alla Filosofia Dialogica, Letteratura, Relazioni Internazionali, Scienze Interculturali, Diritti Umani, Diritto Civile e Ambientale, Pubblica Istruzione, Pedagogia Libertaria, Torah, Kabballah, Talmude, Kibbutz, Resistenza Critica e Giustizia Democratica dell'Emancipazione.



ברוך ה"ה







domenica 29 agosto 2010

Gluck: Orfeo ed Euridice "Che Faro Senza Euridice?" M. Horne



Orfeo has been allowed to bring back his wife from Hades as long as he does not look upon her face until they are back on earth. However, urged by Euridice, he turns around and looks at her and she immediately dies. Grief-stricken, he wonders what he will ever do without his love.

Che farò senza Euridice? Dove andrò senza il mio ben? Euridice, o Dio, rispondi! Io son pure il tuo fedele. Euridice! Ah, non m´avanza più soccorso, più speranza ne dal mondo, ne dal ciel.

Translation

What will I do without Euridice? Where will I go without my beloved? Euridice, oh God, answer me! Yet I still belong to you faithfully. Euridice! Ah, no help comes to me anymore, No hope anymore, Neither from this world, nor from heaven.

mercoledì 25 agosto 2010

CURSOS DE CIÊNCIAS JURÍDICAS E SOCIAIS ou, CURSOS DE DIREITO: notícas


Justiça fecha curso de Direito de Universidade no Rio de Janeiro

A Justiça Federal confirmou a decisão do Ministério da Educação (MEC) de desativar o curso de Direito da Universidade Castelo Branco. A decisão que indeferiu a medida liminar ingressada pela instituição foi publicada na última terça-feira, pela Justiça Federal do Rio de Janeiro.

O curso da Universidade Castelo Branco foi submetido ao processo de supervisão da Secretaria de Educação Superior que, desde 2007, avalia as condições de oferta de cursos que apresentam resultados insatisfatórios nas avaliações do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes).

A determinação do MEC pelo encerramento do curso de direito da Universidade Castelo Branco ocorreu em março deste ano após a verificação de não cumprimento, por parte da instituição, do Termo de Saneamento de Deficiências, que concedeu prazo de 12 meses para que a instituição promovesse as melhorias necessárias para a oferta de um curso de qualidade.

Em trecho da decisão, o Juiz Fabio Tenenblat, da 30ª Vara Federal, afirma que a avaliação e reavaliação da qualidade do ensino encontra-se dentre as atribuições do poder público, devendo o mesmo se pautar nos parâmetros de avaliação de qualidade e decidir sobre a continuidade, ou não, do oferecimento do curso. Os estudantes que estão atualmente matriculados no curso não serão prejudicados e poderão concluir os estudos na instituição ou solicitar a transferência para outra universidade.

Cursos de Direito devem ter qualidade absoluta, do ponto de vista técnico, da relação ensino-aprendizagem e com substância humanista indiscutível, a fim de formar Juristas e não vendilhões ou estelionatários causídicos!

lunedì 23 agosto 2010

ASPECTOS DA CRÍTICA E ARTE LITERÁRIA e textos O MITO DA CAVERNA, de Platão e CARTAS A UM JOVEM POETA, de Rainer Maria Rilke



CRÍTICA
E
ARTE LITERÁRIA
Pietro Nardella-Dellova

1. ASPECTOS PRELIMINARES

A crítica literária é o ponto nevrálgico da Literatura!

O que é CRÍTICA?

- origem: da palavra grega KRÉNEIN (julgar) e KRISIS (fato decisório)
- classe: substantivo (o crítico, a crítica literária) e adjetivo (momento crítico)

O que é PENSAR?

-origem: da palavra latina PENSARE/PENDERE (levantar os pratos na balança)

O que é ILUMINAR, INSTRUIR e ESCLARECER?

- receber uma iluminação, uma luz
- receber uma instrução, ensinamento
- desenvolver a capacidade de análise e criticismo, tendo como pressuposto o discernimento

2) A IDÉIA DA CRÍTICA

Desde o Iluminismo a expressão CRÍTICA vem tomando um rumo expansivo, abrangente e multifacetado, alcançando qualquer produção intelectual, histórica, filosófica, sociológica, psicológica e científica. Mas, é na Literatura que alcança seu máximo desenvolvimento.

3) O OBJETO DA CRÍTICA LITERÁRIA

O fato/ato literário é o objeto da Crítica Literária, ou seja, a Poesia e a Prosa.

Neste caso o próprio objeto da crítica literária apresenta problemas, pois está entre o factual e o intelectual, ou seja, a própria CRIAÇÃO LITERÁRIA em si mesma e a INTERPETREAÇÃO que se dará da obra em si. O encontro entre o escritor e seu leitor, ainda que seja o leitor crítico!

Por isso mesmo, tanto a Crítica descritiva/analítica quanto a Crítica avaliativa/judicativa serão complementares, tendo em vista que ao final, a análise se completa com o julgamento que faz o crítico de uma determinada obra.

4) HISTÓRICO DA CRÍTICA LITERÁRIA

O CLÁSSICO. Na Antigüidade, a idéia embrionária da Crítica nasce com os gregos Platão (Diálogos) e em Aristóteles (Arte Retórica e Arte Poética). Outros gregos, ainda, como Longinus, Dionísio de Halicarnasso, Plutarco, Luciano.

Entre os romanos encontramos Horácio, Quintiliano , Cícero, Sêneca, Plínio (o Jovem), Petrônio, Macróbio...

Nestes casos iniciais, a preocupação central era a retórica e sua utilização, principalmente no que respeita à Ética.

Análise do texto PROMETEU ACORRENTADO, de Ésquilo

O MEDIEVAL. Na Idade Média a Crítica perde sua força, sobretudo, por conta do teocentrismo (catolicismo como centro de tudo e de todos) e sua utilização restringe-se aos textos bíblicos, sobretudo, no que respeita ao latim.
Filme indicado: O NOME DA ROSA

O HUMANISMO. No Humanismo italiano a Crítica reacende sua chama e retoma a análise dos clássicos, sobretudo, com as figuras de Dante Alighieri, Francesco Petrarca, Giovanni Boccaccio.

O RENASCIMENTO E A ERA MODERNA (1527 até 1950)

a) neoclassicismo
b) romântico
c) moderno

- O movimento neoclássico é marcado com a publicação de sua Poética (neoclássico), seguida da publicação por Dolce, da Arte Poética de Horácio, enquanto Pazzi publicava a Arte Poética de Aristóteles. Publicações ocorridas, também, na França, Inglaterra, Espanha e Portugal (Horácio e Aristóteles ganham força)

A repercussão imediata foi tornar a os conceitos neoclássicos como modelo e regra, tornando a arte grega e latina uma espécie de MODELO UNIVERSAL DO ESTÉTICO E DO IDEÁRIO DE BELEZA. Modelo a ser seguido e regra a determinar a produção de obras.

- O movimento romântico é iniciado com a publicação da obra de Lessing, Laocoonte, em 1766, fazendo a passagem entre o neoclássico e o romântico, aceitando da primeira o aprendizado, mas, recusa o modelo e a regra. Embora considere as regras oportunas e indicativas, despreza-as no que respeita à rigidez! Em outras palavras, o artista deve partir de um regramento condutor, mas com a liberdade de aceitá-la ao seu caso quando julgar necessário. Este primeiro passo vai mesmo concretizar-se no século XIX.
Então, neste século, o movimento da Crítica deixa o Modelo e a Regra neoclássica e adota “padrões” completamente distintos dos primeiros: idealismo, imaginação (contra o racionalismo), relativismo da inspiração/gênero (contra o absolutismo dos modelos e regras), crítica compreensiva (contra a crítica legisladora), liberdade criadora (contra a separação rígida dos gêneros), o nacionalismo (contra o universalismo).

- O movimento moderno tem seu início na segunda metade do século XIX, com o advento do Liberalismo e da República e, principalmente, com o naturalismo, base de uma visão cientificista. Nasce, então, a Crítica Naturalista e Positivista e seu maior expoente foi Taine, defensor da aplicação de três fatores: o meio, a herança e as circunstâncias e, ainda, em profundidade a faculdade matriz (fonte psicológica do autor). Esta é a Crítica naturalista!

Neste caso, o modelo cientificista e positivista não prevaleceu ou, ao menos, não foi absoluto. Outros críticos propugnaram métodos divergentes, cujo fundamento era por uma crítica atenta ao valor estético da obra literária. Em alguns casos, uma Crítica atenta às Verdades Absolutas, ou seja, a avaliação de uma obra deveria passar pelo julgamento de suas boas idéias repercutidas na vida. Esta é a Crítica Absolutista/objetivista. Outros, ao contrário, desenvolveram um conceito crítico impressionista, isto é, de valor apenas estético para a obra. Então, a Crítica deveria abandonar os princípios naturalistas e objetivos e desenvolver um contexto subjetivo. Surge a Crítica atenta à impressão que o leitor tem ao ler a obra e, daí, seu prazer. Nada pode substituir na obra literária e, portanto, na Crítica Literária, a avaliação do elemento PRAZER (Crítica relativista/subjetivista).

Ao final do século XIX surge a Crítica criativa! Ou seja, o crítico, assim como o escritor, produz uma obra, cria em valor igual ao da obra analisada. A expressão maior é de Benedetto Croce e, segundo ele, a única base “absoluta” é a intuição e a fantasia da obra literária. A Escola crociana (de Croce) encontrou no início do século XX, sobretudo, na Inglaterra um desenvolvimento acentuado em A. Richards. Segundo ele, o crítico deve deixar tudo quanto não esteja na obra e voltar-se para ela apenas e restringir-se à sua análise exclusiva em busca das camadas e substratos expressivos.

Na década de 30, o fator econômico e os fundamentos do pensamento marxista foram utilizados para compreensão da obra literária e a própria literatura como expressão da luta de classes. Mas, a crítica criativa de Richards encontrou um terreno profícuo nos Estados Unidos, onde foi chamada de NOVA CRÍTICA.

