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ברוך ה"ה







sabato 1 giugno 2013

Sem Vandré nem Lindberg: o Movimento é Sexy (Povo, Partidos, Vândalos e Fascismo), Marcus Fabiano Gonçalves


SEM VANDRÉ NEM LINDBERG: O MOVIMENTO É SEXY
(POVO, PARTIDOS, VÂNDALOS E FASCISMO)


 

por Marcus Fabiano Gonçalves

Agora não adianta nenhum pomadista querer chorar as pitangas do banimento dos partidos políticos da chamada Revolta dos Centavos ou do Vinagre. Foi um fato lamentável, mas fez parte de um BASTA às mentiras do discurso oficialesco e do servilismo governista. Esse é um Movimento de DEMOCRACIA DIRETA, ao qual a representação partidária só compareceu residual e adesivamente. E dado o seu caráter massivo, o acirramento de ânimos algumas vezes tomou o lugar do diálogo, o que não é de modo algum defensável, embora compreensível. Porém não é verdade que nesse Movimento não há representações de outros tipos. Ao menos duas representações autênticas e legítimas se operaram naturalmente: os estudantes representando os trabalhadores e as metrópoles representando as periferias.

Um longo cansaço acumulado com os muitos descasos regurgitou a sua azeda insatisfação sobre um sistema de representação institucional que apodreceu graças às alianças espúrias que transformam os interesses dos representados na ganância corporativa dos representantes, essa casta sem direita nem esquerda que se incrustou nas burocracias legislativas e executivas e que se habituou a oferecer mais explicações do que resultados, promovendo concessões e evitando autênticas rupturas, vivendo da permanente ocultação do seu fisiologismo em slogans publicitários. E por falar em publicidade, vou direto ao assunto: querem uma fonte orçamentária para financiar a REDUÇÃO DA TARIFA ou o tal PASSE LIVRE? Pois então que os Governos tirem esse dinheiro da PUBLICIDADE INSTITUCIONAL! Os anúncios bilionários dos Governos nas TVs, nos jornais, nas revistas e nas rádios têm um propósito muito superior à propaganda: buscam comprar o silêncio das oposições na imprensa, impedindo o jornalismo mais independente e tornando-se a fonte de renda lícita de uma imoralidade escandalosa e absurda. Ademais, com o fim da publicidade institucional também seriam amputadas as máfias das AGÊNCIAS DE PUBLICIDADE que recentemente vimos expor toda a sua podridão no julgamento do Mensalão.

Apenas os incautos não enxergam nesse Movimento um repúdio violento à inércia corrupta de uma representação que só seria purgada de seus males caso fosse vigiada de perto por uma opinião pública formada e esclarecida pelas escolas que não vieram e sequer melhoraram. Loteado pelos setores corporativos do capital, o sistema representativo esclerosou-se e já passa a ser devorado pelo fundamentalismo religioso. Opor esse diagnóstico à suposta vagueza da pauta do Movimento é não compreender a parcela de responsabilidade que cabe à própria política na produção de uma insatisfação incapaz de se elaborar perfeitamente. Todavia, apavorada com os milhões de pessoas na rua, a própria Presidente deu uma redação final a essa pauta em seu pronunciamento tíbio, tardio, dissimulador e protocolar. Foi ela quem RECONHECEU publicamente como pauta do Movimento: a corrupção, a educação, a saúde, a transparência, a infraestrutura e a mobilidade urbana.

Não é verdade que o repúdio aos partidos provenha principalmente de uma direita fascista infiltrada nas manifestações. Antes de alimentar esse inimigo imaginário, a esquerda há de rever os seus modelos ortodoxos de partido (o de Lênin, a vanguarda bolchevique, e o de Gramsci, a hegemonia no Bloco Histórico) sem temer o desconhecido desse novíssimo espaço público que mescla o real ao virtual e que desmascara o comércio vil das utopias ao preferir a guerrilha da informação instantânea, um modo inédito de se fazer política que felizmente começa a abandonar a lenga-lenga do sonho para suportar o altíssimo custo cognitivo de se permanecer desperto e vigilante, sem o MEDO tolo dos fantasmas fabricados e sem a ESPERANÇA pueril nos salvadores carismáticos que ousam estar acima da Constituição. MEDO e ESPERANÇA, duas palavras oriundas do discurso teológico: a primeira prestando-se a manipular espectros tão distintos como o temor ao golpe ou ao socialismo, a segunda administrando a recomendação de uma paciência dócil e bovina.

