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ברוך ה"ה







domenica 14 dicembre 2014

PASSIONE ou, PORQUE MINHA AMIGA TEM ASAS

PASSIONE ou,
PORQUE MINHA AMIGA TEM ASAS
por Pietro Nardella-Dellova


Encontrei a amiga em uma manhã de sol, brisa suave e muita vida para viver, pois, afinal, não tenho tempo para morrer entre vampiros, asnos e vias públicas. E ela, então, perguntou-me sobre a palavra passione e seu sentido no modo italiano de viver.

Va bene! Não tente traduzir esta palavra em português, seja do Brasil, de Portugal ou de Angola, nem em inglês britânico e, menos ainda, em inglês americano! Em alemão não é possível sequer pensar em passione. Para o hebraico também não se pode traduzir e, por falta de uma palavra, o rei Salomão escreveu um livro todo sobre passione: o Cântico dos Cânticos (Shir HaShirim)! Enfim, não há tradução para passione! Seria preciso viver alguns anos na Itália, da Sicilia aos extremos alpinos.

Seria preciso caminhar entre construções de pedra e ouvir pessoas cantando com suas janelas abertas e passar muito tempo em Napoli, em suas vias estreitas, descobrindo como nascem tenores e, quem sabe, beber em Milano com seu encanto feminino e multifacetado. Seria preciso ir a Firenze e descobrir o que é Rinascimento. Ou, simplesmente, ver um filme, talvez, Cinema Paradiso, Il Postino e Il Poeta ou La Vita è Bella!

Passione no modo italiano inclui variados aspectos, do tipo mergulhar de boca na mulher amada, promover o bem integral da mulher amada, fazer com que a mulher amada voe e, diante disto, aplaudi-la com entusiasmo incontido. É voar com a amada sobre os mares e fazer com que ela veja estrelas um montão de vezes até ficar vermelha e lançada sobre os lençóis com os cabelos esguedelhados – colorida e maravilhosa, como pintura feita à mão. Passione é viver um dia com a amada como se fosse a própria eternidade...

É uma experiência única, singular e linda! Não há esta coisa de chorar pelos cantos, beber até morrer, de magoar-se ou de prantear, transformando tudo em música sertaneja, cachaça e churrasco, isto é, em monólogos, rezas sem fim, pedidos a Santo Antonio e programas de auditório, com gritinhos e tudo. Não, de fato não! A experiência da passione é algo superior, capaz de transformar animais em gente, transeuntes em pessoas – é alguma coisa entre o Jardim do Éden e os desertos dos enfrentamentos humanos. É roubar o fogo de Zeus e entregar, doar, experienciar as musas noite adentro – ainda que isto custe o fígado durante o dia. Não é ficar com uma viola órfica na porta dos infernos chorando nostalgias sem fim e cortando-se os pulsos, mas descer aos infernos, fundo e consciente, dar umas boas porradas em Plutão e trazer Eurídice em beijos tresloucados, sonoros e escandalosamente públicos!

Passione não inclui egoísmo, mas, cumplicidade. Não inclui choro, mas risos. Não inclui oitavada desarmônica, mas a música plena e o canto pleno em afinação absoluta de corpos que se completam na delícia humana! É a experiência do diálogo – não da conversa! É um estado de envolvimento intenso que exige o mergulho na última gota de vinho: o mistério das pérolas escondidas no mais profundo deste mar tinto e bravio! Por isso mesmo, no estado de passione não se perde a última gota do vinho, aliás, nem se bebe vinho em duas taças e, poucas vezes, em uma. É experiência do vinho na boca, da boca na boca, da procura da gota do vinho no umbigo, no abdômen, nas faces, no pescoço, nos lábios, do perfume do vinho no seio desnudo – o movimento de vida! Passione é vida!

Passione é a intensidade com solidariedade. Fazer amor, intenso e sem limites, com amizade. O estado de envolvimento, com prazeres sem fim, mas, sempre, de mãos dadas, juntos, voando juntos. Não há previsão de futuro no modo passione – apenas de carpe diem, daquela intensidade presente que não se perde em prognósticos, futurismos, profetismos, rezas. No modo passione não lemos as linhas das mãos da pessoa amada, tentando ver seu dia porvir, apenas, beijamos as mãos, acariciamos as mãos, apertamos as mãos na intensidade plena do encontro dos corpos presentificados. Nas mãos não ficam linhas nem marcas, mas, impressões indeléveis de ternura, encontro e sabores do corpo inteiro!