A NOVA CRÍTICA é o estudo do estilo do escritor. E as perguntas se constroem levando-se em conta a obra em si e seus fundamentos. O que acontece em uma obra literária, seja ela prosa ou poema, mas principalmente no Poema. As perguntas que se formulam são feitas em torno e em razão direta da obra literária, pois ela ganha espaço como um organismo vivo e independente. É a obra literária “ela mesma”.

No impressionismo anterior valia a impressão do leitor. Na Nova Crítica vale a obra em si, e por si mesma! E, embora a nova crítica destoe do impressionismo, não obstante, aparece como uma Crítica aberta, pois cada crítico utilizará de meios e caminhos distintos, como a Psicologia, Sociologia, Psicanálise, Folclore etc.

5) ASPECTOS PROBLEMÁTICOS

Por se tratar de obra de arte impõe-se o elemento subjetivo de criação e análise. Então, toda leitura analítica será inesgotável, pois inesgotável é o espírito humano e, ainda mais, o espírito do criador de arte. Podemos entender também que o crítico produz obra de arte em sua Crítica.

Neste caso, criam-se problemas de ambivalência na Crítica Literária, pois em face da obra em si cria-se a obra crítica! Outro problema criado em relação à Crítica e à própria obra de arte é seu reduzido mundo (e mundo fechado) provocando continuada busca de entendimento. Por último, ainda resta o gosto e o sabor pessoal, pois uma obra pode agradar a um, mas não a outro.

Outro problema que se verifica é a relativização da própria Literatura. Afinal, o que é Literatura? Há correntes que entendem a Literatura como DOCUMENTO e outras, como TESTEMUNHO. Não é possível adotar uma ou outra.

6) PAPEL FUNDAMENTAL DO CRÍTICO E SUAS VIRTUDES

Levar qualquer leitor inteligente e lúcido a aproveitar melhor sua leitura e a qualquer estudante de Literatura o seu objeto de estudo.
Para isso, Alceu Amoroso Lima indica os dez pontos característicos de um Crítico:

a) Honestidade
b) Objetividade
c) Receptividade
d) Cultura
e) Inteligência
f) Sinceridade
g) Coragem
h) Independência
i) Largueza de espírito
j) Humildade

7)FILMES E LIVROS PARA ANÁLISE:

- ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA, de José Saramago
- SHIR HASHIRIM, de Sh'lomò BenDavid
- LAÇOS DE FAMÍLIA, de Clarice Lispector

8)COMENTÁRIO SOBRE AUTORES BRASILEIROS:

Mário de Andrade,
Clarice Lispector,
Osman Lins,
José de Alencar,
Machado de Assis,
Álvaro de Azevedo,
Castro Alves,
Euclides da Cunha,
João Guimarães Rosa,
Graciliano Ramos,
Oswald de Andrade,
entre outros;

9)TEXTOS ANEXOS PARA ANÁLISE LITERÁRIA E FILOSÓFICA

A) O MITO DA CAVERNA, de Platão, por Marilena Chaui

No livro VII de “A República”, Platão narra o Mito da Caverna, alegoria da teoria do conhecimento e da paideia platônicas.

Imaginemos uma caverna separada do mundo externo por um alto muro, cuja entrada permite a passagem da luz exterior. Desde seu nascimento, geração após geração, seres humanos ali vivem acorrentados, sem poder mover a cabeça para a entrada, nem locomover-se, forçados a olhar apenas a parede do fundo, e sem nunca terem visto o mundo exterior nem a luz do Sol.

Acima do muro, uma réstia de luz exterior ilumina o espaço habitado pelos prisioneiros, fazendo com que as coisas que se passam no mundo exterior sejam projetadas como sombras nas paredes do fundo da caverna. Por trás do muro, pessoas passam conversando e carregando nos ombros figuras de homens, mulheres, animais cujas sombras são projetadas na parede da caverna. Os prisioneiros julgam que essas sombras são as próprias coisas externas, e que os artefatos projetados são os seres vivos que se movem e falam.

Um dos prisioneiros, tomado pela curiosidade, decide fugir da caverna. Fabrica um instrumento com o qual quebra os grilhões e escala o muro. Sai da caverna, e no primeiro instante fica totalmente cego pela luminosidade do Sol, com a qual seus olhos não estão acostumados; pouco a pouco, habitua-se à luz e começa ver o mundo. Encanta-se, deslumbra-se, tem a felicidade de, finalmente, ver as próprias coisas, descobrindo que, em sua prisão, vira apenas sombras.

Deseja ficar longe da caverna e só voltará a ela se for obrigado, para contar o que viu e libertar os demais. Assim como a subida foi penosa, porque o caminho era íngreme e a luz ofuscante, também o retorno será penoso, pois será preciso habituar-se novamente às trevas, o que é muito mais difícil do que habituar-se à luz.

De volta à caverna, o prisioneiro será desajeitado, não saberá mover-se nem falar de modo compreensível para os outros, não será acreditado por eles e correrá o risco de ser morto pelos que jamais abandonaram a caverna.

B) CARTAS A UM JOVEM POETA, de Rainer Maria RILKE

“Não há nada menos apropriado para tocar numa obra de arte do que a linguagem crítica, no qual tudo se reduz sempre a alguns equívocos mais ou menos felizes. As coisas estão longe de ser tão compreensíveis ou exprimíveis como geralmente nos querem fazer crer; a maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que palavra alguma pisou. Mais inexprimíveis do que qualquer outra coisa são as obras de arte, — seres repletos de mistério, cuja vida perdura junto à nossa vida mortal e efémera”.
(Rilke, “Cartas a Um Jovem Poeta”, primeira carta, de 7 de Fevereiro de 1903)

“O senhor envia os seus versos às revistas literárias, compara-os com outros versos, e sente-se inquieto quando algumas redacções recusam os seus ensaios poéticos. Pois bem, já que me permite aconselhá-lo, devo exortá-lo a renunciar a tudo isso. O senhor está olhando para fora, e é justamente isso o que não deveria fazer neste momento. Ninguém o pode aconselhar ou ajudar. Ninguém... Não há senão um caminho: procure entrar em si mesmo. Esquadrinhe o seu íntimo até descobrir o motivo que o impele a escrever. Procure saber se esse motivo mergulha as suas raízes até ao mais fundo da sua alma. E, procedendo à sua própria confissão, interrogue-se se morreria se lhe fosse vedado escrever?

Diante de tudo isto, pergunte a si mesmo na hora mais calada da sua noite: "Devo eu escrever?” Escave e aprofunde dentro de si uma resposta. Se for afirmativa, se puder responder àquela pergunta tão séria com um firme e simples: "Sim, devo!"; então, erga o edifício da sua vida de acordo com esta necessidade. A sua vida, até na sua hora mais indiferente e anódina, deverá tornar-se o sinal e o testemunho desse impulso. Aproxime-se então da natureza, e tente dizer, quase como se fosse o primeiro homem, o que vê e sente, ama e perde. Não escreva, evite escrever, versos de amor. Nos seus primeiros passos, subtraia-se a formas e temas demasiado correntes, porque são os mais difíceis; já que é necessária uma grande dose de força e maturidade para poder contribuir com algo de si num domínio onde já existem uma infinidade de bons legados, alguns deles brilhantes. Por isso, livre-se dos motivos de índole geral. Recorra aos que em cada dia lhe oferece a sua vida. Descreva as suas tristezas e anseios, os seus pensamentos fugazes e a sua crença em algo de belo; e exponha-o por completo com uma sinceridade íntima e humilde. Utilize, para o exprimir, as coisas que o rodeiam. E as imagens que povoam os seus sonhos. E tudo quanto vive na sua memória.

E se o seu quotidiano lhe parecer pobre e sem interesse, culpe-se a si mesmo, por não ser suficientemente poeta para conseguir descobrir e desvelar as suas riquezas. Porque, para um espírito criador, não há pobreza, nem tampouco lugar algum que lhe pareça pobre ou indiferente. E mesmo que você se encontrasse num cárcere, cujas paredes abafassem todo e qualquer eco do mundo exterior, ainda assim você teria consigo a sua infância, essa infância que encerra uma riqueza preciosa e digna de reis, um camarim onde estão refundidos os tesouros da memória. Volte a sua atenção para ela e procure fazer ressurgir as imensas sensações desse vasto passado. Assim, verá como a sua personalidade se afirma, como se expande a sua solidão, convertendo-se numa remansosa morada de penumbra enquanto ecoam num sussurro longínquo as vozes e os ruídos das outras pessoas. E, se deste mergulhar em si mesmo, deste submergir-se no seu próprio mundo, nascerem prontamente alguns versos, então, não sentirá qualquer necessidade de perguntar a alguém se eles são bons”.
(Rilke, “Cartas a Um Jovem Poeta”, primeira carta, de 7 de Fevereiro de 1903)

“Uma obra de arte é boa se nasceu sob o impulso de uma necessidade íntima”.
(Rilke, “Cartas a Um Jovem Poeta”, primeira carta, de 7 de Fevereiro de 1903)

“Na realidade, sobretudo nas coisas mais importantes e profundas, encontramo-nos no meio de uma solidão inominada. Para poder aconselhar e, mais ainda, para poder ajudar alguém, é mister que ocorram e se conquistem muitas coisas. E, para que se chegue a acertar uma única vez, deve dar-se toda uma constelação de circunstâncias propícias”.
(Rilke, “Cartas a Um Jovem Poeta”, segunda carta, de 15 de Abril de 1903)

“Desejo que a partir de agora e aqui mesmo fique formulada esta súplica: leia o menos possível os trabalhos de carácter estético-crítico: ou são ditames que, pela sua rigidez e falta de vida, acabaram por perder todo o sentido e petrificaram-se; ou, tão-somente, hábeis jogos de palavras em que prevalece hoje uma opinião e amanhã a opinião contrária. As obras de arte vivem imersas numa solidão infinita, e a nada são mais inacessíveis do que à crítica. Apenas o amor logra compreender e fazê-las suas, só o amor pode ser justo para com elas. Diante de todas as discussões, glosas e introduções, deixe sempre a sua razão entregue a si mesmo e ao seu próprio sentir. Se daí resultar que não está no caminho certo, o natural desenrolar da sua vida se encarregará de levá-lo paulatinamente e com tempo até outros critérios.