Os Poderes da República só continuam de fato independentes porque o Judiciário há pouco mostrou, com louvável clareza, que certas relações corruptas entre o Executivo e o Legislativo tiveram uma natureza criminosa. Olhando só as instituições, é esse o desolador quadro clínico da nossa democracia vegetativa. Todavia, quando a sociedade é inserida nas análises, surgem alguns indícios de uma outra inclinação fascista no exercício do poder. Vemos os slogans populistas brandidos por publicitários (especialistas em propagandas de detergente) com o intuito de dissimular uma aliança promíscua entre o capital privado e o Poder Público. Essa é, pois, a cara maquiada da nova direita à qual a velha esquerda agora se submete: a direita dos interesses financeiros sempre atendidos como prioritários e em detrimento das demandas sociais acalmadas com medidas paliativas e magnânimas. Tal mistura despolitizante entre a mídia e a subserviência conduz a uma democracia analfabeta e meramente nominal, pervertida ainda pelo multissecular parasitismo de nossas elites econômicas que agora se travestem de responsabilidade social e ambiental, de marketing cultural e desportivo. O seu subproduto mais abundante é a instauração de uma ética do favor capaz de transformar direitos incompreendidos como tais em prestações dadivosas às quais se deve uma eterna gratidão na forma de voto: é a troca injusta da beneficência pelo reconhecimento da benemerência. E tudo de um jeito sempre meio esquisito. Certa vez um sapateiro resumiu para mim a sua motivação para votar em Lula: “porque ele é uma mistura de Odorico Paraguaçu com Sassá Mutema”, disse-me aquele Bandarra. Claro que as coisas não são bem assim. Mas é evidente que também assim o são, ao menos em parte.

Carente de planejamento e infraestrutura, e alijada dos setores de ponta, como a tecnologia e a ciência, a economia segue resignada o caminho de nossa história colonial: ciclo do ouro, ciclo do açúcar, ciclo do café, ciclo da borracha e agora o ciclo da soja. Não vou então me deter na denúncia das privatizações camufladas que ocorrem nas incontáveis negociatas dos megaeventos – Copas e Olimpíadas. Prefiro chamar a atenção para algo bem mais antigo: a complacência com a falta de uma reforma agrária que hoje transforma a desigualdade histórica do latifúndio em um tema étnico relacionado aos indígenas e aos quilombolas. Nada mais ardiloso: sem uma solução distributiva, a questão da terra passa a ser um assunto de minorias culturais! Ora, essa é uma máquina lucrativa, voltada a fabricar instabilidades e salvadores, uma máquina que não quer resolver problemas estruturais, mas sim convertê-los em idiossincrasias que enriqueçam os atravessadores do jogo político sempre dispostos a responsabilizar um sistema abstrato e convenientemente apresentado como sem partido nem maiorias parlamentares, tal qual essa de que efetivamente dispõe o Governo Federal no Congresso. É nesse panorama atroz que se desenvolve uma cidadania muito mais voltada ao consumo que à educação, uma cidadania orientada a valorizar o cartão de crédito (ou de programas sociais) e a desprezar o título eleitoral e a escola. Por isso não é de se estranhar que os partidos tenham sido enxotados em bloco das manifestações, provando a letalidade do próprio veneno imbecilizante que lentamente inocularam no tecido de um corpo social já raquítico, o mesmo corpo que é periodicamente abusado em sessões de sadismo eleitoral.

Imediatamente identificados com os Governos, os partidos fracassaram ao buscarem tutelar um Movimento suprapartidário de indignados. Ao contrário do que se alegue e apesar de alguns focos conservadores, tratou-se sim de um Movimento majoritariamente progressista, um Movimento diretamente inspirado em outros episódios internacionais ligados ao MANIFESTO DOS INDIGNADOS proposto por Stéphane Hessel, um membro da resistência à ocupação nazista, sobrevivente do campo de concentração de Buchenwald, defensor da causa palestina e dos imigrantes sem documentos e um dos redatores da Declaração Universal dos Direitos do Homem de 1948. Alguém ousará insinuar que um homem desses, que incitou agitações pelo mundo inteiro com a força de seu exemplo e de seus escritos, é um fascista? Francamente!

