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ברוך ה"ה







mercoledì 1 febbraio 2012

Pessach napolitano ou, uma Hagadá alternativa




PESSACH NAPOLITANO ou,
UMA HAGADÁ AlTERNATIVA
por Pietro N Dellova

Então, despertei (no sono de uma tarde) quando as velas foram acesas pelas delicadas mãos femininas, e estávamos todos ali, reunidos em torno de uma mesa cheia de pratos deliciosos (e sem chametz!).

Coisas significativas para um Sêder de Pessach! (Não, Pessach não é a “Páscoa”, ainda que qualificada como “judaica”!!!! Pessach é Pessach, e Páscoa é outra coisa!) Uma mesa possível apenas a um judeu napolitano sem preocupação com o Vesúvio, que canta o dia inteiro “O Sole Mio” e abençoa os filhos com cócegas, gargalhadas e, também, com segredinhos hereditários da Torá! Mesa feita por uma judia veneziana que mantém delicadeza, fineza e os detalhes musicais de quem navega em gôndolas e canta o dia inteiro “Hatikvá”, abençoando as filhas tão somente com sua presença musical!

E chamei os grandes e os pequenos, em torno desta mesa de madeira rústica (porque precisa durar para sempre!), para ocuparem suas cadeiras de madeira rústica (porque precisam durar para sempre!). Em uma mesa de Pessach de um judeu napolitano todos podem rir, gargalhar, jogar papelzinho uns nos outros, interromperem a fala, chorar, cantar (porque precisa durar para sempre!!!!). Não há espaço para a formalidade desafinada, seja da Idade Média ou da Europa oriental, nem para cara feia (porque isso precisa durar para sempre!!).

E começamos a relembrar o tempo em que éramos todos escravos e servos no Egito, em que o trabalho era uma opressão e o sol derretia nossa pele, carne e alma, feitos em sangue pelo estalo do chicote. O tempo em que tínhamos que alimentar os carneirinhos e ovelhas dos norteafricanos porque eram bichinhos sagrados e nós, amarrados completamente, éramos reduzidos a vermes e escória.

Éramos coisas entre coisas! Relembramos, também, que a vida era não vida, que a existência naquelas terras era amarga como o fel. Relembramos, ainda, que nossos pés fediam de tanto barro que tínhamos que amassar para sustentar os desvarios faraônicos e a perversidade dos seus fiscais. E, relembramos, sobretudo, de como nossa boca secava no sal, na areia e no vinagre - e a voz ficava embargada, matando nossos tenores, barítonos, baixos, sopranos e contraltos e nossos instrumentos musicais deterioravam em desuso.

Nossas mulheres gemiam diuturnamente e nossos filhos, contaminados com dengue e malária, desdentados e cheios de vermes, tremiam por toda a noite, e durante o dia ficavam nos cantos.

E, ainda, à mercê de um faraó que acordava de vez em quando, das suas sombras noturnas, querendo lançar nossos filhos no precipício ou afogá-los no Nilo. Ele vivia querendo transformar nossas crianças em cuscuz para seus abutres. E nós não podíamos tocar-lhes porque nossas mãos estavam sangrando, e nossos pés em carne viva. Nossos olhos enceguecidos não podiam ver como nossas mulheres eram belas!

Enfim, os fiscais gritavam o dia todo, e a noite toda. Eles tinham suas tavernas e o vinho, e nós não tínhamos nem um boteco nem uma pinguinha naquela sujeira egípcia!

Então, parei destas lembranças amargas!

Olhei para o centro da mesa (de madeira rústica porque precisa durar) e vi as Matzôt – as nossas Matzôt! E olhei nos olhos dos filhos, e resmunguei a minha Hagadá napolitana, feita apenas de duas palavras. Uma delas é Càspita! (a outra, não revelo!) e comecei a rir o riso dos vivos, ao ponto de perder o fôlego e ficar engasgado, comecei mesmo a gargalhar, vermelho (e sem pinguinha) e joguei carinhosamente a Kipá sobre eles, e ficamos jogando coisas uns nos outros.

E todos nós começamos a rir, a rir, a rir e a rir, em risos sonoros (porque isso precisa durar para sempre!!!)

Porque as Matzôt me fizeram lembrar que um dia paramos de gemer como doentes e, paramos, também, de ranger como coisas e erguemos a cabeça, olhamos para cima e começamos a gritar, a desobstruir nossas gargantas, e começamos a andar na Luz, e lembramos que tínhamos Avraham, Ytzchak e Ya’akov como pais e que seu D’us era nosso D’us, e os segredos da fundação do mundo estavam em nossas mãos, em nossa alma e em nossa pele!