Deixe que os seus conceitos tenham calmamente e sem qualquer estorvo, o seu próprio desenvolvimento. Como todo o progresso, este há-de surgir de dentro, do mais fundo de si, sem ser apressado nem acelerado por nada. Tudo consiste em levar algo no seu interior até à conclusão, e de seguida trazê-lo à luz; deixar que qualquer impressão, qualquer sentimento em gérmen, amadureça por inteiro no seu íntimo, na obscuridade, no indizível, inconsciente e inacessível ao próprio entendimento: até ficar perfeitamente acabado, esperando com paciência e profunda humildade a hora de ser iluminado por uma nova claridade. Este e não outro é o viver de um artista: o mesmo no entender como no criar.

Aí, não se pode reger pelo tempo. Um ano não tem valor, e dez anos nada são. Ser artista é: não calcular nem contar, mas sim amadurecer como a árvore que não apressa a sua seiva, mas permanece tranquila e confiada sob as tormentas da primavera, sem temer que depois dela nunca chegue outro Verão. Apesar de tudo, o Verão chega. Mas, apenas para os que sabem ter paciência e viver de ânimo tranquilo, sereno e vasto, como se diante dele se estendesse a eternidade. Isto, eu vou aprendendo em cada dia da minha vida. Aprendo-o entre sofrimentos, aos quais, por tal, fico agradecido. A paciência é tudo!”.
(Rilke, “Cartas a Um Jovem Poeta”, terceira carta, de 23 de Abril de 1903)

“Se você se atém à natureza, ao que há de singelo nela; ao pequeno que apenas se vê e que tão improvisadamente pode chegar a ser grande, imenso; se sente esse carinho pelas coisas ínfimas e, com toda a simplicidade, como quem presta um serviço, trata de ganhar a confiança do que lhe parece pobre, então tudo se tornará mais fácil, mais harmonioso, mais em conformidade consigo. Talvez não no âmbito da razão que, assustada, se deixa ficar mais atrás, mas sim no fundo do seu conhecimento, no constante velar da sua alma, no seu saber mais íntimo”.
(Rilke, “Cartas a Um Jovem Poeta”, quarta carta, de 16 de Julho de 1903)

“A satisfação própria do sexo é uma emoção sensual como o simples mirar. Ou, como a mera sensação que cumula a língua enquanto se saboreia uma fruta deliciosa. É uma experiência maior, infinita, que nos é oferecida; um conhecer do mundo, a plenitude e o esplendor de todo o saber…E o que é errado não é viver esta experiência, mas sim que quase todos abusem dela e a dissipem. Empregando-a como incentivo e dissipação nos momentos de maior lassidão em vez de a viver em recolhimento para alcançar sublimes êxtases. Também do comer, decerto, fizeram os homens outra coisa. Por um lado a miséria e, por outra a opulência excessiva, deslustraram esta necessidade. De modo semelhante se turvaram também outras necessidades profundas e singelas, em função das quais a vida se renova. Mas cada indivíduo, para si mesmo, pode resgatar a sua pureza, vivendo-as com límpida singeleza. Se isto não esta ao alcance de qualquer indivíduo – porque cada um depende demasiado dos outros – está ao alcance do homem solitário. Este pode recordar-se que tanto nas plantas como nos animais, toda a beleza é uma calada e persistente forma de amor e anseio.

Pode também ver como os animais e as plantas se unem, multiplicam-se e crescem sem conhecer nenhum prazer ou sofrimento físico, mas sim curvando-se ante necessidades maiores do que o gozo e a dor, mais poderosas que toda a vontade e toda a resistência. Oh! Se o homem pudesse acolher com o espírito humilde e levar com maior seriedade este mistério do qual está prenhe a terra mesmo nas suas coisas mais pequenas. E o suportara, sentindo quão terrível e esmagador é o seu peso, em vez de o encarar de forma ligeira! E se inclinara com profunda veneração ante a sua própria fecundidade, que é apenas uma, quer pareça material ou espiritual. Pois também o criar do espírito ascende do mundo físico. É da sua mesma essência e como uma reprodução mais subtil, mais extasiante e mais perene do gozo carnal”.
(Rilke, “Cartas a Um Jovem Poeta”, quarta carta, de 16 de Julho de 1903)

“Só existe uma solidão. É grande e difícil de suportar. E quase todos nós conhecemos horas em que de bom grado a cederíamos a troco de qualquer convivência, por muito trivial e mesquinha que fosse; até pela simples ilusão de uma pequena coincidência com qualquer outro ser, mesmo com o primeiro que aparecesse, ainda que assim resultasse talvez menos digno. Mas acaso sejam estas, precisamente, as horas em que a solidão cresce – pois o seu desenvolvimento é doloroso como o crescimento das crianças e triste como o início da Primavera – ela, sem embargo, não deve desconcertá-lo, pois o único que, por certo, nos faz falta é isto: Solidão, grande e íntima solidão. Mergulhar em si mesmo e, durante horas e horas, não encontrar ninguém…Isto é o que importa conseguir. Estarmos sós, como estivemos sós quando éramos crianças, enquanto á nossa volta andavam os grandes de um lado para o outro, enredados em coisas que pareciam importantes e grandes, só porque eles se mostravam muito atarefados, e porque nós não entendíamos nada dos seus afazeres.

“Ora bem, se um dia os adultos acabarem por descobrir quão pobres são as suas ocupações, e como as suas profissões são vazias e falhas de qualquer nexo com a vida, porque não seguir, então, olhando todas essas coisas com os olhos da infância, como se fosse algo exterior e estranho? Porque não olhar tudo de longe, da profundidade do nosso próprio mundo, desde os extensos domínios da nossa própria solidão, que é também trabalho e dignidade e ofício?”.
(Rilke, “Cartas a Um Jovem Poeta”, sexta carta, de 23 de Dezembro de 1903)

“Se não existir nada de comum entre você e as outras pessoas, procure viver próximo das coisas. Elas não o abandonarão. Ainda há noites, e ventos que silvam entre as árvores e por cima de muitas terras. Ainda, em coisas e em animais, está tudo repleto de acontecimentos que você pode compartilhar. E também as crianças continuam a ser como você próprio foi em criança: tão tristes e tão felizes. Enquanto você pensa na sua infância, voltará a viver entre elas, as crianças solitárias. E então, as pessoas maiores já não significarão nada, nem terá qualquer valor a sua dignidade”.
(Rilke, “Cartas a Um Jovem Poeta”, sexta carta, de 23 de Dezembro de 1903)

“ (…) Pouca coisa sabemos. Mas sempre sabemos que nos devemos ater ao que é difícil, e isso é uma certeza que nunca nos abandonará. É bom estar só, porque também a solidão resulta ser difícil. E algo que seja difícil deve ser para nós um motivo suplementar para o levar a cabo.
“Também é bom amar, pois o amor é coisa difícil. O amor de um ser humano por outro: isto é, talvez, o mais difícil que já nos foi incumbido. É a prova suprema e derradeira, a tarefa final, ante a qual todas as outras não foram senão um ensaio. Por isso, não sabem nem podem amar ainda os jovens, que em tudo são principiantes. Hão-de aprendê-lo. Com todo o seu ser, com todas as forças reunidas em torno do coração solitário e angustiado que palpita alvoraçadamente – devem aprender a amar. Mas toda a aprendizagem é sempre um longo período de retiro e clausura.

Assim, o amor é por muito tempo e até muito longe dentro da vida, solidão, isolamento crescido e aprofundado por aquele que se ama. Amar não é, em princípio, nada que possa significar absorver-se em outro ser, nem entregar nem unir-se a ele. Pois, o que seria uma união entre dois seres inacabados, falhos de luz e liberdade? Amar é antes uma oportunidade, um motivo sublime, que se oferece a cada indivíduo para amadurecer e chegar a ser algo em si mesmo; para tornar-se um mundo, todo um mundo, por amor a outro”.
(Rilke, “Cartas a Um Jovem Poeta”, sétima carta, de 14 de Maio de 1904)

“ (…) Por certo, as mulheres, em quem a vida se detém, permanece e mora de um modo mais imediato, mais fecundo, mais confiado, devem ter-se tornado seres mais maduros e mais humanos do que os homens. Este, além de leviano – por não o obrigar o peso de nenhum fruto das suas entranhas a descer sob a superfície da vida – é também vaidoso, presunçoso, confuso, e menospreza, na realidade, a quem crê amar…

Esta mais profunda humanidade da mulher, consumada entre sofrimentos e humilhações, sairá à luz e virá a resplandecer quando as mudanças e transformações da sua condição externa se houver desprendido e libertado dos convencionalismos alheios ao meramente feminino. Os homens, aqueles que não pressintam esse advento, sentir-se-ão surpreendidos e vencidos. Chegará um dia, que indubitáveis sinais percursores anunciam já de um modo eloquente e brilhante, sobretudo nos países nórdicos, em que aparecerá a mulher cujo nome já não significará apenas algo oposto ao homem, mas sim algo próprio, independente. Nada que faça pensar num complemento ou limite, senão sómente em vida e em ser: o Humano feminino”.
(Rilke, “Cartas a Um Jovem Poeta”, sétima carta, de 14 de Maio de 1904)

“ (…) Se fomos postos no meio da vida, foi por ser este o elemento ao qual estamos adequados e melhor correspondemos. Além disso, por obra de uma adaptação milenária, tornamo-nos tão semelhantes a esta vida que, quando permanecemos imóveis, e graças a um feliz mimetismo, mal nos podemos distinguir de tudo quanto nos rodeia. Não temos nenhuma razão para recear ou desconfiar do mundo onde vivemos. Se nos inspira terrores, esses são os nossos terrores. Se contém abismos, esses abismos pertencem-nos. E se existem perigos, devemos procurar amá-los. Contanto que procuremos orientar e ajustar a nossa vida à medida deste princípio que nos aconselha a nos atermos sempre ao mais difícil, tudo quanto agora nos pareça ser o mais estranho, acabará por se revelar o mais familiar, o mais fiel”.
(Rilke, “Cartas a Um Jovem Poeta”, oitava carta, de 12 de Agosto de 1904)