Contudo, a indignação na Revolta dos Centavos ou do Vinagre teve aqui a nossa cara, impregnando-se da espontaneidade de duas das manifestações populares mais pujantes do Brasil e mesmo do mundo: a torcida de futebol e o bloco de carnaval. Além dessas, uma terceira forma de manifestação, essa bem mais recente, também compareceu ao Movimento: a parada gay, reforçando assim o caráter antifundamentalista dos clamores que incorporaram o repúdio às sandices de Marcos Feliciano. Entretanto, a obtusidade de certa militância tradicional não teve alcance interpretativo para compreender que um tal Movimento jamais se converteria em uma passeata que culminasse em um comício. Os partidos pequenos não compreenderam a tempo que as manifestações não conseguiriam discernir as suas agremiações minúsculas e que, ao mirar o sistema representativo como um todo, eles também seriam atingidos. Alguns desses pequenos partidos de esquerda, que jamais tiveram experiências viciosas com o poder, foram violentamente repelidos pela multidão. Reitero: o ocorrido foi doloroso e condenável. Além de fisicamente machucados, alguns militantes históricos ficaram profundamente magoados ao experimentarem subjetivamente aquele rechaço como uma espécie de ingratidão aos seus serviços prestados à democracia. Mas há para isso uma explicação: tais partidos foram confundidos com o desempenho governista do PT, alvo maior e prioritário do descontentamento generalizado. De mais a mais, tornou-se há muito insofismável o peleguismo que aparelhou diversos órgãos de classe e movimentos sociais organizados, muitos já habituados a viver de mamatas editalícias e outras verbas públicas. Isso sem falar do governismo que domina a CUT, essa pá de cal jogada sobre o cadáver do nosso sindicalismo. E é absolutamente escandaloso que, na última hora, já quando o Prefeito Haddad mudava o seu discurso em relação ao aumento das passagens, que o PT tenha convocado, junto com os seus militantes, as entidades de trabalhadores, de agricultores sem-terra e de estudantes, como se tais organizações independentes fossem uma brigada emergencial a ser mobilizada em momentos de abalo à credibilidade do Governo. Essas conjunturas devem futuramente integrar uma análise mais acurada do nosso primarismo político. Isso porém não deve jamais ser chamado de FASCISMO nem deve ser incorporado a argumentações que, pretendendo explicitamente salvar a pele dos Governos responsáveis pela violência policial, acenem com os rumores distrativos de um GOLPE DE ESTADO.

Onde já se viu Golpe de Estado com mais de um milhão de pessoas na rua, dentre as quais uma imensa quantidade de homossexuais? Teriam as Forças Armadas se tornado uma Instituição interessada em fazer um golpe com gays e “baderneiros”? Essa tese não merece crítica: ela é simplesmente ridícula e facciosa, industriada por interesses eleitoreiros dos partidos governistas (PT, PMDB, PSDB) que foram em bloco abominados pela sociedade civil desorganizada capaz de se mostrar crítica e atenta em seu inconformismo. O verdadeiro FASCISMO nasce de uma associação hedionda entre (1) o triunfalismo de um programa, (2) o uso massivo dos meios de comunicação e (3) o monopólio do poder militar estatal. Responda à seguinte pergunta e você encontrará onde realmente está o germe do fascismo nisso tudo: durante os confrontos, do lado de quem estiveram (1) a Rede Globo, (2) o lema tautológico do “País Rico & Sem Pobreza”, (3) os Batalhões de Choque das Polícias Militares e (4) a obediência das tropas federais da Força Nacional que fazem a segurança da Copa das Confederações? Do lado dos Governos ou do lado do povo? Pois bem!

A tese que propaga o rumor de um suposto golpismo ou fascismo do Movimento provém da mesma fonte que sustenta ter sido o Mensalão um GOLPE DAS ELITES. É a tese purista de uma esquerda que se acredita acima do bem e do mal, uma esquerda que zomba do Direito porque acredita que este não passe de uma mera política mais hermética e técnica, imaginando-se conduzida por uma causa indiscutivelmente superior, à qual todos os inimigos devem se curvar. O discurso dessa causa é de um messianismo disfarçado e de fundo propagandístico, redentor nas suas promessas mas subserviente ao mesmo poderio econômico que outrora prometeu combater na sua prática. É um discurso que agrada banqueiros e latifundiários ao mesmo tempo em que descontenta professores e operários.

