. Não quero carne nem grelhas! Não combina com poesia, nem com música, nem com sensatez, nem com lucidez - e nem com humanização do mundo! É uma violência desnecessária! Não quero carne nem sangue - quero pão e vinho! Pão e Vinho, capisce? E paz! Quero Gandhi, quero Epicuro, quero Parmênides, quero Buber, quero Rilke e o perfume da Mulher Amada - amada em seu corpo, em sua alma, em sua mente e em sua respiração...

Bahhh!!! Não quero aquela coisa pré-histórica, a insaciável fome e o porrete na mão, essa cena sacrificial, esse delírio, essa orgia, essa matança de animais, essa voracidade e maldade em caçar, atirar, pescar, embrutecer-se cada vez mais. Não quero essa caverna platônica, porque a violência é um estado de graduação e não importa muito, seja contra uma abelha, um boi ou um homem. As mesmas pessoas que julgam outras pessoas pela etiqueta de suas roupas, pelos sapatos que calçam, pelo dinheiro que carregam, em bancos ou bolsos, são as pessoas que destroem matas e rios, arrastam corpos pela cidade, montam ou assistem montar, bois e vacas, agonizam touros, defecam em rios, ofendem a inteligência, falam mal pelos corredores e espancam. Elas espancam em todos os sentidos, em todos os níveis, espancam por ação ou omissão. Espancam por ignorância ou leviandade. Bahhh!!! Já não temos livros demais no mundo, música demais, poesia demais, universidades demais? Por que a escuridão, o abismo e esta maldade toda? Não terá chegado a hora de compreender algo mais vertical, de sair da caverna, de olhar o sol, o pôr do sol, a vida, e propor alguma reconciliação com a natureza? Não terá chegado a hora de pararmos com a pancadaria seja em árvores, animais ou pessoas? Não terá chegado a hora de parar com esta gritaria de zumbis e com esta perseguição de Jasons?

Ah, meu amor, hoje vi o pôr do sol, em uma estrada ao longe. Fui de bicicleta... e nas descidas, soltei a mão do guidão, abri os braços, recebi as brisas de final de tarde, entreguei minha alma e amei você ainda mais. Ah, meu amor, tão longe, diz, como estão nossas sementinhas, bem guardadas? Precisaremos delas, pois o mundo não precisa acabar ainda...

14 Elul, 5770

© Pietro Nardella-Dellova é Escritor e Poeta. Professor de Ciências Jurídicas e Sociais e de Literatura em graduação e pós-graduação. Mestre em Direito pela USP e Mestre em CRe pela PUC/SP. Pós-graduado em Direito Civil e em Literatura. Formado em Direito e em Filosofia. Mestre na Sinagoga Scuola. Membro da UBE. Autor dos livros AMO (89), NO PEITO (89), ADSUM (92), FIO DE ARIADNE (org/tex), A PALAVRA COMO CONSTRUÇÃO DO SAGRADO (98), A CRISE SACRIFICIAL DO DIREITO (2001) e, agora, do A MORTE DO POETA NOS PENHASCOS E OUTROS MONÓLOGOS (2009).
Outros textos, contato e informações vejam em seu
Blog Café & Direito: http://nardelladellova.blogspot.com/
e pelo e-mail professordellova@libero.it

7 commenti:

Luiz Otávio Ribas ha detto...

Um manifesto vegetarianista?
Um grito desesperado pela salvação das vacas e bois "peidorreiros" da Amazônia?
Um manifesto comunista contra este modo de produção necrófilo?
Mais um desabafo pelos asnos e vampiros?
Bah, não entendi. Mas gostei mesmo assim.
Obs. O pagamento é ver o bom uso da bicicleta do carteiro, por um poeta.

Mirian Baller ha detto...

Mestre, mestre!!!!
Encanta-me saber que existe no mundo vozes de resistência contra um estado de coisa que vai nos consumindo e nos destruindo a todos!
É perceptível, tanto em seu livro A MORTE DO POETA NOS PENHASCOS E OUTROS MONÓLOGOS, como nos textos que, para minhha felicidade, disponibiliza aqui, a força poética que o sustenta e faz reverberar no mundo. O presente texto "BAHHH!!! ou, CHURRAS E OS GRAUS DE NECROFAGIA E DA NECROFILIA" é a manifestação da poeticidade, da força da intelig~encia de quem enxerga e observa o mundo ao seu redor. Mas, não é um texto de desencanto! O poeta não se afasta, não cria cavernas, mas, mesmo no meio de sua "descida com os braços abertos sobre a bicicleta", ele pára, ele vê o pôr do sol, ele vê florestas sendo destruídas e animais sofrendo com a ação de violência humana! É mesmo o ciclo necrófago, "de comer carne podre", e é a excitação necrófila, "de manter relações sexuais com carne morta". Não poderia haver metáforas mais pertinentes para o estado de destruição em marcha, sobretudo, por conta dos "usurpadores" e "dos governos-pecuaristas" ou, da excitação dos que destroem e veem destruídas as poucas reservas florestais no mundo". "Excitação" pelas "toras". Wow! Que imagem fálica!
O poeta vê, e diz. E, além de ver e dizer, alimenta a esperança do mundo, pois "o mundo n ão precisa acabar ainda" e a AMADA guarda as sementinhas, das quais precisaram adiante...
Maravilhoso texto. Sensibilidade sem igual e, finalmente, brindo ao Poeta, com "pão e vinho"!!!
Sou feliz por ser sua leitora e acompanhar seu Blog. Vou me tornando melhor, com um mundo mais "musical e colorido" enquanto houver Poetas!
Saudações
Mirian

Patrícia ha detto...