“Há muitas pessoas, mas há ainda muitas mais caras, pois cada uma tem várias. Há pessoas que usam uma cara anos seguidos; gasta-se naturalmente, suja-se, quebra nas rugas, alarga como as luvas que se usaram em viagem. São as pessoas simples, poupadas; não mudam de cara, nem a mandam lavar. Serve muito bem, afirmam elas; e quem é que lhes pode provar o contrário? (…) Outras pessoas põem as suas caras com uma rapidez medonha, uma após outra, e gastam-nas. Parece-lhes a princípio que lhes chegam para sempre, mas, mal chegam a quarenta – eis a última. Isto tem naturalmente o seu trágico. Não estão habituadas a poupar caras; a última gastou-se ao cabo de oito dias, tem buracos, está em vários sítios delida e fina como papel, e, a pouco e pouco, vai aparecendo a pasta de baixo, a não-cara, e é com essa que andam”.
(Rilke, “Os Cadernos de Malte Laurids Brigge”, tradução de Paulo Quintela, edição de “O Oiro do Dia”, Porto, 1983)

“Antigamente sabia-se (ou talvez se pressentisse) que se trazia a morte dentro de si, como o fruto o caroço. As crianças tinham dentro uma pequena e os adultos uma grande. As mulheres tinham-na no seio e os homens no peito. Tinha-se, a morte, e isto dava às pessoas uma dignidade particular e um calmo orgulho”.
(Rilke, “Os Cadernos de Malte Laurids Brigge”, tradução de Paulo Quintela, edição de “O Oiro do Dia”, Porto, 1983)

“Ah, mas que significam os versos, quando os escrevemos cedo! Devia-se esperar e acumular sentido e doçura durante toda a vida e se possível durante uma longa vida, e então, só no fim, talvez se pudessem escrever dez versos que fossem bons. Porque os versos não são, como as gentes pensam, sentimentos (esses têm-se cedo bastante), – são experiências. Por amor de um verso têm que se ver muitas cidades, homens e coisas, têm que se conhecer os animais, tem que se sentir como as aves voam e que se saber o gesto com que as flores se abrem pela manhã.

É preciso poder tornar a pensar em caminhos em regiões desconhecidas, em encontros inesperados e despedidas que se viram vir de longe, – em dias de infância ainda não esclarecidos, nos pais que tivemos que magoar quando nos traziam uma alegria e nós não a compreendemos (era uma alegria para outro -), em doenças de infância que começam de maneira tão estranha com tantas transformações profundas e graves, em dias passados em quartos calmos e recolhidos e em manhãs à beira-mar, no próprio mar, em mares, em noites de viagem que passaram sussurrando alto e voaram com todos os astros, - e ainda não é bastante poder pensar em tudo isto.

É preciso ter recordações de muitas noites de amor, das quais nenhuma foi igual a outra, de gritos de mulheres no parto e de parturientes leves, brancas e adormecidas que se fecham. Mas também é preciso ter estado ao pé de moribundos, ter ficado sentado ao pé de mortos no quarto com a janela aberta e os ruídos que vinham por acessos. E também não é ainda bastante ter recordações. É preciso saber esquecê-las quando são muitas, e é preciso ter a grande paciência de esperar que elas regressem. Pois as recordações mesmas ainda não são o que é preciso. Só quando elas se fazem sangue em nós, olhar e gesto, quando já não têm nome e já não se distinguem de nós mesmos, só então é que pode acontecer que, numa hora muito rara, do meio delas se erga a primeira palavra de um verso e saia delas”.
(Rilke, “Os Cadernos de Malte Laurids Brigge”, tradução de Paulo Quintela, edição de “O Oiro do Dia”, Porto, 1983)

“Há um ser que é totalmente inofensivo. Quando te vem à vista, mal o notas e esqueces-te logo dele. Mas quando, invisível, de qualquer modo te entra no ouvido, então desenvolve-se lá dentro, sai por assim dizer da casca, e já se viram casos em que penetrou até ao cérebro e medrou neste órgão de maneira devastadora, semelhante aos pneumococos do cão que penetram pelo nariz.
“Este ser é o vizinho”.
(Rilke, “Os Cadernos de Malte Laurids Brigge”, tradução de Paulo Quintela, edição de “O Oiro do Dia”, Porto, 1983)

“Quando se fala dos solitários, pressupõe-se sempre uma enorme porção de coisas. Julga-se que as pessoas sabem do que se trata. Não, não sabem. Nunca viram um solitário, apenas o odiaram sem o conhecer. Foram seus vizinhos, os vizinhos que o gastaram, e foram as vozes do quarto ao lado que o tentaram. Excitaram as coisas contra ele, que fizessem barulho e abafassem a sua voz.
As crianças aliaram-se contra ele, por ele ser delicado e criança; e à medida que crescia, crescia contra os crescidos. Farejavam-no no seu esconderijo como um bicho que se pode caçar, e a sua longa juventude não teve época de defeso. E quando ele se não deixava esfalfar e se escapava, então, gritavam eles sobre o que dele provinha, e achavam-no feio e tornavam-no suspeito. E quando ele os não queria ouvir, eles tornavam-se mais explícitos e comiam-lhe a comida da boca e respiravam-lhe o seu ar e escarravam na sua pobreza para que ela se lhe fizesse odiosa”.
(Rilke, “Os Cadernos de Malte Laurids Brigge”, tradução de Paulo Quintela, edição de “O Oiro do Dia”, Porto, 1983)

“O destino gosta de inventar desenhos e figuras. A dificuldade dele reside no complicado. A vida mesma, porém, é difícil pela simplicidade. Tem apenas algumas coisas de um tamanho que nos não é adequado. O santo, rejeitando o destino, escolhe estas coisas, em face de Deus. Mas que a mulher, conforme à sua natureza, tenha de fazer a mesma escolha em relação ao homem, é o que evoca a fatalidade de todas as relações de amor: resoluta e sem destino como uma eterna, ergue-se ela ao lado dele, dele que se transforma. Sempre a amante ultrapassa o amado, porque a vida é maior do que o destino. O dom de si mesma quer ser desmedido: é esta a sua ventura. A dor inominada do seu amor, porém, foi sempre esta: que se exija dela que limite este dom de si mesma”.
(Rilke, “Os Cadernos de Malte Laurids Brigge”, tradução de Paulo Quintela, edição de “O Oiro do Dia”, Porto, 1983)

10) BIBLIOGRAFIA

AMORE, A. Soares. INTR; À TEORIA DA LITERATURA. SP: Ed. Cultrix, 1970;
ARISTÓTELES. OBRAS. Madrid: Aguilar, 1977
AUERBACH, Erich. MIMESIS. SP: Ed. Perspectiva, 1976;
BARTHES, Roland. EL. DE SEMIOLOGIA. SP: Cultrix, 2006;
BONET, Carmelo M.. CRÍTICA LITERÁRIA. SP: Ed. Mestre Jou, 1969;
_____. A TÉCNICA LITER; E SEUS PROBLEMAS. SP: Ed. M. Jou, 1970;
BOSI, A. O CONTO BRAS. CONTEMPORÂNEO. SP: Cultrix, 1977;
BRAIT, Beth. A PERSONAGEM. SP: Ática, 2002;
CAMARA JR, J. Mattoso. EXPRESSÃO ORAL E ESCRITA. SP: J. Ozon Ed., 1972;
CANDIDO, A;. A ED. PELA NOITE. RJ: Ouro Sobre Azul, 2006;
_____. LITERATURA E SOCIEDADE. SP: Cia Ed. Nacional, 1965;
CHAUÍ, M. INTR. À H. DA FILOSOFIA. SP: Cia Letras, 2002;
_____. CONVITE À FILOSOFIA. SP: Ed. Ática, 1995;
COUTINHO, A.. CRÍTICA E TEORIA LITERÁRIA. SP: Tempo Brasileiro, 1987;
ELIADE, M.. MITO E REALIDADE. SP: Ed. Perspectiva, 1972;
FACINA, Ad.. LITERATURA & SOCIEDADE. RJ: J. Zahar Ed., 2004;
FREUD, S.. PSICOANALISI DELL’ARTE E DELLA LETTERATURA. Trad di Antonella Ravazzolo e Celso Balducci. Roma: 2006
JAKOBSON, R.. LINGÜÍSTICA, POÉTICA, CINEMA. SP: Perspectiva, 2007;
KAYSER, Wolfgang. ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DA OBRA LITERÁRIA. II Vol.. Coimbra: A. Amado, 1970;
MOISÉS, M.. A CRIAÇÃO LITERÁRIA. SP: Ed. Melhor., 1968;
SANSONE, Mario. STORIA DELLA LETTERATURA ITALIANA. Milano: Casa Ed. Giuseppe Principato, 1951;
ULLMANN, Stephen. SEMÂNTICA: UMA INT. À CIÊNC DO SIGNIFICADO. Lisboa: F. C. Gulbenkian, 1964;

sabato 21 agosto 2010

PÓS-MODERNIDADE: ACERCA DA HORA E VEZ DOS RATOS (do livro A MORTE DO POETA NOS PENHASCOS E OUTROS MONÓLOGOS)


de
Pietro Nardella-Dellova


Os ratos também ficam em pé, sobrinho!
(Rav Giam, em um encontro)


Tentei ouvir o reitor falar. Ele havia convocado uma reunião – no caso, parecia mais um encontro de casais. Nada pessoal. Após tantos milênios em busca da própria humanidade, vencendo déspotas de todo gênero, opressores multifacetados, canibais famélicos, aristocratas perdidos na Ágora, homens-deuses enfurecidos, psicóticos medievais, senhores e reis enlouquecidos, descobridores e colonizadores impiedosos, exploradores de mão-de-obra branca, negra, indígena, amarela, azul e verde, manipuladores e destruidores de vidas e famílias inteiras, religiosos obscenos, mentirosos em cátedras, tribunas, púlpitos e praças, legisladores psicopatas, governantes delinqüentes e juízes fúteis, finalmente, perdemo-nos.

Após todas as lutas, deixando mitos soterrados, reis comendo a grama entre animais, opressores guilhotinados, religiosos limitados a espaços ínfimos e porões de rezas,
perdemo-nos, tristemente, na mediocridade.