De repente, não mais que de repente, à margem da esperança da publicidade e das lideranças partidárias tradicionais, surgiram A MASSA ANÔNIMA e os ditos VÂNDALOS – esse gado eleitoral selvagem, sem curral nem boiadeiro. Uma análise minimamente responsável não pode acatar os rótulos criados pela imprensa para difundir o pânico que tanto interessa aos Governos para o sufocamento da Revolta. Cumpre então perguntar: quem são de fato esses vândalos? Certamente um conjunto heterogêneo e mesmo inapreensível de pessoas aborrecidas e furiosas. São vândalos os trabalhadores chicoteados no trem e no metrô para caber em um vagão superlotado. É vândalo o jovem burguês com problemas edipianos que atacava os interesses do seu pai empresário na Prefeitura de São Paulo. É vândalo o faminto da cracolândia que saqueou a sua próxima pedra de crack. São vândalos os anarquistas que formaram uma linha de frente contra a polícia que iniciava agressões indiscriminadas. São vândalos os bandidos dos “bondes” que apavoraram a todos com seus assaltos. É vândalo o jovem do mundo digital que com muita adrenalina experimentou na realidade física as emoções dos personagens de seu videogame. São vândalos os punks que, como se viu, além de lançarem paus e pedras, não hesitaram em formar um cordão de isolamento para evitar que fosse linchada uma equipe de PMs sem munição que estilhaçou um banco Itaú para se refugiar no centro do Rio. Todos esses e ainda muitos outros são e foram os vândalos. Nesse Movimento, o vândalo foi a vanguarda do vinagre, a fúria sem cara da rejeição enérgica e a demonstração irrefragável de que aquela REVOLTA não era uma pacata romaria: ali estavam todos decididos a fazer o poder tremer. E o poder tremeu. Contra as reuniões intermináveis e as comissões inconclusivas de governos e partidos, surgiu esse mal chamado vandalismo: a contraviolência imediata que, sem provocar mortes, ameaça e reprova o poder instituído em sua capacidade de dar respostas efetivas e principalmente preventivas à insatisfação, deixando atônitos os atravessadores da representação que se habituaram a ser comissionados pelo quinhão de legitimidade que confiscam das causas que simulam defender.

O colapso das ideologias difundiu uma retórica dos “direitos” hipócrita e homogênea, capaz de tornar idênticos os programas à esquerda e à direta, prova cabal de que o poder econômico colonizou a política com o sensacionalismo das causas urgentes, coisa que no fundo ludibria o povo do continuísmo estrutural de que ele necessita para se exercer em seu próprio benefício: os donos dos bancos precisam dos chefes das armas que os deixem em paz nos seus negócios que envolvem a predação da coisa pública. Então que ninguém se engane com altas expectativas: se nesse salto para o desconhecido todos caírem de bunda (ou de boca) não há problema algum: o intenso aprendizado político desses dias tão turbulentos já terá sido muitíssimo válido, ultrapassando em muito o estéril “socialismo da granola” que certa elite milita como alívio humanitário das suas culpas em ONGs e outros espaços ocupacionais, ornamentais e frequentemente corruptos da democracia.

Esse é sobretudo um movimento sem Vandré nem Lindberg, sem trilha nem líder. Quando indaguei a um jovem manifestante na Avenida Presidente Vargas o que ele achava de tudo aquilo, ele me respondeu sorrindo: O MOVIMENTO É SEXY. Foi assim que completei a sentença que dá título a esse texto: sem Vandré nem Lindberg, o movimento é sexy. De fato. E não por ser sensual e bem humorado ele deixa de ser sério em seus propósitos. É um movimento dos milhões de corpos desejantes e sofredores que se encontraram reclamando os seus deslocamentos horizontais pacíficos e tranquilos. Portanto, é também um Movimento simultaneamente pela liberdade e por alguma noção difusa de igualdade. É um movimento de cidades como lugares concretos da existência feliz – e não de abstrações reivindicadas pelos discursos totalitários como a Nação ou o Estado. Em meio às dezenas de demandas corporativas que transformaram a política num bazar de lobbys, a causa da mobilidade urbana mostrou-se portadora de um núcleo de universalidade capaz de aglutinar a indignação pelo cínico desleixo com muitos outros domínios da coisa pública.

