AO ASNO ESOTÉRICO(para que sua mulher não morra de depressão)
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Olhe nos olhos de sua mulher como nunca antes, abrace sua mulher nos ventos que cortam as rochas e esfriam as areias do vazio e abençoe sua mulher porque ela é a única bênção possível em sua vida: ela é o braço que segura e dá a resistência cotidiana.
Leve-a para ver as flores de que é formada, mas nunca lhe traga flores “cortadas”. Apresente a ela o perfume que reveste as flores.
Destaque folha por folha, espalhe pelos corredores e cante para ela o Cântico dos Cânticos (de Sh’lomò) em cada dia, noite e madrugada. E, cantando, ame-a e gozo solidário e multifacetado, e beba em seu umbigo o vinho de amores inimagináveis. Apresente e reconheça a coroa que a legitima como vida, e a aplauda, e a louve, e a reverencie, porque ela (e não você) é o braço do Eterno no seu mundo.
Que os seus olhos sejam dela – e os dela sejam seus! E, depois, que as mãos possam trazer o fruto do trabalho, do suor, da honestidade e da boa-fé. E possam abençoar a casa com o pão, fruto do apreço, reconhecimento e amor de quem sua.
Aprenda a levar este pão (justo) onde quer que vá e nunca chegue à casa de alguém com mãos vazias ou sujas de injustiças. Ao entrar, não avance para os ambientes internos, exceto a sala de recepção. E nunca use a cadeira sem que alguém lhe diga: <<é esta!>>
E não leve seus filmes preferidos nem suas desgraças pessoais – e nunca refira-se à sua mulher para dela desdenhar em público. Não fale de quem não esteja presente – nem de sua mulher. Ao sair, esqueça tudo o que ouviu e viu!
Volte os olhos para sua mulher, finalmente, antes que ela morra de depressão e procure o espasmo e saliva religiosos, antes que se destrua completamente nas fantasias erótico-medievais, antes que seque por tanto jejum contra demônios e diabos, e antes que engorde na ansiedade das madrugadas sem fim, e, ainda, antes que mate o tempo em programas de televisão ou em ligações telefônicas intermináveis. Volte os olhos para sua mulher, antes que ela se ofereça aos transeuntes virtuais e termine batendo contra o próprio ventre, porque ela, assim, passaria pelos esgotos da existência e pela demência religiosa, mas sobreviveria e ressurgiria como águia, enquanto você, assim idiotizado, seria privado de ar e humanidade nas águas paradas - sem vida! E sem ela, você ficaria dando nome aos bichos!
Parta disso, exatamente disto: sem a sua mulher você será pisado como verme! Sem ela, desaparecerá no vácuo e desintegrará no vazio da coisa nula em seis maldições sem fim!
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© Pietro Nardella-Dellova, in “Ao Asno Esotérico, Para Que Ela Não Morra de Depressão”, trecho original do livro A MORTE DO POETA NOS PENHASCOS E OUTROS MONÓLOGOS. Editora Scortecci, 2009. (Livraria Cultura)
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