E as vitórias se transformaram em lixo...
S
e
for
de Mengele a podre ossada
que estava no descanso do Embu
desfrutando do silêncio dos mortos,
e
n
t
ã
o
não houve pena a isso.
e se for o corpo que boiava, inerte,
nas águas do canal de Bertioga
sem que soubessem tentaram salvar,
e
n
t
ã
o
não houve morte a isso.
nada importa, víbora maldita!
se não houve pena à carne disso,
e se não houve morte ao corpo disso,
está no abismo, na treva,
demônio!
onde quisera mandar pessoas outrora
e
s
t
á
queimando
d
i
u
t
u
r
n
a
m
e
n
t
e
sem
p
a
z
Após tanta filosofia, tantos debates acadêmicos, tanto progresso econômico, entregamos, por fim, nossas almas para os nazistas e fascistas, sob as bênçãos das cruzes, dos padre-nossos e das políticas ocidentais. E, depois de tanto sangue derramado, em nome da democracia e da liberdade, deixamos que os fabricantes de armas e comerciantes de petróleo dominassem o mundo.

Enquanto parecia ainda ecoarem as vozes de Luther King e Gandhi, entre as linhas de Imagine, fuzilamos milhões de civis, de todas as cores e credos. Enganamos todos e tudo e, quando a grande bolha criou feridas nos nossos olhos incautos, investimos trilhões
de dólares para salvar instituições
que
nos
matam
a
cada
dia,
em
cada
fatura
e em
cada
extrato!
É
preciso
b
e
b
e
r
continuamente sem tréguas nem
ressacas
é preciso fumar todo cigarro e outras drogas,
é preciso
drogar-se – a toda hora e freqüentar todos os bares todas as noites e fazer sexo em todos os
b
a
n
h
e
i
r
o
s
(muito sexo, em todas as camas, de todas as casas)
sexo sem limite com todas as mulheres
e com todos
os homens doentes,
pedófilos,
sifilíticos,
negros,
brancos,
amarelos,
tarados,
bi-étero-homossexuais,
e com todos os
b
u
r
r
o
s
e todos os
cães,
e todos os
cavalos,
e todos os
porcos!
é
p
r
e
c
i
s
o
devolver
D’US
aos hebreus
no
d
e
s
e
r
t
o
e ficar livres, para matar, e roubar, e cobiçar, e mentir, e desonrar,e blasfemar, e idolatrar,
enquanto estes pais e estas mães fizerem
crianças de
m
e
n
t
i
r
a
e em todo canto existirem
mentirosos
sejam padres, pastores, pais-de-santo,
gurus, médiuns, profetas, rabinos, mulás,
guias, santos, sectários, fiéis, governos, políticos, empresários,
professores, jornalistas, sindicalistas, juristas, economistas, médicos, agricultores, empregadores, empregados,
cientistas, estudantes, artistas, filósofos, escritores, poetas, transeuntes, mendigos:
porque há
m e n t i r o s o s !
porque existe fome,
e peste,
e ignorância,
porque fizeram de D’us uma coisa,
porque existem favelas,
e genocídios,
e avareza,
[n e u r ó t i c o s, p s i c ó t i c o s, e s q u i z o f r ê n i c o s]
e não há diálogo nem fogueira nem estrelas nem luz nem sol
nem direito nem lágrima nem sorriso nem afeto nem amizade
nem trigo nem leite nem Poesia nem teto nem honra nem
sangue
nem legumes nem misericórdia nem justiça nem arroz
nem tolerância nem feijão
nem
n
a
d
a.

Quando pensávamos que Geni e o Zepelim se referissem aos desmandos das marionetes militares, descobrimos que servem, tanto quanto, para o baixo clero, alto clero e respectivos. Enquanto ainda falávamos dos cafés impedidos no Largo de São Francisco, descobrimos que centenas de delinqüentes, escondidos sob a vestimenta do inspirador nome de Congresso, por omissão ou por ação, por negligência, imprudência ou imperícia, violava o pressuposto básico da boa-fé e destruía, por completo (e por tempo duradouro) o princípio de não causar prejuízo a outrem! Enquanto ensinamos o sistema jurídico pouco eficaz, os seus criadores usam o dinheiro público, tirado de forma violenta e indefensável do salário (que nunca será renda!), para o pagamento das viagens (e das orgias) de suas mães, de seus irmãos, de seus correligionários, dos sem-terra, dos com-terra, dos sem-teto, dos com-castelo, das namoradas e de suas prostitutas televisivas!

Transformamos um sonho delicado e poético em concreto sufocante, sufocante, sufocante...
O
sonho
e
a
Poesia foram de graça, espontâneos; o concreto, roubado! E medimos o amor pelo tamanho da conta bancária e tudo que era sagrado, humanamente sagrado (jamais, religiosamente sagrado!) foi coisificado, reificado, reduzido a coisas! E transformamos o corpo em uma imagem distante e vazia. E trocamos o abraço, próximo e intenso, por salas virtuais, grupos virtuais, encontros virtuais, por bonequinhos virtualmente idiotas que riem sem parar, sem razão e sem verdade.

E tudo o que era suor e saliva, perfume e sons da pele, foi deixado em uma tela, e transformado em resíduo cancerígeno e asfáltico! E o que era sábio e inteligente, pulverizou-se e perdeu-se entre milhares de livros-lixo em estantes de mercado. Obras inteiras, pagas com o tempo diuturno de estudiosos dedicados, foram esquecidas e substituídas por resumos, sinopses e cópias de esquina. Conduzimos às cadeiras dos antigos Mestres da literatura, alguns pervertidos esotéricos, alguns senadores hipócritas e donos de redes de televisão, e deixamos passar velhos poetas, ainda que “passarinho”, e os deixamos morrer em algum quarto do Sul. E as nossas mentes reduziram-se a pó, plástico, imagens e outras invenções noturnas e bestiais!

Rompemos o diálogo aberto e pontual, profundo e analítico, programático e ético, com os professores de nossos filhos, porque queremos que eles os elogiem, digam algo que legitime nossas condutas indesculpáveis. Porque precisamos de boletins com notas para justificar o preço das escolas e não importa quais os critérios pelos quais se obtenham tais notas, afinal, o fins justificam os meios! Não queremos saber o quanto nossos filhos cresceram por dentro, o quanto se tornaram éticos ou o quanto podem interromper a destruição que iniciamos do planeta. O mais importante, afinal, é que sejam melhores do que todos os outros, mais fortes, mais sedutores, com celulares mais modernos, que ostentem
o
poder
de
booling
sobre todos os outros, como sinal ariano de superioridade.

Por isso mesmo, fazemos fila dupla na frente das escolas e buzinamos (às vezes até gritamos), para que os guardinhas vejam nossos carros, para que os professores vejam nossos carros e para que todos vejam os nossos carros. A escola foi transformada em um curral! Esquecemos a noção e o conceito de estudo, de pesquisa, de investigação!

Rezamos por iluminação, queremos que a divindade nos ilumine! Tornamo-nos asnos religiosos, pelo cérebro e pelo coice. Queremos títulos, diplomas e certificados de participação em cursos, ainda que tenhamos passado o curso inteiro trocando mensagens ao celular, colando e falando mal uns dos outros (e todos do professor). Ainda que não tenhamos elaborado uma única questão ou criado uma única idéia original, verdadeiramente original, queremos, mesmo, que o mundo diga que somos instruídos, por isso mesmo investimos nas colações de grau e nos bailes de formatura, nos anéis de formatura (colocados em patas e garras) e nos álbuns, reais ou virtuais! Por isso mesmo, investimos em becas e togas, para nos cobrirmos e escondermos a vergonha da ignorância e as tendências vampirescas. Não queremos ser esclarecidos, não queremos pensar, não queremos desenvolver nenhum raciocínio crítico. Não queremos aperfeiçoar nada.
Não
queremos
trabalhar
em
projeto
algum.
Queremos o projeto alheio, baixado da internet!

Apenas precisamos de uma imagem, de uma fantasia e de uma personagem. Não queremos discutir o direito material, substantivo nem seu sentido nas relações humanas. Queremos, apenas, saber como se faz uma petição inicial (para iniciarmos um processo do qual nunca mais nos ocuparemos). Não queremos explicar a quem nos procura quais sejam os seus direitos, mas queremos que ele saiba profundamente sobre os nossos honorários! Não queremos desenvolver uma inteligência e uma ética social,
queremos
apenas
um
emprego público e estável.

Não queremos pagar, queremos apenas receber! Não queremos o café que nos inspire às grandes idéias e projetos, queremos apenas a oportunidade de falar qualquer coisa que seja simplesmente mal da vida alheia. Porque descobrimos, agora, que nada é descartável, mas deletável!

Aliás, precisamos mesmo nos alimentar da maledicência infecciosa, da sujeira que formamos no curral, do pó e do plástico noturnos, do serviço público, do resíduo, da lágrima de quem teve seu direito violado e jamais reparado, das pétalas de flores murchas que entregamos no dia da formatura, do guardinha que esmagamos na porta da escola, dos preservativos usados pelos delinqüentes no estupro contra a pobre Geni, da mediocridade e do lixo (ainda que virtual), e das ruínas do Judiciário, usado de forma pessoal, econômica e política,
para sentirmos, em plenitude evolutiva, a vida vibrante em
nossa longa cauda, escura e escamosa,

desprovida de pêlos, responsável pelo nosso equilíbrio sobre os

v a r a i s

d

a

s

roupas

s

o

c

i

a

l

m

e

n

t

e

sujas!
A
U
S
C
A U S C H W I T Z
W
I
T
Z
venho
de
abismos e profundezas:
hades

onde há ranger de dentes
enxofre-resíduo-asfáltico
onde as
almas
se largam e não há dor nem frio não há sede nem fome,
apenas calor de infernos somados que seca lágrimas remanentes
e as almas se alargam e se espremem
e se dilatam e se transfiguram
e se afiguram a coisas
que diluem
eu
v
e
n
h
o
de
lagos-densos-desoxigenados-de-fétidas-misturas-fixas
onde não há coisa alguma
e não se enxerga o azul
e não se ouve qualquer canção
e não se toca com a pele
e não se cheira
perfumes
e
não
se saboreia o
m
e
l
a fruta-leite-verdura
apenas,
c
a
i
n
d
o
VÊESCUTAAPALPACHEIRARUMINA
o fedor de cadáveres abandonados o desgosto de abismos
do
delírio-cancro-inserto
n
o
s
coturnos engraxados no
ó
d
i
o
Às vezes, agrego pessoas perversas,
ignorantes, insensatas e infantis e
as deixo por perto
(e com determinadas janelas abertas),
por não saber exatamente
a diferença entre umas e outras...
Às vezes, menciono pessoas perversas,
ignorantes, insensatas e infantis,
para tentar identificar e diferenciar
umas das outras...
Às vezes, até elogio pessoas perversas,
ignorantes, insensatas
e infantis,
para que mostrem, em ação ou omissão,
as diferenças entre
umas e outras...
Às vezes,
deixo que pessoas perversas, ignorantes, insensatas
e infantis
se manifestem no meu espaço,
para que eu perceba nelas
a cor,
o peso
e o cheiro de sua perversidade,
ignorância,
insensatez
e infantilidade...
Às vezes, encontro-me no meio delas,
na condição de estudioso e pesquisador,
a fim de saber quando e como,
umas se transformam
em
outras!
E
então
D’us
chamou hasatan e lhe perguntou:
de
onde
vieste?
d
e
rodear
a
t
e
r
r
a
respondeu,
hasatan,
s o r r i d e n t e