Em passione ninguém pensa em morrer de dor ou de sofrimento, ou em arrastar correntes por corredores sem fim! Ao contrário, passione é luz, é salvação, é bênção. O momento máximo que dá sentido a uma pessoa, que a resgata da caverna e da mesmice cotidiana, pois é neste momento que é possível ver-se, encontrar-se e plenificar-se na pessoa amada! Na passione tiramos as asas da mala empoeirada e as colocamos de volta nas costas (e nos pés).

Minha amiga ficou em silêncio, trêmula e com os olhos brilhantes. E eu lhe disse: Hai Capito adesso? Então, ela olhou para suas costas e viu suas asas. Minha amiga tem asas!

Ah, minha amiga, passione nos faz voar, por isso não tem esta coisa de sofrimento, dor e choradeira. Depois que aprendemos a voar não tem mais jeito – é preciso voar sempre! Depois que você reencontra suas asas escondidas naquelas malas estranhas dos comportamentos socialmente compatíveis, sai de perto... Pois, elas grudam em suas costas e se tiver alguém por perto que não voa ou com tesouras nas mãos, ui... As asas grudadas às costas empurram idiotas ao chão, pois elas têm um poder próprio, vida própria, por isso mesmo, quando se abrem as asas o melhor é voar junto ou “vixe, fodeu!”, ou seja, cai a casa, cai o muro, cai a máscara, cai o beco, cai tudo e a vaca vai para o brejo! Asas é o que melhor retrata o movimento da passione! Gostou disso, amiga? Então, olhe para suas costas agora...wow!!! você tem asas! Quem se atreve a colocar você na gaiola? Como esconder esta maravilha que aparece no seu andar e no seu dia? Como prender você? Mulher! Encanto! Fogo! Vida! Inteligência! Voe! Abra suas asas, grandes, abertas e vença os olhares idiotizantes de asnos que passam!

E lembre-se, minha amiga, se alguém quiser ter você, na cama ou no sofá, o melhor a fazer é destruir gaiolinhas e aprender a voar...

Sem asas, ou seja, sem passione, as pessoas definham e perdem o canto. Especialmente a maioria dos homens, que têm medo psicanalítico de Freud e não resistem a cinco páginas de suas obras! Passam longe dele e sequer o mencionam, pois para ler Freud é preciso ter asas e senso de humanidade e, sobretudo, é preciso ter senso de si próprio! Voar é viver, mas, não para todos os homens! Todos não viverão nem voarão – apenas alguns. Porque para voar é preciso duas capacidades com habilidades expressivas. A primeira é ter asas! A segunda, é ver as asas de uma mulher e aprender a voar com ela, pois, somente a mulher pode ensinar o vôo a quem tiver asas. Se um homem souber ver asas em uma mulher, e se tiver as suas próprias asas, aprenderá com ela e voará alto e liberto. Mas, se tiver asas e for cego, suas asas serão sua mortalha e passará seus dias escondido entre arbustos edênicos, nomeando bichos, e terminará fazendo culto ao falo. Sim, o culto fálico é a condenação para quem não vôa, nem enxerga o vôo e, ao contrário, prefere se esconder nas cavernas de sua estupidez!

É no desenho feminino, nas asas femininas, na alma feminina e na intensidade feminina, que um homem pode ser homem completamente, com vôo, liberdade e alma! É ali, e apenas ali, que ele descobre o movimento da passione, o tempo, a experiência de voar e a vida na plenitude de uma gota de vinho. Ecco, amica mia, la passione è così!

(28 de maio, 2010)

© Pietro Nardella-Dellova (Prof. Dellova) é Escritor e Poeta. Professor de Direito Civil, Direito e Literária e Direitos Humanos, em graduação e pós-graduação.  Membro da UBE – União dos Escritores. Colaborador do Gruppo Martin Buber, de Roma/Napoli (dialoghi israelo-palestino), bem como sócio dell’Associazione sócio-culturale Notre Napul’a Visionaire, Napoli. Autor dos livros AMO (89), NO PEITO (89), ADSUM (92), FIO DE ARIADNE (org/tex), A PALAVRA COMO CONSTRUÇÃO DO SAGRADO (98), A CRISE SACRIFICIAL DO DIREITO (2001) e, agora, do A MORTE DO POETA NOS PENHASCOS E OUTROS MONÓLOGOS (2009).