Com efeito, não há muito o que dizer a quem indague sobre o futuro desse Movimento. Pessoalmente creio que ele já se tenha esgotado. Mas quem se arvore a dizer para onde ele vai, talvez deva ser lembrado de que não foi capaz de dizer que ele viria. Os partidos o subestimaram e agora lamentam terem sido hostilizados e banidos do que se construiu à margem de suas capacidades de mobilização: terão de lamber as suas feridas e lidar com isso. Que alguns militantes reduzam o ocorrido à caricatura queixosa e vitimista de um “fascismo” é aceitável. Porém, que os cientistas sociais se mostrem dispostos a endossar o mito do POVO FASCISTA CONTRA OS PARTIDOS é execrável. Como é ainda mais triste notar as suas ferramentas analíticas toscas ou completamente ineptas na incorporação de fenômenos quase sempre ausentes em suas interpretações tão elaboradas para falar do Estado e patéticas para enxergar os elementos sociais cuja compreensão demandam finas habilidades teóricas relacionadas à moda, ao cinema, à fotografia, à música, às artes, aos esportes, ao carnaval, à sexualidade, à violência urbana, ao design, à psicologia social, aos sentimentos morais e aos impactos das novas tecnologias de comunicação e interação na construção identitária.

Pela primeira vez viu-se um movimento no qual a opinião pública não mais aceitou ser a opinião publicada e pôde fazer algo além de simplesmente lastimar a manipulação: repórteres foram impedidos de trabalhar porque estavam MENTINDO a serviço de corporações cúmplices dos interesses econômicos que encontraram nos Governos os seus capachos mais servis. E mentir hoje significa antes de tudo selecionar e editar imagens na construção artificiosa de uma versão. Eis outro dado valioso a ser considerado: também pela primeira vez a supremacia tecnológica do “ao vivo” apassivante da TV foi afrontada pelo protagonismo do “vivido e compartilhado”. E isso se percebe na discrepância entre as análises feitas por aqueles que assistiram aos eventos editados pela TV e por aqueles que os vivenciaram no fluxo das ruas e os acompanharam simultaneamente pelas narrativas das mídias em rede. Uns ficaram preocupados com o descontrole dos vândalos, outros atuaram na construção sinérgica de um povo à procura da sua identidade. Foi assim que, na guerra semântica pela estigmatização dos vândalos, o tiro acabou por sair pela culatra: o primeiro espancamento dos manifestantes em São Paulo produziu uma onda de solidariedade empática em todo o Brasil, acirrando a indignação e desencadeando uma sincronização das manifestações por várias cidades.

Durante a primeira manifestação no Rio, em uma rápida postagem feita da Cinelândia, chamei a invasão do Congresso Nacional em Brasília de A QUEDA DA BOSTILHA. Mais de duas centenas de pessoas voluntariamente se identificaram com o humor desse trocadilho, o que só indica que a repulsa e o nojo são as principais formas de expressão da INDIGNAÇÃO, um sentimento que ultrapassa a razão crítica dos argumentos para se alojar nas vísceras responsáveis pelo ato excretor. Estar INDIGNADO significa: não mais considerar visceralmente os seus representantes dignos de confiança no exercício da gestão dos interesses comuns de uma comunidade cooperativa. Assim, a energia social desse movimento provém de uma disposição básica empenhada em recusar um líder e um centro para se afirmar soberanamente como a voz de uma comunidade unida apesar da sua imensa diversidade. Essa comunidade (povo, massa, multidão) foi suficientemente politizada para rechaçar qualquer tutela adesiva, direcionante e cooptadora, afirmando com uma radicalidade surpreendente o seu pertencimento comunitário como o fundamento maior e anterior a qualquer posicionamento partidário. E foi sem centro nem líder que a sociedade desorganizada sublevou-se contra os partidos que governam mal o Estado.

Na manifestação da Av. Presidente Vargas, ficou claríssimo que não existe contingente policial que pudesse enfrentar ou dispersar MAIS DE UM MILHÃO de pessoas reunidas. Por isso a tática da polícia foi covarde e traiçoeira: emboscar e atacar sem motivo uma multidão que já retornava para as suas casas. O objetivo maior: difundir o medo. O resultado prático: organizar o ódio contra os Governos e seus partidos, tal como começou em São Paulo. A condição para que a PM fizesse isso: as tropas da Força Nacional (sob o comando do Governo Federal) que já estavam de prontidão para a Copa das Confederações e que poderiam ser mobilizados caso a batalha campal contra o povo desarmado se tornasse mais difícil. No Rio, entre surtos de depredação e raiva contra a pusilanimidade da PM, uma palavra de ordem era escandida em uníssono: “ES-COLA NÃO! ES-COLA NÃO!” E os ditos vândalos de algum modo compreenderam a mensagem: a escola foi poupada.