© Pietro Nardella-Dellova. In Pós-modernidade: acerca da hora e vez dos ratos. A MORTE DO POETA NOS PENHASCOS E OUTROS MONÓLOGOS. SP: Ed. Scortecci, 2009, pág 243 ( aquisição pela Livraria Cultura http://www.livrariacultura.com/ )

giovedì 19 agosto 2010

KAMP: lo sterminio rappresentato con i burattini







KAMP: lo sterminio rappresentato con i burattini

Kamp è un lavoro complesso, in parte installazione artistica in parte rappresentazione teatrale, realizzato con pupazzi in plastilina e scenari di legno da un gruppo olandese, Hotel Modern.

La scena è un campo di annientamento nazista riprodotto in uno spazio grande quanto una stanza, con tutte le attività di lavoro forzato e di morte che in esso avvenivano.
Non ci sono dialoghi, solo rumori e suoni: i treni con il carico di deportati, il lavoro degli schiavi, le porte delle camere a gas che si chiudono, il flusso dello Zyklon B, e, terrificante, la musica e il canto dell’inno delle SS (credo sia questo ma non ne sono certo) all’inizio.

Gli attori/burattinai muovono i personaggi (prigionieri e guardie), simulano i rumori. Un altro riprende alcune scene come se fosse la realizzazione di un cinegiornale (la colonna sonora è l’inno cui accennavo prima).

In un articolo a commento di Kamp, Ian Buruma sul blog della New York Review of Books sottolinea come un lavoro come Kamp sia efficace perché esplicitamente artificiale, perché narra in modo palesemente stilizzato la realtà.

I dettagli evocano la realtà, con effetti d’orrore, senza provare a rappresentarla in modo mimetico, realistico. I burattini sembrano più reali degli attori perché lasciano più spazio all’immaginazione di chi osserva. [...] Gli attori non possono reintrepretare quel che accadde in luoghi come Auschwitz, almeno non in modo realistico, perché quel che avvenne non può essere ricreato. Più cerchiamo rappresentazioni realistiche di una violenza così estrema e con più probabilità rischiamo di riprodurre una forma di kitsch.

mercoledì 18 agosto 2010

MORADORES DE PORÃO


P
R
A
I
A
estou
no
limite
onde os ventos se separam
e alma se distingue do espírito
com lágrima que se mistura às águas do mar salgado.
Estou no limite onde não há silêncio nem ruído
nem luz nem treva nem dia nem noite
- nem há descanso
da
madrugada
nem
rubor
do
a
l
v
o
r
e
c
e
r
nem chuva nem orvalho fresco.
Estou no limite do que se pode cantar em versos:
os pés se distanciam
da
t
e
r
r
a
e todas as energias confusas,
confundem bem e mal que se aproximam
no limite em que não há vida nem morte
nem segundo nem tempo de eternamente.
Estou no limite:
os pés puderam me trazer e atrás,
os montes verdes e as águas doces
e os pássaros
e os caminhos feitos cara de homem,
e o homem feito caminho aberto no mundo
e o vento feito sonho batendo em
r
o
c
h
a
feito deus enceguecido
e
surdo na insensibilidade

[estounolimiteospésmolhadosdesalamalgamadoaossentidos]
[sombraeàluzeminhaalmaestátãotristeanteomarquedesconheço]
[olhoschorososporquenãotenhoaembarcaçãonãotenhobraçoságeis]

nem
pernas fortes
porque não tenho
c a j a d o
e
pontos
nem notícia de
D’us
morto
um
d
e
u
s
.

[...]


Pietro Nardellla-Dellova
in trecho do Livro
A MORTE DO POETA NOS PENHASCOS
E OUTROS MONÓLOGOS.
Ed. Scortecci, 2009,
pág 240

lunedì 16 agosto 2010

DIRITTI UMANI/HUMAN RIGHTS/DIREITOS HUMANOS: Send e-letters in support of Iran’s 7 Baha’i Leaders




Amici/amigos/Friends:

Act Now, the Global Human Rights is at stake if we watch what is happing in Iran with the 7 Bahai leaders and others who are imprisoned

EM INGLÊS
Please Take Action! Send e-letters in support of Iran’s 7 Baha’i Leaders.
It takes you less than 5 minutes. United4Iran has done everything, you only need to choose the country you want the letter to be sent to, they have written the letter too:

http://united4iran.com/2010/08/take-action-send-e-letters-in-support-of-irans-7-bahai-leaders/


EM PORTUGUÊS
Leva menos de 5 minutos. United4Iran (United for Iran) fez tudo, você precisa apenas escolher o país que quer enviar a carta, a carta está escrita também.

http://sasg.bahai.org.br/p/abaixo-assinados.html

domenica 15 agosto 2010

O QUE É O ILUMINISMO, de Kant

O que é o Iluminismo
De Kant

A Resposta à pergunta: o que é o Iluminismo? apareceu em 1784 em uma revista berlinense.

1. Definição do Iluminismo
O iluminismo é a saída do homem de um estado de menoridade que deve ser imputado a ele próprio. Menoridade é a incapacidade de servir-se do próprio intelecto sem a guia de outro. Imputável a si próprios é esta menoridade se a causa dela não depende de um defeito da inteligência, mas da falta de decisão e da coragem de servir-se do próprio intelecto sem ser guiado por outro. Sapere aude!1 Tenha a coragem de servir-te da tua própria inteligência! – é, portanto, o lema do Iluminismo.


2. Dificuldade para o homem de sair do estado de menoridade
A preguiça e a vileza são as causas pelas quais tão grande parte dos homens, depois que a natureza há muito tempo os liberou da heterodireção (naturaliter minorennes), ainda permanecem de bom grado em estado de menoridade por toda a vida; e esta é a razão pela qual é tão fácil que outros se erijam como seus tutores. É tão cômodo ser menor! Se eu tiver um livro que pensa por mim, um diretor espiritual que tem consciência por mim, um médico que decide por mim sobre a dieta que me convém etc., não terei mais necessidade de me preocupar por mim mesmo. Embora eu goze da possibilidade de pagar, não tenho necessidade de pensar: outros assumirão por mim essa enjoada tarefa. De modo que a estrondosa maioria dos homens (e com eles todo o belo sexo) considera a passagem ao estado de maioridade, além de difícil, também muito perigosa, e provêm já os tutores que assumem com muita benevolência o cuidado vigilante sobre eles. Depois de tê-los em um primeiro tempo tornado estúpidos como se fossem animais domésticos e ter cuidadosamente impedido que essas pacíficas criaturas ousassem mover um passo fora do andador de crianças em que os aprisionaram, em um segundo tempo mostram a eles o perigo que os ameaça caso tentassem caminhar sozinhos. Ora, este perigo não é assim tão grande como se lhes faz crer, pois ao preço de alguma queda eles por fim aprenderiam a caminhar: mas um exemplo deste gênero os torna em todo caso medrosos e em geral dissuade as pessoas de qualquer tentativa ulterior.

É, portanto, difícil para cada homem particular desembaraçar-se da menoridade que para ele se tornou quase uma segunda natureza. Ele chega até a amá-la e, no momento, é realmente incapaz de servir-se de seu próprio intelecto, pois nunca lhe foi permitido colocá-lo à prova. Regras e fórmulas, estes instrumentos mecânicos de um uso racional, ou melhor, de um abuso de suas disposições naturais, são os laços de uma menoridade eterna. Mesmo que deles conseguisse se soltar, mais não faria que um salto inseguro até mesmo sobre os mais pequenos buracos, pois não estaria treinado a tais movimentos livres. Portanto, apenas poucos conseguem, com a educação do próprio espírito, desembaraçar-se da menoridade e apesar de tudo caminhar com passo seguro.


Que, ao contrário, um público2 se ilumine por si próprio é coisa grandemente possível; ou melhor, se lhe for deixada a liberdade, é quase inevitável. Nesse caso, com efeito, se encontrarão sempre, até entre os tutores oficiais da grande multidão, alguns livres pensadores que, depois de terem sacudido de si o jugo da tutela, espalharão o sentimento da avaliação racional do próprio valor e da vocação de todo homem a pensar por si próprio. A este respeito há o fenômeno singular de que o público, que em um primeiro tempo foi colocado por aqueles sob tal jugo, os obrigue depois ele próprio a aí permanecerem, tão logo tenham a isso instigado aqueles de seus tutores que fossem eles próprios incapazes de qualquer esclarecimento. Semear preconceitos é tão perigoso exatamente porque terminam por recair sobre seus autores ou sobre os predecessores de seus autores. Por isso o público pode chegar ao esclarecimento apenas lentamente. Talvez uma revolução poderá, sim, determinar a liberação em relação a um despotismo pessoal e de uma opressão ávida de ganho ou de poder, mas nunca uma verdadeira reforma do modo de pensar. Ao contrário: novos preconceitos servirão da mesma forma que os antigos para colocar no andador a grande multidão de quem não pensa.