Caro Poeta! Que grito aos deuses!!!
Fez-me lembrar uma frase de José Saramago, escritor que, como o senhor, resistiu a um mundo "em cegueira" e em compasso de "Caim". A frase é essa: "SE VOCÊ TEM UM CORAÇÃO DE PEDRA, TUDO BEM, O MEU É DE CARNE"!!!
Pois é isso mesmo, caro Poeta, as pessoas estão meio que PEDRAS na compreensão, e meio que impermeáveis quanto á sensibilidade.
Fico imensamente grata por ter conhecido suas obras e este Blog. Parabéns por mais um texto que, sem perder a musicalidade, aponta para um estado de coisa, para um mundo se devorando!
Abraços
Patrícia

Dagoberto ha detto...

Além de Poeta, você é Profeta! Na linha daqueles grandes Profetas que viveram no passado, sem medo de usar as palavras, vai clamando por justiça!
Além de Poeta, você é um Mestre! Vai construindo o quadro e, dando a solução, ao final, para as questões mais urgentes.
Além de Poeta, você é uma Pessoa, um Ser Humano na mais pura compreensão do termo. Devem ser felizes os que podem desfrutar de sua presença, de um café ou de um bom bate-papo contigo!
Quanto a mim, sou feliz por ter tido o Poeta, como um Mestre, um Professor e, em várias oportunidades, aproveitado um café ao seu lado na cantinha da Faculdade!
Ler seus textos é uma experiência muito boa!
Saudações
Dagoberto

Natasha ha detto...

Brasil
Cazuza
Composição: Cazuza / Nilo Roméro / George Israel

Não me convidaram
Pra esta festa pobre
Que os homens armaram
Pra me convencer
A pagar sem ver
Toda essa droga
Que já vem malhada
Antes de eu nascer...

Não me ofereceram
Nem um cigarro
Fiquei na porta
Estacionando os carros
Não me elegeram
Chefe de nada
O meu cartão de crédito
É uma navalha...

Brasil!
Mostra tua cara
Quero ver quem paga
Pra gente ficar assim
Brasil!
Qual é o teu negócio?
O nome do teu sócio?
Confia em mim...

Não me convidaram
Pra essa festa pobre
Que os homens armaram
Pra me convencer
A pagar sem ver
Toda essa droga
Que já vem malhada
Antes de eu nascer...

Não me sortearam
A garota do Fantástico
Não me subornaram
Será que é o meu fim?
Ver TV a cores
Na taba de um índio
Programada
Prá só dizer "sim, sim"

Brasil!
Mostra a tua cara
Quero ver quem paga
Pra gente ficar assim
Brasil!
Qual é o teu negócio?
O nome do teu sócio?
Confia em mim...

Grande pátria
Desimportante
Em nenhum instante
Eu vou te trair
Não, não vou te trair...

Brasil!
Mostra a tua cara
Quero ver quem paga
Pra gente ficar assim
Brasil!
Qual é o teu negócio?
O nome do teu sócio?
Confia em mim...(2x)

Confia em mim
Brasil!!

Natasha ha detto...

Mestre e Poeta, deixei antes um texto do CAZUZA "BRASIL" como uma forma de homenagem a uma pessoa que mantem a linha combativa e não se deixou cooptar pelo sistema!
Parabéns pelo texto!
Maraviiiiiiiiiiiii
Bjs

Hélcio Maciel França Madeira ha detto...

Deixei a floresta ou o que sobrou dela, de ônibus, três dias depois de conhecê-la - ou desconhecê-la, porque desfigurada.
No caminho, comecei a ler "A Morte do Poeta nos Penhascos". Era já noite adentro. Quanto mais longe da cidade de Dellova, mais páginas lidas, mais proximidade com o autor. Lirismo e sabedoria. profundamente humano. As primeiras sessenta páginas foram tão intensas, que não me lembro de conversar com alguém tão profundamente mesmo estando ele ausente. Não, presente. Adsumus. Cada capítulo uma descoberta. Assuntos e questões tão mal resolvidas e incertas nas minhas buscas passadas tornavam-se claras, pela poesia que arrebenta muros, qual uma plantinha superando o concreto dos tão diversos templos. É lirismo, mas é real. Como, comum dos homens, de comum religião, não percebi a fonte das fontes, o cântico dos cânticos, tão presente a quem desejasse conhecer? Agradeço-lhe, Dallova. Encontrei o poeta dos poetas. O poeta-convite, que canta o TU e que nos descobre a acreditar na vida livre leve e solta. Que sabe transformar o preconceito herdado secularmente dos maus, no desejo e vontade permanente de paz. Voltarei aqui. Quando li Pietro no ônibus..."quando lì saró, Dallova?". "Se queres ver a profundeza, precisas voar mais alto". É o que você me convida com sua poesia de libertação. Obrigado, obrigado. Você não imagina como. Hélcio Maciel França Madeira.