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17 commenti:

Leila S Ribeiro Uzum ha detto...
Questo commento è stato eliminato dall'autore.
Renata ha detto...

Oh, my friend... It's always good read your words... because they're full of love and soul!!!

Lovely... Renata Lopes!

ha detto...

Caro mestre,
não apenas a sua amiga tem asas e sim toda mulher. Quando nasce uma mulher, que fique bem claro qualquer MULHER, o ETERNO presenteia-a com um par de asas. Todavia, o presente vem em um embrulho inusitado. O papel é impermeável, os laços e as fitas são muito bem colados. Urge porém, astúcia e delicadeza para romper o lacre. Infelizmente, nem sempre, temos a coragem de tirar as fitas e muito menos o laço. Afinal, retirar todo esse embrulho significa jogar fora todo o machismo e o preconceito que foi empregnado durante séculos em nossas almas. Digo nossas porque muitas vezes tais sentimentos não são emanados apenas pelo homem. Felizmente, existem guerreiras e heróinas que voam, jogaram fora os papéis, as fitas e todos os laços. O fato é que muitas vezes não são observadas em seus voos matinais. Acredite... muitas ainda estão alçando o primeiro voo.

Felicidades,

Luciane, Direito, AJES

Anonimo ha detto...

Salve Dellova!

Nada como acordar e encontrar em palavras tão sinceras o sentido da vida.
Nada como um homem que realmente se integra e sabe que o feminino o torma mais homem.
Nada como poder vislumbrar o que é companheirismo, o que é intensidade , por fim, o que é vidaaaa! Liberdade e amor........

Beijos

Sua Eterna Aluna

Leila Uzzum

Leila Uzzum ha detto...

Salve Dellova! Exclui o comentário anterior para fazer algumas correções, então segue, o que pensei quando lí seu maravilhoso e belíssimo texto...

Nada como acordar e encontrar em palavras tão sinceras o sentido da vida.
Nada como um homem que realmente se integra e sabe que o feminino o torna mais homem.
Nada como poder vislumbrar o que é companheirismo, o que é intensidade, por fim, o que é vidaaaa! Liberdade e amor........

Beijos

Sua Eterna Aluna

Crislainejacque ha detto...

Caro Professor,

Que definição ímpar, que prazer ler um texto tão lindo e tão profundo...

Felicidades

Crislaine Oliveira

Analuka ha detto...

Caríssimo poeta Pietro! Que bom pousar aqui em teu blog, entre um vôo e outro, e encontrar este lindo e comovente cântico ao amor, ao prazer de viver, às asas da "passione" !!! Sim, concordo com tudo o que dizes neste teu belíssimo texto, meu caro e precioso, luminoso amigo. Pois, para quem tem asas, gaiolas ou trevas só podem ser lugar de horror! Asas da passione, asas de Eros, asas de luz e desejo, asas que nos fazem inventar, levitar, descobrir sempre de novo o além do óbvio, rever conceitos, tradições e costumes, e destes extrair e guardar apenas o que é benigno, divino, amoroso, sábio... Agradeço pela oportunidade de me deleitar com as palavras aladas, e gostaria de saber se autorizarias a publicação do teu texto encantador lá no blog Ânkoras & Asas, daqui a alguns dias. Abraços de asas azuis.

Fernanda Dutra Tiisel ha detto...

WOW!!!!!! Maravilhoso, belíssimo o texto PASSIONE ou, PORQUE MINHA AMIGA TEM ASAS.
Só um homem-poeta, feito você, pra externar toda essa passione! Ahhhhh....amado amigo, la passione é o sentimento que move meus pés, faz com que eu viva intensamente todos os dias! Ahhhh... la passione, faz meu corpo tremer de emoção, meu coração bater mais forte.....la passione , poeta da minha vida, é o que alimenta minha alma!!!!!! BACIONE!!!!!

Analuka ha detto...

Caríssimo, o teu texto foi muito apreciado e comentado lá em meu blog! Convido-o a lê-los e partilhar da satisfação e alegria comigo. Deixo beijos pintados e abraços alados!!!