3. Condição essencial para o Iluminismo é a liberdade de fazer uso público da razão
Todavia, para esse esclarecimento não é preciso mais que a liberdade; e precisamente a mais inofensiva de todas as liberdades, isto é, a de fazer uso público da própria razão em todos os campos. Mas em todos os lugares ouço gritar: não raciocineis! O oficial diz: não raciocineis, mas fazei exercícios militares! O intendente de finanças: não raciocineis, mas pagai! O clero: não raciocineis, mas acreditai! (Há apenas um único senhor no mundo3 que diz: raciocineis o quanto quiserdes e sobre tudo aquilo que quiserdes, mas obedecei!). Aqui existe, em todo lugar, limitação da liberdade.


a. Uso público e uso privado da razão
Todavia, qual limitação é obstáculo para o Iluminismo, e qual não o é, ou melhor, até o favorece? Respondo: o uso público da própria razão deve ser livre em todo tempo, e apenas ele pode atuar o esclarecimento entre os homens; o uso privado da razão, ao contrário, pode muito freqüentemente sofrer estreitas limitações, sem que por isso o progresso do esclarecimento seja particularmente obstaculizado. Entendo por uso público da própria razão o uso que alguém faz dela, como estudioso, diante de todo o público dos leitores.


Chamo, ao contrário, de uso privado da razão aquele que a um homem é lícito fazer dela em certa profissão ou função civil da qual é investido. Ora, para muitas operações que se referem ao interesse da comunidade é necessário certo mecanicismo, pelo qual alguns membros dela devem se comportar de modo puramente passivo em que mediante uma harmonia artificial o governo os induza a concorrer aos fins comuns ou ao menos a não contrastar com estes. Aqui, obviamente, não é permitido raciocinar, mas deve-se obedecer. Todavia, enquanto ao mesmo tempo estes membros da máquina governante se consideram como membros de toda a comunidade e, mais ainda, da sociedade cosmopolita, e são, portanto, na qualidade de estudiosos que com os escritos se dirigem a um público no sentido próprio da palavra, eles podem certamente raciocinar, sem com isso lesar a atividade à qual estão destinados como membros parcialmente passivos. Desse modo, seria bastante pernicioso que um oficial, ao qual foi dada uma ordem por seu superior, quisesse em serviço publicamente raciocinar sobre a oportunidade e a utilidade dessa ordem: ele deve obedecer.


Mas é iníquo impedir que ele, na qualidade de estudioso, faça suas observações sobre erros cometidos nas operações de guerra e as submeta ao julgamento de seu público. O cidadão não pode se furtar a pagar os tributos que lhe são impostos; e uma crítica inoportuna de tais imposições, quando devem ser executadas por ele, pode até ser punida como escândalo (pois poderia induzir a desobediências generalizadas). Contudo, este não age contra o dever de cidadão se, como estudioso, manifestar abertamente seu pensamento sobre a inconveniência ou também sobre a injustiça destas imposições. Dessa forma, espera-se que um eclesiástico ensine o catecismo aos aprendizes e à sua comunidade religiosa segundo o credo da Igreja da qual depende, porque é com esta condição que ele foi assumido; mas, como estudioso, ele tem a plena liberdade e até a tarefa de comunicar ao público todos os pensamentos que um exame severo e bem intencionado lhe sugeriu a respeito dos defeitos daquele credo, e também suas propostas de reforma da religião e da Igreja. Nisso não há nada de que a consciência possa tornar-se culpada.


Aquilo que ele ensina como parte de sua profissão, como funcionário da Igreja, ele de fato o expõe como algo em torno do qual não tem a liberdade de ensinar conforme suas próprias idéias, mas que tem a tarefa de ensinar segundo as instruções e em nome de um outro. Ele dirá: nossa Igreja ensina isto e aquilo, e estas são as provas de que ela se vale. Toda a utilidade prática que pode derivar para sua comunidade, ele portanto a tirará dos princípios que ele próprio não subscreveria com plena convicção, mas a cujo ensinamento pode em todo caso se empenhar porque não é de modo algum impossível que neles não se encontre alguma verdade, e em todo caso, ao menos, neles não se encontra nada que contradiga a religião interior.


Se, ao contrário, acreditasse encontrar aí algo que a contradiga, ele não poderia exercitar sua função com consciência; deveria demitir-se. O uso que um ministro de ensino oficial faz da própria razão diante de sua comunidade religiosa é, portanto, apenas um uso privado; e isso porque aquela comunidade, por maior que seja, é sempre apenas uma reunião doméstica; e sob este aspecto ele, como padre, não está livre e não o pode sequer ser, pois exerce um cargo que lhe vem de outros. Ao contrário, como estudioso que fala com os escritos ao público propriamente dito, isto é, ao mundo e, portanto, como eclesiástico no uso público de sua própria razão, ele goza de uma liberdade ilimitada de valer-se de sua própria razão e de falar por si mesmo. Que os tutores do povo (nas coisas espirituais) devam por sua vez permanecer sempre na menoridade é um absurdo que tende a perpetuar os absurdos.


4. Criar obstáculos contra o progresso das luzes é um crime contra a natureza humana
Contudo, uma sociedade de eclesiásticos, por exemplo, uma assembléia eclesial ou uma venerável “classe” (como ela se autodefine entre os holandeses), não teria por acaso o direito de obrigar-se por juramento a certo credo religioso imutável, para exercer de tal modo sobre cada um de seus membros e, por meio deles, sobre o povo uma tutela contínua e até para tornar eterna essa tutela? Eu digo que isso é de fato impossível. Tal contrato, dirigido a manter a humanidade para sempre longe de qualquer progresso ulterior no esclarecimento, é irritante e nulo de modo absoluto, mesmo que fosse sancionado pelo poder soberano, pelas Dietas imperiais e os mais solenes tratados de paz. Nenhuma época pode coletivamente empenhar-se com juramento a pôr a época sucessiva em uma condição que a coloque na impossibilidade de estender seus conhecimentos (sobretudo quando são tão necessários), de libertar-se dos erros e em geral de progredir no esclarecimento. Isso seria um crime contra a natureza humana, cuja originária destinação consiste justamente nesse progresso; e, portanto, as gerações sucessivas estão perfeitamente legitimadas a rejeitar tais convenções como não autorizadas e ímpias.


A pedra-de-toque de tudo aquilo que se pode impor como lei a um povo está no quesito: um povo pode impor a si próprio tal lei? Isso sim seria uma coisa possível, por assim dizer, na espera de uma lei melhor e por breve tempo determinado, com o fim de introduzir certa ordem, mas com a condição de que entrementes se deixe livre todo cidadão, sobretudo o homem de Igreja, de fazer sobre os defeitos da instituição vigente suas observações publicamente, em sua qualidade de estudioso, isto é, mediante seus escritos; e isso enquanto a ordem constituída se mantiver sempre em vigor até que as novas visões nessa matéria não tenham alcançado no público tanta difusão e crédito que os cidadãos, com a união de seus votos (mesmo que não de todos), estejam em grau de apresentar ao soberano uma proposta dirigida a proteger as comunidades que estivessem de acordo para uma mudança para melhor da constituição religiosa segundo suas idéias, e sem prejuízo para as comunidades que, ao contrário, pretendessem permanecer na antiga constituição. Mas entrar em acordo para manter em vigor, mesmo que apenas pela duração da vida de um homem, uma constituição religiosa imutável que ninguém possa publicamente pôr em dúvida, e com isso anular por assim dizer uma fase cronológica do caminho da humanidade para sua melhora e tornar essa fase estéril e por isso mesmo talvez até danosa para a posteridade, não é absolutamente lícito.


Um homem pode, de fato, por sua própria pessoa, e também em tal caso apenas por certo tempo, diferir de iluminar-se sobre aquilo que ele próprio é destinado a saber; mas renunciar a isso para si e, mais ainda, para a posteridade, significa violar e calcar aos pés os sagrados direitos da humanidade. Ora, aquilo que nem sequer um povo pode decidir a respeito de si próprio, menos ainda o pode um monarca a respeito do povo; com efeito, seu prestígio legislativo se funda precisamente sobre o fato de que em sua vontade ele resume a vontade geral do povo. Embora ele vigie para que toda verdadeira ou presumida melhora não contrarie a ordem civil, ele não pode de resto senão deixar seus súditos livres de fazer o que crêem necessário para a salvação de sua alma. [...] O monarca acarreta detrimento à sua própria majestade caso se intrometa nessas coisas, considerando que os escritos nos quais seus súditos colocam às claras suas idéias sejam passíveis de controle por parte do governo, tanto se ele faz isso invocando a própria intervenção autocrática e expondo-se à reprovação de que Caesar non est supra grammaticos,4 como, e com maior razão, se ele abaixa seu poder a ponto de sustentar o despotismo espiritual de algum tirano em seu Estado contra todos os outros seus súditos.

5. A época atual é “de iluminismo”, e não uma época “iluminada”
Se agora perguntarmos: nós, atualmente, vivemos em uma era iluminada? então a resposta é: não, e sim em uma era de iluminismo.Que na situação atual os homens tomados em massa já estejam em grau, ou que também possam ser colocados em grau de valer-se seguramente e bem de seu próprio intelecto nas coisas da religião, sem a guia de outros, é uma condição da qual ainda nos encontramos muito distantes. Mas que a eles, agora, esteja aberto o campo para trabalhar e emancipar-se para tal estado, e que os obstáculos à difusão do esclarecimento geral ou à saída da menoridade a eles próprios imputável pouco a pouco diminuam, disso temos, ao contrário, sinais evidentes. [...]


Um príncipe que não crê indigno de si dizer que considera seu dever não prescrever nada aos homens nas coisas de religião, mas deixá-los nisso em plena liberdade, e que, portanto, afasta de si também o nome orgulhoso da tolerância, é ele próprio iluminado e merece que o mundo e a posteridade reconheçam ser digno de elogio como aquele que por primeiro emancipou o gênero humano da menoridade, ao menos por parte do governo, e deixou livre cada um de valer-se de sua própria razão em tudo aquilo que é questão de consciência. [...] Este espírito de liberdade se estende também para o exterior, até o ponto em que ele deve lutar contra obstáculos exteriores suscitados por um governo que entende mal a si próprio. O governo, com efeito, tem em todo caso diante dos olhos um resplandecente exemplo que mostra que a paz pública e a concórdia da comunidade nada têm a temer da liberdade. Os homens se empenham por si mesmos para sair pouco a pouco da barbárie, contanto que não se recorra a instrumentos artificiais para nela mantê-los.