O vinagre, a pedrada e a postagem: milhões de pessoas, centenas de faixas e cartazes. Por óbvio, revolta não é revolução. Mas de vez em quando convém tirar o pó dessa palavra que serve para falar de astros e aterrorizar tiranias, apesar de tudo estar sendo feito estritamente dentro da nossa Constituição, que preceitua no parágrafo único de seu artigo 1º: “Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente”. No plano global das instituições, e até gramaticalmente, esse “ou” é na verdade um “e”: ele propõe uma soma cooperativa, não uma disjunção substitutiva. No plano concreto dos últimos acontecimentos, depois de décadas e décadas de atenção à letargia dos nossos partidos, esse é o momento para se recordar que a representação existe para prestar serviço ao povo, e não ao contrário, pois quem se faz PRESENTE pode dispensar o seu REPRESENTANTE. Algo tão simples como isso que está na Constituição: OU DIRETAMENTE.

Rios de tinta correrão em teses e artigos científicos na tentativa de interpretação desse Movimento. A magnitude de um evento social que bateu em mais de 10 vezes o Comício das DIRETAS JÁ não pode ser tratada pela leviandade dos interesses de ocasião. Alguns partidos procurarão dar a esse movimento o sentido de um FORA DILMA, o que será uma impostura abusiva. Outros tentarão defender o Governo da ameaça de um Golpe inexistente, o que será uma reação ainda mais patética e oportunista. Ambas as posições extremadas pretenderão manipular o povo sem ouvi-lo ou procurar implementar os meios para educá-lo. Entre fantasmas e promessas, acredito que a única coisa sensata a ser dita infelizmente não encontraria momento oportuno, maturidade política nem grandeza no espírito dos homens públicos para se viabilizar em uma grande, longa e minuciosa reforma social e política de remoralização do Estado brasileiro: CONSTITUINTE JÁ!

Apesar de um certo desconsolo, é com os partidos de esquerda que eu me identifico. Mas, ao que tudo indica, o leninismo carrancudo e de almanaque dessas organizações vem dando provas de que elas são péssimas em análises quando a matéria é o povo real – esse detalhe da democracia. Parece que os nossos candidatos à Vanguarda Revolucionária perderam não só o trem da história, como também o bonde, o ônibus, a barca, o metrô, a lotação, o táxi e a bicicleta. A sua pedestre tristeza por terem sido rejeitados pelo mesmo povo que almejavam liderar, essa espécie de orfandade hegeliana da mãe História, também se pode compreender por sua inclinação em fantasiar inimigos. Porém a nova direita não quer mais saber de Vandrés nem de golpes: ela é o capital sem cara que perpetua suas relações imorais e ilegais com o Poder Público Violento. Resta saber por onde andará a Novíssima Esquerda, já que o termo Nova Esquerda tornou-se tão velho que já ajuda a produzir esse estado de coisas que aí está.

Gostaria ainda de dizer a quem teve a paciência de acompanhar esse texto que ele é escrito por um professor universitário que se sente orgulhoso em contar que ingressou aos 14 anos de idade na Juventude do Partido Comunista Brasileiro (hoje extinto). Foi como dirigente da União da Juventude Comunista, entre aulas de russo e de filosofa, que aprendi a pensar os problemas da política face à degeneração dos modelos de organização partidária. Foi também como jovem comunista que descobri em certos poetas a poderosa fonte de uma lucidez crítica que sempre procurou, como no caso de Maiakovski, colocar-se ao lado do povo e contra a demagogia das burocracias estatais e partidárias. E ao agradecer a leitura, encerro esse texto com um poema de Hilda Hilst, não por acaso dedicado ao dissidente soviético Andrei Sakharov.

* * * * *

de cima do palanque
de cima da alta poltrona estofada
de cima da rampa
olhar de cima

LÍDERES, o povo
Não é paisagem
Nem mansa geografia
Para a voragem
Do vosso olho.
POVO, POLVO
UM DIA.

O povo não é o rio
De mínimas águas
Sempre iguais.
Mais fundo, mais além
E por onde navegais
Uma nova canção
De um novo mundo.

E sem sorrir
Vos digo:
O povo não é
Esse pretenso ovo
Que fingis alisar,
Essa superfície
Que jamais castiga
Vossos dedos furtivos.
POVO. POLVO.
LÚCIDA VIGÍLIA.
UM DIA.

[Hilda Hilst]

Prof. Marcus Fabiano Gonçalves

Programa de Pós-graduação em Direito Constitucional – UFF

Programa de Pós-graduação em Sociologia e Direito - UFF

 
*foto de Pablo Vergara

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