Natasha ha detto...

"...Amar é um estado em que o relacionamento se concretiza para o crescimento, para o fortalecimento, para germinar humanidades inteiras e desabrochar para a vida, para a alegria e descoberta da nossa própria alma, singular e plena!
Por isso mesmo, o amar e o ensinar a Torá se convertem em uma mesma relação. amar não é ter ou possuir, escravizar ou pendurar na parede, seja uma cabeça ou uma fotografia. Amar é lançar o outro adiante, na luz e nos processos de libertação..."

Pietro Dellova, A MORTE DO POETA NOS PENHASCOS E OUTROS MONÓLOGOS, Scortecci Edit., 2009, pág 139

Natasha ha detto...

"...Essa mulher que transita entre corredores da biblioteca, não como quem foge do enfrentamento de cada página, mas como quem volta agradecendo silenciosamente pelos mundos descobertos, porque ali ela reencontra os sábios e os poetas que iluminaram seus sonhos, abriram seus poros e apontaram uma direção. Ela sabe de onde veio e onde quer estar! Ela olha, se veste, ela se penteia, caminha e ela dança, sabendo que... seus olhos e os lábios de sua boca se dilatam... porque esse é o seu corpo e sua alma. Então, ela se percebe superior, como quem deixa relacionamentos opressivos sob os pés... vai, e voa, como quem deixa homens idiotas cultuando seus próprios órgãos, como quem conduz o mundo... pelo sussurro... Por isso mesmo, plena da virtude feminina e da experiência dialógica, da delícia poética, fortalecida pelas vozes e páginas iluminadas, completa dos sentidos descobertos, essa mulher, absoluta, abre suas asas ao sol..."

(Pietro Nardella-Dellova, A MORTE DO POETA NOS PENHASCOS, 2009, pág 276)

Natasha ha detto...

Meus queridos,

Cumprimento nosso querido Escritor Pietro Nardella-Dellova pelo primeiro aniversário de seu livro (nosso livro agora) A MORTE DO POETA NOS PENHASCOS E OUTROS MONÓLOGOS!
Todos nós acompanhamos a gestação deste livro, seu nascimento, suas muitas apresentações em vários lugares do mundo. Muitos aqui estiveram nos lançamentos, outros estiveram e proporcionaram, ajudaram, incentivaram, organizaram em suas cidades e estados os coquitéis.
Bem, o resultado é uma maravilhosa obra, que nos toca e nos ensina. Uma obra que nos afeta diretamente e nos provoca ao diálogo com o Poeta.
Parabéns , querido Poeta. Parabéns A MORTE DO POETA NOS PENHASCOS E OUTROS MONÓLOGOS. Parabéns Comunidade pelo constante apoio! Que o Poeta e seu trabalho tenham vida longa. Que todos os membros desta comunidade tenham vida longa!
Beijos
Nath

Anonimo ha detto...

Agradeço ao Mestre Professor Pietro Nardella-Dellova pelos momentos informais em que me consentia beber na fonte dos ensinamentos do fogo sagrado que mantinha as famílias unidas e por ter me proporcionado compreendero sentido do quanto é importante o “tu”, para a existência do “eu”.

E apropósito,“tu, te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas” (Opequeno Príncipe, Antoine De Sanint-Exupéry.);

Fabio Henrique da Fonseca

Marfiza de França ha detto...

a posto!

Maria Janice ha detto...

"Depois que aprendemos a voar não tem mais jeito – é preciso voar sempre!"

Como não sabê-lo?

Pois então, poeta, fakerizados não voam, e por isto incapazes de entender dos deslocamentos que voos conferem aos privilegiados sujeitos alados.São voos carregados de significados e significações.Realocam sentidos, rearranjam o tempo e o modo de existir. Eles, os fakerizados do tempo moderno, não têm asas, poeta, são dotatos apenas de um rabo - de pavão. Belo, colorido, fetiche para os olhos, mas não podem voar!

Há de se saber sobre as asas, sobre os voos, sobre pertencer = existir.

Analuka ha detto...

Este texto é adorável! Beijos e abraços alados, Fauno Pietro.

Keyla Moreira ha detto...

Que belo texto, faz sentir-me viva duas vezes! Belíssimas palavras!