6. O Iluminismo deve se referir sobretudo às coisas de religião
Coloquei particularmente nas coisas de religião o ponto culminante do esclarecimento, isto é, da saída dos homens de um estado de menoridade que deve ser imputado a eles próprios; em relação às artes e às ciências, com efeito, nossos regentes não têm nenhum interesse de exercitar a tutela sobre seus súditos. Além disso, a menoridade em coisas de religião é entre todas as formas de menoridade a mais danosa e também a mais humilhante. Mas o modo de pensar de um soberano que favorece aquele tipo de esclarecimento vai ainda além, pois ele vê que até em relação à legislação por ele estabelecida não se corre perigo em permitir aos súditos fazer uso público de sua razão e de expor publicamente ao mundo suas idéias sobre um melhor arranjo da própria legislação, até criticando de modo aberto a existente. [...]

7. Um paradoxo: uma liberdade civil maior põe maiores limites à liberdade do espírito do povo
Todavia, também é verdade que apenas aquele que, iluminado ele próprio, não tem medo das sombras e ao mesmo tempo dispõe a garantia da paz pública de um exército numeroso e bem disciplinado, pode enunciar aquilo que uma república não pode arriscar-se a dizer: raciocinai o quanto quiserdes e sobre tudo aquilo que quiserdes; apenas obedecei! Revela-se aqui um estranho e inesperado curso das coisas humanas; como, de resto, em outros casos, considerando esse curso em tamanho grande, quase tudo nele parece paradoxal. Um maior grau de liberdade civil parece favorável à liberdade do espírito do povo, e todavia põe a ela limites intransponíveis; um grau menor de liberdade civil, ao contrário, oferece ao espírito o espaço para desenvolver-se com todas as suas forças. Portanto, se a natureza desenvolveu sob este duro invólucro o germe do qual ela toma o mais inteiro cuidado, isto é, a tendência e vocação para o livre pensamento, esta tendência e vocação gradualmente reage sobre o modo de sentir do povo (motivo pelo qual este, pouco a pouco, torna-se sempre mais capaz da liberdade de agir) e finalmente até sobre os princípios do governo, o qual percebe que é vantagem para si próprio tratar o homem, que doravante é mais que uma máquina,5 de modo conforme com a dignidade que ele tem.


I. Kant, Resposta à pergunta: O que é o Iluminismo? (1784).

lunedì 2 agosto 2010

O PROJETO DE LEI CONTRA AS PALMADAS OU, AS FACES DA SOCIEDADE DOS BOIS, JUMENTOS E SIMILARES e AS DROGAS LEGISLATIVAS (Projeto de Lei 2654/2003)


O PROJETO DE LEI CONTRA AS PALMADAS
OU, AS FACES DA SOCIEDADE DOS BOIS, JUMENTOS E SIMILARES
e AS DROGAS LEGISLATIVAS
(uma abordagem do Projeto de Lei 2654/2003)
Prof. Pietro Nardella-Dellova


O Projeto de Lei 2654/2003 (Lei contra a Palmada) indica, juntamente com a Lei 10741/2003 (EId - Estatuto do Idoso) e Lei 8069/1990 (ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente), um país sem rumo! O Projeto, de autoria da Deputada Federal Maria do Rosário, demonstra o estado de narcotização pelo qual rasteja e cambaleia a Política legislativa e executiva brasileira! Até mesmo a justificativa ao Projeto é insipiente, principalmente, quando força o Direito Comparado para sustentar a modificação proposta ao ECA. Basta ler!

Na medida em que o Estado avança no espaço familiar, percebe-se, sem qualquer dúvida, que os agentes governamentais têm a percepção de tratar com bois, jumentos e similares. É absolutamente inconcebível que o conjunto do Congresso Nacional e, sobretudo, do atual Congresso Nacional, legisle sobre o espaço familiar. Este projeto não trata da proibição das palmadas ou, como querem alguns, da proteção da dignidade da criança, mas de um expressivo reconhecimento público (já perceptível no ECA e no EId) de que estamos, todos, em um pasto!

O Brasil, desde o estranho e mítico grito “Independência ou Morte”, em 1822, ou, mais precisamente, desde 1824, com a outorga da primeira Constituição, vive o ânimo dos combalidos, dos assustados e dos que não têm para onde ir! É um estado de “constitucionalização”, processo pelo qual nada se constrói, nada se projeta e nada se alcança! Em outras palavras, por não haver, ainda, um Projeto de País, o excesso de leis demonstra-se um alagamento, um desbarrancamento, um perfil Frankenstein. E neste processo de monstrificação e ausência de pressupostos para efetivação de um Estado Democrático e de Direito, pouco se faz pela Educação – ela sim, e não a “lei das palmadas”, deveria ser o objeto das ocupações representativas.

Segunda a Deputada Federal, a Constituição Federal e o ECA, apesar de apresentarem dispositivos que protejam a criança e o adolescente (por conta própria eu indiquei também o EId) não foram capazes de efetivar tal proteção. Pretende ela com seu Projeto resolver o problema!!! São claramente idiotas (e idiotizantes) projetos de lei como este. E não se diga pelo mundo que esta afirmação significa ser a favor de espancamentos ou castigos físicos nos filhos – não é! Não sou e, em qualquer caso de maus tratos, lesão ou qualquer violência, que se usem o Código Penal e leis afins! E não se diga, também, que a lei é necessária para que se evitem abusos contra as crianças e adolescentes, em face de exemplos absurdos do dia-a-dia das televisões brasileiras (e o que não está nelas), como se todos os pais e mães fossem os ratos que aparecem em programas sensacionalistas ou reportagens que insistem em casos de esgoto. Também não! Ou os políticos brasileiros pensam tratar com bois, jumentos e similares (o que me parece bem claro) ou, realmente, a sociedade brasileira é formada por bois, jumentos e similares (o que é de se considerar).

De qualquer modo, são projetos de leis e leis que se apresentam no claro/escuro, aberto/fechado. Parece que se dirigem a um assunto, para disciplinar um tema, mas escondem a inércia e incapacidade legislativa e executiva, ou revelam uma sociedade feita por monstros – os pais! Será mesmo? Se sim, a maioria é assim?

A invasão do Estado no âmbito familiar, colocando em xeque a relação de maternidade, paternidade e, sobretudo, de afetividade, vai do ridículo ao absurdo, do estúpido ao temerário! Sim, ao temerário, pois a violência contra a pessoa vem antes de Estados invasores! E mais precisamente de Estados invasores que se ausentaram de políticas públicas efetivas – como o Brasil e, agora, transformam, com projetos de leis como este, a vida privada em privada!

A maior violência praticada contra crianças e adolescentes vem do Estado brasileiro, em quaisquer de seus níveis! Mais precisamente, vem dos representantes políticos que pouco (ou nada) fizeram para a Educação e, por isso mesmo, não há o que se comemorar com o ECA nem o que melhorar com o Projeto de Lei Anti-palmadas. Nada fizeram em termos de Saúde Pública, pois, sem que haja qualquer “pré” ou ocupação dos governos, os hospitais, centros de saúde, atendimentos médico-hospitalares ou farmacêuticos, continuam desprezando a população em geral e ofendendo a inteligência individual. Nada fizeram para a concretização do ir e vir, dos processos de liberdade (preciso citar o Rio de Janeiro, São Paulo e as regiões perdidas do país?)!

Afinal, que maior violência pode ser praticada contra um adolescente do que lhe tirar a perspectiva de realização educacional, sendo certo que não tem uma Escola pública capaz de construir um saber e um senso de cidadania? Que maior violência pode ser aplicada contra o mesmo adolescente que não terá à sua disposição uma Universidade pública? Quando há um trabalho na Educação, o mérito é dos Professores, Coordenadores Pedagógicos e Diretores que, a despeito de seus miseráveis salários, fazem por merecer o título de “Professor” e “Educador” e, em parceria, de pais e mães envolvidos com a formação de seus filhos, realizam um trabalho pedagógico e maravilhoso. Isto não tem a ver com este Estado!!! Que maior violência pode se permitir a uma criança que fazê-la nascer no chão de hospitais imundos? Há maior violência praticada contra um ancião, no caso do Estatuto do Idoso, que a miséria paga em suas aposentadorias e pensões?

A sociedade brasileira é formada por pessoas assim, que espancam seus filhos? E a Câmara dos Deputados e o Senado são legítimos neste assunto? Se for assim, realmente assim, estamos entre bois, jumentos e similares e, no Congresso, entre políticos narcotizados que, por desgraça, após uma longa noite de carreiras de pó(litica), injeções de estupidez globo(cêntrico) e tragadas de páginas dispersas da so(cio)logia e psi(colo)gia, transformam o custoso tempo Parlamentar em aberrações pornográficas e Projetos de Lei em droga sócio-familiar!
Texto completo do Projeto de Lei 2654/2003: http://www.camara.gov.br/sileg/integras/186335.pdf


Brasil, 2 de agosto, 2010.

© Pietro Nardella-Dellova é Escritor, Poeta e Professor. Coordena Curso de Ciências Jurídicas e Sociais, leciona Direito Civil e Crítica Literária em graduação e pós-graduação. Mestre em Direito pela USP e Mestre em CRe pela PUC/SP. Pós-graduado em Direito Civil e em Literatura. Formado em Direito e em Filosofia. Mestre na Sinagoga Scuola. Membro da UBE – U. B. Escritores. Escreve em várias revistas e jornais. Autor dos livros AMO (89), NO PEITO (89), ADSUM (92), FIO DE ARIADNE (org/texto 94), A PALAVRA COMO CONSTRUÇÃO DO SAGRADO (98), A CRISE SACRIFICIAL DO DIREITO (2001) e, agora, A MORTE DO POETA NOS PENHASCOS E OUTROS MONÓLOGOS. SP: Ed. Scortecci, 2009.
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