E uma força veio, assim, aos músculos e ao universo interior! Despertamos neste dia e acariciamos os cabelos de nossos pequenos filhos e o rosto de nossas esposas - e isto nos robusteceu! Não fomos amassar barro nem fazer tijolos naquele dia e, enquanto os egípcios estavam lambendo os cães, resolvemos comer os seus carneirinhos "sagrados" por toda noite, fixando-os nos olhos (refiro-me aos egípcios!) e transformamos todo amargor, brutalidade, opressão e barro, em energia efetiva!

E, logo, em um único bastão concentramos as Forças da Criação para fazer justiça de dez arpões contra nossos inimigos e seus chicotes! E fomos, assim, feito gente, para a nossa Liberdade no deserto, deixando todo o Egito de joelhos, em prantos, na escuridão fúnebre, com suas cabeças de vento perverso e seus cães deificados!

Pois bem, Pessach é também isso: virar as costas para aqueles montes de pedras (e excrementos) fedorentas do Egito que formam pirâmides para faraós tresloucados e mumificados, que atraem gente incauta e estúpida. Pedras, montes de pedras e montes de ossos em riso mórbido perpétuo. Virar as costas significa deixar, também, dez pragas (menos uma, por humanidade) para trás, e sair rumo à liberdade, que só é possível no encontro direto e íntimo com a Torá e com a Luz. Por isso mesmo, comer Matzá é uma delícia sem fim!!!!

Nos dias de hoje, um monte de gente cria, ainda, seus castelinhos e ossuários, suas pirâmides malcheirosas, seus labirintos fermentados de estupidez, loucura, deficiência, opressão e betume asfáltico religioso, querendo nos arrastar...

E por absoluta humanidade, substituo a praga dos primogênitos (que me entristece muito) por uma sonora, eloqüente e evidente flatulência de desprezo, pois a liberdade é cara, muito cara, caríssima. Nove pragas e flatulências sem fim aos que ficarem brincando com os ossos faraônicos e fizerem casinhas na areia do além Nilo! Todas as pragas (mais uma!) para os que nos penduraram, e nos queimaram, e destruíram nossas muralhas e nosso Beit HaMikdash, e nos caluniaram, e nos perseguiram em nome das criações de Constantino, e nos sufocaram, e queimaram nossos rolos, e nos proibiram de falar hebraico, e destruíram nossas casas, e nos fizeram andar de lugar em lugar, e nos levaram aos campos de concentração e nos transformaram em pó, e explodiram suas psicoses em nossos lugares públicos de Jerusalém.

E qual o porquê das flatulências e gases mortais? Porque foi tudo o que descobriram dos opressores "cabeça de cão", foi tudo o que criaram e deixaram em seus sarcófagos e, ainda, foi toda a herança medieval, nazista e fascista. Mas nós, carregando a alma de nossos antepassados nos tornamos um Povo, um Leão, um Suplantador - e resolvemos viver!

Assim, com amor pela vida nos tornamos uma Nação eterna e nos orgulhamos disso!!!! E em cada Pessach transferimos aquela mesma alma aos filhos, pequenos ou grandes - mas sempre amados, muito amados (porque isso precisa durar para sempre!!!).

Nossos reis não foram idiotas cobertos de tinta, mas, foram Poetas e Sábios, guerreiros e plenos das Forças da Criação!!! Nossos reis venceram gigantes com estilingue e pedrinhas, e nossos inimigos não resistiram a uma nota da lira davídica ou a um "bate-papo" salomônico...

E continuamos, assim, de costas para os tijolos da perversidade e desprezando os ossos egípcios roídos por deuses cães!

Ecco!!!!

E fiz meu primeiro brinde desta tarde: L’chaim! E disse ao filho: “abra sua boca e esquente suas cordas vocais, e cante uma canção em tenor absoluto – qualquer canção, pois somos livres para cantar qualquer canção” (porque isso precisa durar para sempre!).

E disse, também, a uma das pequenas filhas: “arme o arco de seu violino e lance-o para as Alturas, corte as nuvens e atinja as Forças absolutas do Eterno, pois Ele é o D’us de nossos pais e os cães foram enterrados nos subterrâneos das pirâmides” (e isso precisa durar para sempre!).

À outra das pequenas disse: “abra seu piano, dedilhe uma melodia, qualquer nota, qualquer tecla, mostre suas mãozinhas fazendo música e criando, assim, a prece que nos eleva e nos constitui (porque isso precisa durar para sempre!).

E, adiante, disse ao filho do meu filho: “vem, pequeno, seu nome é o nome do profeta a quem dedicaremos esta quarta taça de vinho, porque o vinho é nosso, e abrimos a porta a ele, porque somos livres e, ainda, germinaremos em nosso meio a completude sefirótica de Mashiach” (e isso durará para sempre!!)

Pessach de 5770 (março 2010)

© Pietro Nardella-Dellova, in TORÁ, BOLO DE FUBÁ, CAFÉ e CALÇADA, 2012 (in press)

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